Saúde e Bem-estar

Diabetes: a doença que "morde pela calada"

Exclusivo Online

Inês M. Borges

As doenças de sempre sob um novo olhar.

A diabetes - uma das doenças crónicas mais prevalentes no mundo - traduz-se no excesso de glicose (açúcar) no sangue, devido à diminuição da produção de insulina pelo pâncreas e/ou porque a insulina não atua de modo eficaz.

Mas como podemos controlar ou prevenir esta doença? Que complicações pode acarretar para o organismo? A médica Hilda Freitas ajuda-nos a perceber como se procede o diagnóstico da diabetes, bem como, o seu tratamento.

Hilda Freitas

Hilda Freitas

Quais as diferenças entre e diabetes tipo 1 e a diabetes tipo 2?

Pedro, de 44 anos, – nome fictício – descobriu que tinha diabetes tipo 2 numa consulta de medicina no trabalho há cerca de 20 anos.

“Sentia-me mal, sentia dificuldade em respirar, no trabalho transpirava muito, sentia-me sempre cansado e a vista estava cada vez a ficar mais fraca”, contou.

Depois de realizar um pré-teste, consultou a médica de família que o tem ajudado desde então a controlar a doença. No entanto, Pedro já conhecia a doença de perto. A mãe faleceu com diabetes, que a fez deixar de andar e ficar cega aos 50 anos. Ele e os sete irmãos são diabéticos, sendo que em alguns deles a doença ainda não manifestou complicações.

“Dos sete irmãos, há uns que levam menos a sério a diabetes, outros, como no meu caso, ficaram um bocadinho assustados. Tenho tomado mais atenção, tenho-me defendido mais. A doença não tem cura e temos que nos mentalizar que somos doentes e, neste caso, temos que aprender a lidar com ela”.

A diabetes tipo 2 é a mais comum, representado cerca de 90% dos casos. É caraterizada pela resistência à insulina e pela diminuição da secreção da insulina, que pode ser variável conforme o doente. Neste tipo de diabetes, os doentes podem já sofrer da doença há alguns anos, sem que ela seja detetada, porque não vão ao médico e não fazem exames com alguma regularidade.

O mesmo não acontece na diabetes tipo 1, que costuma ser detetada numa idade mais precoce e desenvolve-se de maneira diferente. Isto é, há uma destruição das células produtoras de insulina no pâncreas, o que resulta numa situação mais precoce e aguda da doença.

“O doente sente alterações, tem sede, urina mais, emagrece, tem um estado catabólico maior e acabamos por detetar mais precocemente, porque existe uma falência mais precoce da secreção da insulina”, explica Hilda Freitas.

Neste caso, há doentes que já nascem com uma predisposição genética para contrair esta doença e há outros em que é o próprio organismo que cria anticorpos contra determinadas células produtoras de insulina, ou contra a própria insulina, que é necessária para o metabolismo dos hidratos de carbono e para fazer com que a glicose (açúcar) que circula no sangue seja absorvida pelas células.

E que estragos pode provocar a diabetes no corpo?

No fundo, o corpo do diabético não tem mecanismos para retirar a glicose que está no sangue e ela depois provoca danos.

“Se tivermos muita glicose nos nossos vasos ela vai acelerar o nosso processo de aterosclerose, que é o depósito de várias gorduras nas artérias, que vão fazer com que elas fiquem mais frágeis. Com o tempo vai calcificar, o que faz aumentar o risco de rutura, de trombos, e consequentemente, enfartes de miocárdio, AVC’s, ou outro tipo de complicações”, esclarece a médica.

Segundo Hilda Freitas, as complicações que a população mais conhece são as que estão relacionadas com o coração e o cérebro, porque são as que têm mais impacto.

“Se tiver um enfarte do miocárdio é muito mau, se tiver um AVC também tem a perceção que é muito mau, ou vai deixar de mexer uma perna, ou um braço, ou não vai conseguir andar, ou vai deixar de conseguir falar.”

