Saúde e Bem-estar

Os fungos que habitam o nosso corpo e influenciam a nossa saúde

Do intestino à pele, da vagina aos pulmões, a investigação mostra que o equilíbrio destas comunidades pode influenciar doenças inflamatórias, infeções e até a resposta imunitária.

Ilustração feita por computador do fungo Candida, o mais comum no intestino
Ilustração feita por computador do fungo Candida, o mais comum no intestino
KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRA

Os fungos fazem parte do microbioma humano e, apesar de menos estudados do que as bactérias, têm um papel cada vez mais reconhecido na saúde. Do intestino à pele, da vagina aos pulmões, a investigação mostra que o equilíbrio destas comunidades pode influenciar doenças inflamatórias, infeções e até a resposta imunitária.

"O termo "microbioma intestinal" tornou-se popular na área da saúde nos últimos anos, graças ao crescente número de estudos que mostram a importância dos biliões de micróbios que vivem no nosso intestino para a nossa saúde", escreve Rebecca A. Drummond, professora de Imunologia e Imunoterapia na Universidade de Birmingham.

A maioria das pessoas associa o microbioma apenas às bactérias, mas ele inclui também outros microrganismos, como fungos - o microbioma de fungos.

Candida: o fungo mais comum no intestino

O microbioma de fungos mais investigado é o intestinal, onde coexistem várias espécies fúngicas. No mundo ocidental, a família Candida é a mais frequente.

Outro estudo, realizado em doentes oncológicos, observou que aqueles que desenvolveram infeções graves por Candida apresentavam já um crescimento excessivo do fungo no microbioma antes do início da infeção. Combinado com os efeitos da quimioterapia no sistema imunitário, este crescimento facilitou a progressão da infeção.

Crescimento excessivo de Candida e outras doenças

Um desequilíbrio na quantidade de Candida no intestino tem sido associado a várias doenças. Doentes em estado crítico apresentam níveis elevados deste fungo, o que sugere que o excesso de Candida pode ser um indicador de fragilidade clínica.

Alterações no microbioma de fungos têm sido associadas também a doenças intestinais, incluindo a doença inflamatória intestinal. Na doença de Crohn, há evidências de um crescimento excessivo de Candida e da produção de toxinas que irritam a mucosa intestinal, o que pode ajudar a explicar alguns sintomas.

Níveis elevados de Candida no intestino podem ainda ativar células imunitárias, tornando-as mais inflamatórias. Isso foi observado em doentes com COVID-19 grave.

Microbioma de fungos na pele

O microbioma de fungos não está apenas no intestino. A pele também possui o seu próprio conjunto de fungos e a zona entre os dedos dos pés é uma das que apresenta maior diversidade.

A pele é dominada pela levedura Malassezia, adaptada para crescer à superfície cutânea. Este fungo pode ativar células imunitárias da pele e contribuir para inflamação em doenças como psoríase e eczema.

Ladanifer

Outro fungo que preocupa especialistas é a Candida auris, resistente a vários antifúngicos. Se proliferar na pele, pode ser um risco para pessoas com o sistema imunitário fragilizado, sobretudo em hospitais e serviços de urgência.

Microbioma vaginal

As mulheres têm também um microbioma vaginal, cujo equilíbrio com as bactérias locais é essencial para a saúde.

A candidíase vaginal - uma das infeções fúngicas mais comuns no mundo - é causada pela Candida albicans, elemento habitual do microbioma vaginal. Os sintomas incluem comichão intensa, dor e inchaço, e muitas mulheres terão pelo menos um episódio ao longo da vida.

Normalmente, o microbioma vaginal é dominado por Lactobacillus, bactérias que ajudam a manter a Candida sob controlo. Antibióticos ou outros fatores que alterem este equilíbrio permitem a proliferação do fungo e o desencadear da inflamação, responsável pelos sintomas.

Os probióticos têm sido estudados como forma de restaurar o equilíbrio, embora com resultados limitados. Tratamentos que visam moléculas fúngicas responsáveis por inflamação mostram algum potencial em estudos animais e num pequeno número de mulheres.

Microbioma de fungos noutros locais do corpo

Há indícios de que também existam fungos nos pulmões e no leite materno.

Mais controversa é a hipótese de que pequenas quantidades de fungos possam estar presentes no cérebro e ter relação com doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer. Autópsias revelaram fungos em cérebros de pessoas com estas doenças, mas isso não prova que estivessem lá durante a vida nem que tenham causado a patologia.

Experiências em ratinhos mostram que pequenas quantidades de células fúngicas podem sobreviver no cérebro durante longos períodos e associam-se a défices de memória. Estudos com moscas reforçam que fungos podem migrar para o cérebro e alterar o seu funcionamento.

Mas ainda não está demonstrado que isto ocorra em humanos, nem se tal poderia ser considerado um verdadeiro microbioma.

"Ainda há muito que desconhecemos sobre o microbioma de fungos. Mas, com a continuidade da investigação nesta área, poderemos em breve compreender melhor a importância para a nossa saúde e como podemos nutri-lo e cuidar dele", conclui Rebecca A. Drummond.