A maioria de nós reconhecerá, algures na sua jovem vida, ter pensamentos como “Se for mãe jamais farei isto aos meus filhos!”, “Quando crescer não quero ser como o meu pai!” ou “Nunca vou ser assim, de certeza!”.
Nós podemos querer “não ser assim”, mas a verdade é que, pela simples condição de ser humano, temos características incríveis e outras que nem tanto; umas que incomodam só a alguns, outras que incomodam todos os que nos rodeiam. Ou seja, ninguém se livra de ter os seus ‘defeitos’ - ou fragilidade, na psicologia - e que estes qualifiquem tanto a personalidade como as ditas ‘qualidades’ - ou forças, mais usado no mundo dos psi.
A questão é que se nos focarmos mais no que não queremos ser do que naquilo que somos, corremos o risco de ignorar as nossas fragilidades e, numa necessidade gritante por atenção, elas soltam-se de forma descontrolada, na pior versão possível. Provavelmente, naquela que jamais iríamos ser.
Do lado da minha mãe sempre convivi com uma grande família e isso foi-me ajudando a perceber com o que mais me identificava e com o que nem por isso, naquele grande grupo em que todos se pareciam com alguém e, ao mesmo tempo, ninguém era igual a ninguém.
Olhando para trás, vejo que essa realidade também me dá a possibilidade de ir aprendendo que as diferenças são tão valiosas como as semelhanças (acreditem que integrei muito melhor este conceito na vida adulta do que na infância ou na adolescência!) e que se as semelhanças nos oferecem pertença, as diferenças são o que nos torna únicos, ou especiais, se preferirem.
Já agora, sentirmo-nos especiais e em pertença, são necessidades que favorecem uma boa auto estima. Já do lado do meu pai, não havia vivência de tribo, não havia esta clareza de pertença, havia até alguma confusão e, hoje percebo que por defesa, desconexão da minha parte.
Ah, e dentro da minha cabeça também havia muito de “Nunca vou ser assim, de certeza!”. Morderam a língua? Eu mordi e à grande!! E quanto mais mordia a língua mais a confusão aumentava.
Como é que eu podia ter características tão presentes de alguém com quem não me identificava? Foi preciso recorrer à minha capacidade de observação, à riqueza da psicoterapia e de outros caminhos de desenvolvimento pessoal para dar muitos passos atrás e conseguir ver mais a fundo e com maior amplitude.
Agarrar a coragem de olhar para as minhas fragilidades, reconhecê-las e aceitá-las como parte integrante de mim, e perceber que em grande parte foram elas que deram origem às minhas forças. E ainda entender que as minhas forças, a que tanto me segurei, quando usadas em excesso, também se tornam fragilidades.
Hoje não consigo dizer se me identifico mais com o lado da minha mãe ou com o lado do meu pai, revejo-me tanto em cada um, no que gosto mais e no que nem por isso. Desço da minha arrogância que é bastante ignorante e, consciente de que houve momentos difíceis, aceito melhor o que considero fragilidades e orgulho-me das forças. Neles e em mim! E sei que para tomar conta daquilo que não quero que esteja tão presente, preciso de ver, reconhecer e aceitar que sou isso mesmo, perceber o que isso me pede para então, poder cuidar.
A mudança é o resultado da aceitação daquilo que é frágil em nós e do cuidado constante que essa fragilidade nos pede. Se a ignorarmos, não só não mudamos como vivemos na dor e acabamos por mostrar a nossa pior versão. E o mais provável é passarmos para os nossos filhos muitos “Nunca vou ser assim, de certeza!”.