Estas consequências são as que têm mais impacto a nível social, mas existem ainda outras que são mais silenciosas e que, segundo a médica, “mordem pela calada”, como danos nos rins ou nos olhos. Aliás, a doença renal no doente diabético é a causa principal da hemodiálise dos doentes a nível mundial.

Há ainda outro risco associado à diabetes que assusta a maior parte dos doentes – o chamado pé diabético – que pode levar à amputação da perna. No diagnóstico da diabetes, os médicos rastreiam os doentes, de maneira a descobrir se há uma neuropatia (uma complicação que afeta o sistema nervoso do paciente) ou alterações vasculares nos membros inferiores.

“Temos que ver se há feridas ou calosidades nos pés. Perguntamos também ao doente se tem dor na barriga da perna quando anda e tentamos ver quantos metros conseguem andar até sentir a dor, tentando verificar se estamos perante uma claudicação, o que é indicativo de termos artérias com aterosclorose em grau significativo”, refere a médica.

Se for detetado precocemente um pé diabético devemos ter uma abordagem por uma equipa multidisciplinar, podendo o tratamento ser médico e/ou cirúrgico.

Os diabéticos têm também maior risco de perda de visão, quer por ter maior risco de cataratas, glaucoma e retinopatia diabética - esta é uma condição relacionada com os vasos da retina que pode resultar em pequenas hemorragias até edema da mácula. Por isso, é aconselhável que os doentes com diabetes consultem anualmente um oftalmologista.

Se o meu pai ou a minha avó tiverem diabetes eu também vou ter?

Como refere Hilda Freitas, há uma predisposição genética.

“Não quer dizer que pela mãe ter diabetes tipo 2 que o filho vai ter também diabetes tipo 2, mas sabemos que há uma predisposição, que existe um maior risco”.

Não há, portanto, uma correlação a 100%, porque, para além da parte genética, existem fatores ambientais que são importantes para o desenvolvimento da doença.

No caso de Pedro, o facto de a mãe ter tido diabetes fez com que estivesse mais predisposto a sofrer desta doença. Contudo, outros fatores ambientais levaram a doença a manifestar-se mais cedo. Aos 24 anos, pesava 102 quilos e sentia-se frustrado porque sabia que estava com excesso de peso. Quando lhe foi diagnosticada a diabetes, Pedro fez de tudo para mudar de vida e, em um ano, emagreceu 20 quilos.

“Na altura quando comecei a fazer a dieta, vi os valores da diabetes a reduzirem e isso ajudou-me”, confessa.

Como prevenir ou controlar a doença

A alimentação e o exercício físico são os dois fatores mais importantes a ter em conta. O exercício pode ser uma caminhada a um ritmo mais acelerado, andar de bicicleta, praticar algum desporto e deve ser mais de 150 minutos por semana, ou seja, dia sim, dia não, evitando não efetuar atividade física mais de dois dias consecutivos.

Já para a alimentação Hilda Freitas tem uma regra: “costumo dizer aos meus doentes que é para dividir o prato em quatro: um quarto com batata, ou arroz ou massa, no outro quarto é a proteína, ou seja, carne ou peixe, e na metade restante são legumes.” Recomenda ainda que sejam feitas “cinco a seis refeições por dia” onde se deve “reduzir a quantidade de hidratos de carbono e gorduras, comer muitos legumes e sopa, que as vezes as pessoas se esquecem.” Podem também comer “três peças a cinco peças de fruta e nunca comer peças de fruta sozinhas. Deve-se comer uma peça de fruta mais qualquer coisa, uma ou duas bolachas maria, ou então meio pão mais escuro, ou até um iogurte magro de aroma.” Contudo, salienta-se que não existe uma dieta melhor do que a outra e, por isso, as dietas devem ser individualizadas conforme o doente.

“Isto é tudo uma questão de hábitos”, remata Hilda Freitas, alertando que estas indicações não servem apenas para os diabéticos.

