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“Quem resistiu ao último inverno resiste ao que aí vem”

Resiliência. O impacto dos atrasos nos rastreios e diagnósticos continua a fazer-se sentir em oncologia, mas a recuperação, apesar de nem sempre rápida, está em marcha e o foco já se encontra em promover uma mudança duradoura para o futuro

Perto de 450 mil rastreios aos cancros da mama, do útero e do colo e reto ficaram por realizar no primeiro ano de pandemia

José Fernandes

Tiago Oliveira

O processo de normalização em curso está a avançar na oncologia e, se ainda é cedo para apurar na totalidade os efeitos da pandemia (que se manifestarão), o balanço podia ser pior. “Não houve nenhuma catástrofe nacional com a oncologia”, sintetiza o diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas. “Não foi por aqui que as coisas correram mal, antes pelo contrário”, defende José Dinis.

Apesar de perto de 450 mil rastreios aos cancros da mama, do útero e do colo e reto terem ficado por realizar no primeiro ano de pandemia, assim como 29 milhões de exames complementares de diagnóstico e terapêutica, José Dinis é de opinião que a oncologia mostrou-se resistente face ao impacto da covid-19 e confessa que “estamos a recuperar ao ritmo que é possível”. Os rastreios já estão “praticamente ao nível de 2019” e caminham a passos largos para recuperar o “que se perdeu em 2020”, enquanto as “listas de espera diminuíram” e os doentes começam de novo a ganhar confiança para se deslocarem aos serviços. Por isso, numa altura em que o desconfinamento acelera, a perspetiva de uma potencial nova subida de casos e mortos — acompanhado do respetivo aumento de pressão sobre os cuidados hospitalares — não enche o médico de preocupação, por causa do sucesso da vacinação e das lições aprendidas com as anteriores vagas. “Não espero grande impacto, quem resistiu ao último inverno resiste ao que aí vem.”

Mais crítico relativamente ao desempenho da oncologia ao longo deste período está o presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro, Vítor Rodrigues, para quem os efeitos da pandemia nos serviços foram exacerbados pelas “insuficiências que já tínhamos antes”. É importante lembrar que, mesmo que haja “alguma recuperação”, a situação “ainda não está de todo normalizada”, sobretudo no que diz respeito aos rastreios e à referenciação. “A partir do momento em que mantemos os mesmos problemas, não conseguimos recuperar com a rapidez necessária”, afiança. O responsável acredita que uma das soluções pode passar por uma “estratificação clínica”, ou seja, instituições de cuidado intermédias que podem fazer a triagem e tratar doentes oncológicos que não tenham necessidade de ir para centros maiores. “Temos que adequar a oferta de cuidados à procura. Falta isso em Portugal”, sustenta. É aqui que o Plano Europeu contra o Cancro (que pode conhecer melhor na caixa em cima) pode funcionar como elemento transformador e inspirador, não só em termos de organização, mas também de dinheiro. “Gosto do plano, está muito bem feito e estabelece colaboração entre países e instituições, o que é bom”, explica Vítor Rodrigues, mas com uma ressalva: “O problema está na implementação prática.” Se a aplicação dos financiamentos “não for bem sustentada e aplicada”, não basta “atirar dinheiro para cima” do problema.

Efeitos colaterais

Para António Almeida, diretor do Serviço de Hematologia do Hospital da Luz e diretor do laboratório de hemato-oncologia do IPO Lisboa, o “aspeto mais crítico” no imediato “é começar a expandir os rastreios e ter a certeza de que estão atualizados, para garantir que toda a população é abrangida”. A fase da pandemia que atravessamos já nos permite olhar em frente e o médico considera que o grande problema estrutural a resolver é a “equidade nos acessos”. A disparidade geográfica é difícil de compreender quando acontece num “país pequeno” como Portugal, e António Almeida acredita que com os novos instrumentos nacionais e internacionais disponíveis estamos perante uma oportunidade de garantir maior igualdade nos “tratamentos dispensados nas diferentes unidades” espalhadas pelo país e de promover uma maior “articulação nacional” entre as diferentes instituições. Outra questão que o médico pretende que tenha uma maior atenção passa pelo “investimento na qualidade de vida dos sobreviventes do cancro”. “Ainda estamos muito focados no resto, mas não nos podemos esquecer dos efeitos colaterais a longo prazo.” É necessário esforço a “nível social e de apoios para reintegrá-los” e fazer com que se tornem de novo membros produtivos da sociedade.

