Mauro Paulino

Comentador SIC Notícias

Saúde e Bem-estar

O processo de luto e a escrita terapêutica: a libertação da dor de uma perda

Uma das estratégias mais eficazes aquando da gestão do sofrimento provocado por uma experiência emocionalmente violenta, como é exemplo a perda de uma pessoa próxima, é a escrita, pelo seu poder terapêutico para a saúde mental. E porque é a escrita considerada terapêutica, pela Psicologia?

O processo de luto e a escrita terapêutica: a libertação da dor de uma perda
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Estudos científicos dizem-nos que a escrita ajuda na organização mental do acontecimento, a qual permite alcançar uma narrativa (mais) coerente e associada a novas perspetivas e novas estratégias de gestão do sofrimento.

A título de exemplo, quando um cuidador informal, após a perda da pessoa de quem cuidava, escreve sobre os anos em que cuidou da pessoa amada e consegue compreender que “eu fiz tudo o que estava ao meu alcance”, acaba por se libertar de sentimentos de culpa e pensamentos de falha, potenciadores de mal-estar psicológico e de um processo de luto menos saudável.

Por conseguinte, a escrita, ao permitir uma maior organização do evento e novas interpretações/significados, contribui para a redução de pensamentos intrusivos, os quais perdem a frequência, mas também a intensidade.

Para alguém que se debatia, diariamente, com pensamentos como “Será que fiz tudo?” ou “E se tivesse feito isto diferente?”, associados a um enorme cansaço e desgaste psicológico, a mudança de narrativa é, assim potenciadora, de uma enorme libertação emocional (“Depois de perceber que fiz tudo, fui invadida por uma sensação de paz que me permitiu, realmente, viver o meu luto, se a amarra da culpa”).

A escrita permite que os pensamentos negativos percam o seu impacto emocional, à medida que a pessoa vai libertando as suas emoções, encontrando novas perspetivas e desenvolvendo novos pensamentos. Por acréscimo, potencia uma libertação fisiológica que reduz a tensão emocional e física associada à inibição prolongada do desejo de revelar informação.

E de que forma pode ser utilizada aquando de uma perda?

São vários os cenários possíveis associados à redação de cartas de despedida, principalmente quando não existiu oportunidade de dizer adeus (ou quando sentimos que não foi, de todo, suficiente); ou uma carta a pedir desculpas (para libertar assuntos pendentes, que não resolvemos com a pessoa, em vida); ou a exigir um pedido de desculpas (por exemplo, no caso de um suicídio, em que nos sentimos, em parte, zangados com o outro); ou uma carta a expressar afeto (para a libertação das saudades, as quais tendem a crescer ao longo do processo de luto).

Outro exemplo é a escrita de um diário em que a pessoa partilha o seu sentir com a pessoa perdida, desabafando sobre episódios do dia-a-dia ou relativamente a eventos importantes – funciona como uma forma de manter a pessoa perdida “viva” no dia-a-dia e presente na vida familiar. Por oposição, pode existir um diário em que a pessoa escreve, diária ou aleatoriamente, sobre medos, preocupações, emoções, libertando-as no papel e, simultaneamente, ganhando maior consciência do que rouba o seu bem-estar.

A escrita de histórias ou episódios vivenciados com a pessoa perdida também é um ritual do luto, quando essas histórias e cartas são guardadas numa caixa de memórias, junto com fotografias e outros pertences da pessoa perdida.

Por exemplo, num dia simbólico, como o dia de aniversário da pessoa perdida, a família pode reunir-se, cada um dos membros escreve um episódio com a pessoa perdida, lê em voz alta para todos recordarem, em família, a pessoa ausente e, no final, todos colocam essas histórias escritas na caixa de memórias, a qual podem abrir, recordar e acrescentar cartas em dias simbólicos (ou sempre que sentirem essa necessidade).

Deste modo, a escrita terapêutica potencia a libertação da dor emocional, a mudança dos pensamentos, o aumento do autoconhecimento da pessoa sobre o seu processo de luto, como ainda facilita a prática de rituais do luto saudáveis. No entanto, não substitui a procura de ajuda psicológica especializada.

Caso ainda não se sinta disponível emocionalmente para esse passo, pode beneficiar da leitura de livros potenciadores de um processo e luto (mais) saudável, como é exemplo o livro “A Mensagem das Lágrimas: como lidar com um luto” e recorde-se: nunca é tarde demais.