Saúde e Bem-estar

Há cada vez mais mulheres a morrer durante a gravidez, parto e pós-parto: o que pode explicar a situação “invulgar”?

Há cada vez mais mulheres a morrer durante a gravidez, parto e pós-parto: o que pode explicar a situação “invulgar”?

A taxa de mortalidade materna disparou nos últimos quatro anos em Portugal. O presidente da Associação Europeia de Medicina Perinatal, Diogo Ayres-de-Campos, explica as possíveis razões que levaram a este rumo e apresenta algumas soluções para o inverter.

A taxa de mortalidade materna atingiu um valor recorde em 2020: foram registados em Portugal 20,1 óbitos por 100 mil nascimentos, o nível mais alto dos últimos 38 anos e um valor acima da média europeia, que é de cerca de 13 óbitos por 100 mil nascimentos.

Para Diogo Ayres-de-Campos, presidente da Associação Europeia de Medicina Perinatal e diretor do departamento de Ginecologia e Obstetrícia do hospital de Santa Maria, Portugal deve procurar comparar-se aos países com melhores indicadores – países do Norte e Centro da Europa – e não à média europeia, “que incluiu muitos países do Leste”.

“Os números são preocupantes porque é o quarto ano seguido em que há um aumento da mortalidade. É algo que nos deve preocupar”, referiu.

Em 2017, ano a partir do qual a taxa nacional de mortalidade materna começou a ter uma tendência crescente em Portugal, tinham sido registados oito óbitos por 100 mil nascimentos, números enquadrados com os registados em países como a Alemanha (7 por 100 mil nascimentos) e França (8 por 100 mil nascimentos).

“O que parecia ser o caso em 2018 era que havia mães com mais idade e com doenças graves que se aventuraram numa gravidez mesmo sabendo dos riscos associados”, explicou o obstetra numa entrevista à SIC Notícias.

Mesmo assim, a gravidez em idades tardias não explica por si só a subida acentuada da taxa de mortalidade materna em apenas quatro anos, considera Diogo Ayres-de-Campos. E também a pandemia de covid-19 não servirá para explicar o aumento da taxa de mortalidade materna: “não há conhecimento de mortes maternas por covid-19”.

De acordo com o Jornal de Notícias, que cita dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 19 óbitos, nove ocorreram na faixa etária dos 35 aos 44 anos, oito entre os 25 e 34 anos e um entre os 19 e 24. Na taxa de mortalidade materna são contabilizadas as mortes devido a complicações na gravidez, durante o parto ou no período do puerpério (até 42 dias após o parto).

Apesar de não ter dados que lhe permitam responder com “total conhecimento de caso”, o diretor de Obstetrícia do hospital de Santa Maria apontou alguns fatores que podem estar a contribuir para o aumento da taxa de mortalidade materna. Ao serviço de obstetrícia daquele hospital têm chegado “algumas grávidas que vêm dos países africanos em situações, por vezes, muito complicadas”.

“Por outro lado, há uma degradação dos cuidados obstetrícios. As equipas estão mais instáveis, com muitas pessoas que não fazem parte dos quadros”, respondeu, acrescentando que a contratação de prestadores de serviços é, por vezes, “a única solução possível”.

Ainda esta domingo, o hospital de Braga registou “sérios constrangimentos” na urgência de Obstetrícia por falta de médicos, admitido recorrer a prestadores de serviços. “Está a acontecer em imensos hospitais”, indicou Diogo Ayres-de-Campos, revelando que, só na região de Lisboa e Vale do Tejo, há cerca de quatro hospitais na mesma situação.

“Os quadros hospitalares têm ficado escassos, há muitos médicos a saírem para os hospitais privados”, referiu.

E, tal como acontece noutros serviços, há “cada vez mais urgências que não são verdadeiras urgências”. Segundo o médico responsável pelo serviço de obstetrícia do hospital de Santa Maria, muitas grávidas recorrem às urgências obstétricas porque não há uma “adequada orientação nos cuidados de saúde primários”.

Diogo Ayres-de-Campos defende, por isso, que seja repensada a forma como estão organizados os centros hospitalares. “Já passaram 20 anos desde que se fez o planos de referenciação, as populações não são as mesmas”, apontou, acrescentando que, atualmente, o conhecimento evoluiu e que o número de partos no privado também aumentou.

“Se calhar aquilo que estamos a fazer precisa de ser adaptado. É preciso haver uma estratégia nacional”, defendeu.

DGS cria comissão para investigar mortes maternas

A Direção-Geral da Saúde já criou uma comissão multidisciplinar para investigar e estudar as mortes maternas. Questionado sobre a criação deste grupo de trabalho, Diogo Ayres-de-Campos disse esperar que seja levada a cabo uma “avaliação exaustiva das causas das mortes maternas” e que sejam tiradas “conclusões claras” para que seja possível atuar face “à situação invulgar” que “causa grande sofrimento a algumas famílias”.

BE quer audição urgente no Parlamento

O Bloco de Esquerda requereu esta terça-feira uma audição com caráter de urgência da Diretora Geral da Saúde, Graça Freitas, e do presidente da Associação Europeia de Medicina Perinatal, Diogo Ayres-de-Campos, para prestarem esclarecimentos sobre a mortalidade materna em Portugal.

O obstetra disse que só tomou conhecimento do pedido de audição “pela comunicação social” e mostrou-se disponível, em entrevista à SIC Notícias, para dar a sua contribuição se for chamado.

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