A prevenção junto das crianças e jovens

Os hábitos começam a ser criados em idades jovens e, por isso, deve ser prestada uma especial atenção à alimentação e atividade física dos mais novos. A médica considera que uma das medidas mais importantes é “evitar o sedentarismo”.

“Acho que as crianças têm que brincar muito, correr muito, saltar muito. Devem evitar estar sentadas à frente da televisão a jogar jogos”, aponta.

Em termos de alimentação, a médica garante que as crianças não precisam de “bolachas e McDonald’s”.

“O que é preciso é o arroz, a massa ou batata, pão, legumes, carne ou peixe, mas tudo em quantidades equilibradas. Isto não quer dizer que não se possa comer um doce de vez em quando”, acrescenta.

Porém, admite que nem sempre é fácil manter um estilo de vida saudável, até porque, por vezes, o equilíbrio é difícil de encontrar nas famílias com ritmos diferentes.

Mudar estilos de vida

“Eu costumo dizer, se a diabetes tivesse um comprimido ou uma pílula milagrosa, toda a gente estava curada. Como ela depende da atitude do doente, das crenças do doente, dos hábitos do doente, da capacidade do doente se readaptar a esta nova fase da vida dele é muito mais difícil”, afirma Hilda Freitas.

Mudar o estilo de vida para Pedro não foi fácil, mas garante que se sente melhor com os novos hábitos.

“Tenho respeitado e tenho sabido viver com a doença. Temos que nos saber equilibrar emocionalmente, até porque há dias em que me deito na cama e digo assim: eu não quero chegar ao nível da minha mãe. Nós temos que saber respeitar a nossa doença, senão num instante deixa-nos aflitos.”

A médica considera ainda que esta geração está mais virada para o exercício e para a alimentação, mas que só daqui a dez ou vinte anos é que se vão ver os frutos destas mudanças de hábitos.

“Estamos mais sensibilizados porque a falta de qualidade de vida que observamos nas gerações mais velhas muitas vezes tem a ver com o mau uso que deram ao seu corpo. Nós somos iguais a um carro. Se tratarmos muito bem o nosso carro, ele chega ao fim de dez, vinte anos e continua a andar quase igual ao primeiro dia que o comprámos, se dermos um mau uso, ao fim de cinco anos já está bom para ir para a sucata. O que fizermos com o nosso corpo vamos pagá-lo mais tarde ou mais cedo, não vale a pena pensar que isto aguenta tudo.”

Novas linhas de tratamento

O tratamento dos doentes com diabetes tipo 2 inclui a educação, a avaliação das complicações, a redução da hiperglicemia (com medicamentos que poderão aumentar a insulina, como a administração de insulina ou medicamentos que promovam a secreção de insulina; que melhoram a sensibilidade da insulina, que atrasam a absorção de carbohidratos do tubo digestivo, que aumentam a eliminação de glicose urinária), e o tratamento dos fatores de risco cardiovasculares (como a hipertensão arterial, a obesidade, o tabagismo e a dislipidemia).

Atualmente também surgiram novos medicamentos para a diabetes, nomeadamente, comprimidos para os doentes diabéticos tipo 2.

“Agora preocupamo-nos mais com as complicações que o doente poderá ter ou já apresenta no momento em que fez o diagnóstico e tentamos adequar a medicação ao tipo de complicações que o doente tem. Por exemplo, um doente que tem insuficiência cardíaca, não o vamos medicar com determinados medicamentos porque sabemos que podem aumentar o risco de internamento por insuficiência cardíaca, ou seja, não é benéfico para aquele doente. Tentamos adequar o nosso tratamento ao tipo de doente que temos.”

As novas linhas de tratamento relativas à diabetes serão abordadas na 1.ª edição das Jornadas de Medicina Interna dos Hospitais Trofa Saúde do Minho, que se vão realizar no Hospital Trofa Saúde Braga Centro, que identifica e debate as doenças que mais afetam os portugueses.