A Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) condena a decisão de restringir a prescrição de injetáveis e sensores para diabetes a apenas quatro especialidades médicas.
Desde o dia 8 de agosto, a apenas os médicos das especialidades de endocrinologia e nutrição, medicina interna, pediatria e medicina geral e familiar estão autorizados a prescrever sensores de monitorização da glicose intersticial e medicamentos da classe dos agonistas dos recetores GLP-1 (semaglutido, dulaglutido, liraglutido e exenatido).
Nesta classe de fármacos inclui-se o Ozempic, desenvolvido para tratar a diabetes tipo 2, mas que está também a ser usado para combater a obesidade e ajudar à perda de peso.
Para a SPAVC, a medida “compromete a necessária abordagem multidisciplinar e integrada”, considerando “inaceitável a exclusão de especialidades que desempenham um papel fundamental na prevenção e tratamento do acidente vascular cerebral e no controlo dos seus fatores de risco”.
A relação entre o AVC e a diabetes
“O AVC é a principal causa de morte em Portugal e uma das principais causas de incapacidade. A diabetes é um dos seus mais relevantes fatores de risco modificáveis”, lembra a organização num comunicado enviado esta segunda-feira às redações.
São admitidos nos hospitais portugueses em média 70 vítimas de AVC por dia e entre 30 e 50% têm também diabetes.
Constata-se “diariamente nas Unidades de AVC e consultas de doenças cerebrovasculares o resultado da dificuldade de controlar eficazmente a diabetes e outros fatores de risco vascular”, aponta a organização.
Além disso, os análogos do GLP-1, um dos medicamentos cuja prescrição está agora limitada a quatro especialidades, demonstraram “efeito na redução do risco de AVC e sua recorrência”.
Neurologistas e cardiologistas excluídos
A SPAVC apela à “revisão urgente” desta decisão, alargando a possibilidade de prescrição a especialidades como a neurologia - “diretamente responsável pelo diagnóstico, tratamento e seguimento dos doentes com AVC” - a cardiologia, a nefrologia e a cirurgia vascular.
“O caminho não deverá passar por restringir a prescrição a quem pode beneficiar, mas sim promover orientações informadas para uma correta e atempada prescrição”, defende a organização.
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No despacho que institui a medida, o Ministério da Saúde justifica a decisão com "as dificuldades amplamente reconhecidas" no acesso a estas terapêuticas e com os relatos de uso indevido destes recursos, sendo o objetivo "regular e corrigir essas distorções, promovendo um acesso efetivo e adequado a essas ferramentas essenciais à saúde".
