Mauro Paulino

Comentador SIC Notícias

Saúde e Bem-estar

Hiperatividade e défice de atenção também são coisas de crescidos

As pessoas com PHDA, sobretudo as que são diagnosticadas apenas na vida adulta, são rotuladas como indolentes ou irresponsáveis. Só disponibilizando informação e com uma avaliação e abordagem adequada será possível atenuar o sofrimento de doentes e familiares, através de uma melhoria do prognóstico a longo prazo.

Hiperatividade e défice de atenção também são coisas de crescidos

Durante muitos anos pensava-se que as perturbações do neurodesenvolvimento eram entidades que afetavam unicamente crianças, ou seja, que seriam exclusivas da pediatria. Em particular, a perturbação de hiperatividade/défice de atenção, conhecida como PHDA, pela expressividade dos sintomas na infância, esteve afastada da prática clínica relativa aos adultos.

Com o avançar da investigação, percebeu-se que os sintomas, persistentes, de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade, mesmo que atenuados, ocorriam nos vários contextos de vida (por exemplo, o trabalho) e continuavam a ter um impacto funcional marcado na idade adulta.

Aliás, é nesta idade que surgem, frequentemente, outras patologias psiquiátricas associadas a complicar o quadro, tratando-se de uma população particularmente vulnerável a determinados acontecimentos de vida, tais como morte precoce, acidentes graves e criminalidade.

Sabe-se que, apesar de um diagnóstico de uma perturbação do neurodesenvolvimento obrigar à presença de sintomas desde a infância, as formas menos graves destas patologias, nas quais se insere a PHDA, podem ser compensadas durante uma fase da vida em que o ambiente externo é mais condescendente, sobretudo se existir um bom funcionamento cognitivo. Consequentemente, só na idade adulta, as estratégias de compensação se mostram insuficientes dadas as exigências impostas pelas responsabilidades e autonomias que se esperam nesta fase da vida.

Cerca de 80% dos adultos com diagnóstico de PHDA apresenta, pelo menos, uma outra doença psiquiátrica associada, com destaque para as perturbações do humor, da ansiedade, perturbações por uso de substâncias e perturbações da personalidade, para além de outras perturbações no neurodesenvolvimento.

Para que se tenha ideia a PHDA e a perturbação bipolar são duas entidades bastante relacionadas, uma vez que, para além de uma percentagem de coexistência que varia entre 5.1% e os 47.1%, a PHDA é mais frequente em doentes com história familiar de perturbação bipolar.

Por sua vez, a prevalência da perturbação depressiva major em doentes com PHDA é elevada, variando entre os 18.6% e os 53.3%. Cerca de metade dos adultos com PHDA apresentam simultaneamente uma perturbação de ansiedade.

Possivelmente, as perturbações por uso de substância constituem a comorbilidade mais comum na PHDA, em particular, por abuso ou dependência de álcool, nicotina, canábis e cocaína, com uma prevalência que oscila entre 45% a 55%. Invariavelmente, esta comorbilidade está associada a uma idade de início de consumo mais precoce, a um maior risco de tentativa de suicídio, a taxas inferiores de adesão a programas terapêuticos, a menor probabilidade de atingir a abstinência, a um maior número de hospitalizações e a uma maior probabilidade de consumo de várias substâncias.

Parece também existir uma associação entre a presença de PHDA na infância e o desenvolvimento de perturbação da personalidade na vida adulta, enquanto padrão de funcionamento e comportamento inflexível que se afasta do esperado numa dada cultura, sendo a borderline (estado-limite) e a antissocial as mais frequentemente reportadas em pessoas com PHDA.

Ainda que o tratamento farmacológico seja recomendado em adultos como a primeira linha para o tratamento da PHDA, as alterações neuropsicológicas apuradas com influência negativa no quotidiano têm levado, cada vez mais, à combinação de estratégias farmacológicas e psicossociais, com a finalidade de reduzir ao máximo os sintomas e promover a melhoria global nas diferentes áreas de funcionamento. Estima-se mesmo que cerca de 30% dos doentes adultos não respondem de forma satisfatória aos tratamentos puramente farmacológicos.

Embora com necessidade de mais estudos, nos últimos anos têm sido várias as intervenções não farmacológicas com boa evidência para o tratamento da PHDA, tais como a psicoeducação, a terapia cognitivo-comportamental, o treino cognitivo, intervenções nutricionais e o exercício físico.

Reconhecer que a PHDA não é um diagnóstico exclusivo para crianças contribuirá para quebrar receios e estigmas, que dificultam o diagnóstico, além de condicionar as estratégias de tratamento. De facto, as pessoas com PHDA, sobretudo as que são diagnosticadas apenas na vida adulta, são rotuladas como indolentes ou irresponsáveis. Só disponibilizando informação como aquela que aqui se resumiu e com uma avaliação e abordagem adequada será possível atenuar o sofrimento de doentes e familiares, através de uma melhoria do prognóstico a longo prazo.