Para dar resposta a estas (e outras) preocupações está atualmente em “apreciação na tutela” um novo plano nacional para as doenças oncológicas, que reúne uma série de contributos e elementos para mudar a face do combate ao cancro em Portugal. Um dos campos principais de atuação é precisamente os rastreios e, segundo José Dinis, o objetivo é que “até final de 2022 todo o território esteja coberto por rastreios” e que, até “dezembro de 2025, o sistema de rastreios convoque 95% da população” e seja capaz de “convencer a maioria a entrar”. O responsável está confiante, e “aqui a vacinação da covid pode dar uma grande ajuda” e servir como exemplo para o que é necessário fazer para atingir estas metas. Seja como for, mau grado as dificuldades, José Dinis não tem dúvidas de que “o sistema de saúde saiu fortalecido” de todo este período. Das dificuldades resultou, à falta de melhor expressão, “uma aprendizagem à pressa, que agora tem que ser capitalizada” da melhor forma possível.

PLANO EUROPEU DE LUTA CONTRA O CANCRO

Contexto
Doentes. Apresentado no início deste ano, o Plano Europeu de Luta Contra o Cancro surge quase como a ‘bazuca’ da União Europeia (UE) para lidar com uma das maiores emergências de saúde públicas que os Estados-membros continuam a enfrentar, com ou sem covid. Em 2020, foram diagnosticadas com cancro 2,7 milhões de pessoas e 1,3 milhões perderam a vida. Se nada mudar, estima-se que, até 2035, os casos de cancro aumentem quase 25%, passando a ser a principal causa de morte na UE.

Metas
Objetivo. A prevenção, a deteção precoce, o diagnóstico e tratamento, e a melhoria da qualidade de vida são os quatro principais eixos de atuação. Fazer com que menos de 5% da população consuma tabaco até 2040 ou que 90% da população da UE que preencha os critérios para o rastreiodo cancro da mama, do colo do útero e do cancro colorretal,tenha acesso ao rastreio.

Orçamento
Financiamento. O plano será implementado com um total de €4 mil milhões para cumprir dez iniciativas de fundo e diversas ações de apoio.

A covid-19 nos doentes oncológicos

15% dos doentes oncológicos apresentam sequelas de longa duração após infeção por covid-19. A conclusão é de um trabalho conduzido por Alessio Cortelinni e David Pinato — ambos do departamento de Cirurgia e Cancro do Imperial College London — e apresentado esta semana no Congresso Anual da ESMO — Sociedade Europeia de Oncologia Médica. O estudo analisou 2795 doentes com cancro que sobreviveram à infeção por SARS-CoV-2, e entre as sequelas identificadas encontram-se sintomas respiratórios (49,6%), fadiga (41%) e problemas neurocognitivos (7,3%). Efeitos que são mais frequentes em homens, doentes com idade igual ou superior a 65 anos, com pelo menos duas comorbilidades, com historial de tabagismo, que tinham sido hospitalizados devido ao novo coronavírus ou que tinham recebido terapêutica contra o mesmo. É certo que a persistência de sintomas após a infeção é uma preocupação para os profissionais de saúde, mas as melhorias a esse nível já são bem visíveis, sobretudo por causa da vacinação em massa.

Textos originalmente publicados no Expresso de 24 de setembro de 2021

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