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Investigação do cancro precisa de chegar aos doentes e ensaios dependem da indústria

Em 2020, Portugal contabilizou mais de 60 mil novos casos e cerca de 30 mil mortes por cancro e, nas últimas décadas, a incidência no país tem aumentado, seguindo a tendência de outros países europeus

A investigação do cancro em Portugal necessita de beneficiar os doentes e os ensaios clínicos estão muito dependentes dos interesses das farmacêuticas, alerta um estudo hoje divulgado, que defende a criação de centros específicos de oncologia.

“O sistema de investigação nacional em cancro está em expansão e é capaz de produzir investigação de excelência que é competitiva a nível europeu. No entanto, o conhecimento produzido ainda carece de consolidação e de tradução eficaz em benefício do paciente ou da sociedade”, refere o estudo promovido pela Associação Portuguesa de Investigação em Cancro (ASPIC).

Em 2020, Portugal contabilizou mais de 60 mil novos casos e cerca de 30 mil mortes por cancro e, nas últimas décadas, a incidência no país tem aumentado, seguindo a tendência de outros países europeus, adianta o documento.

De acordo com o estudo que faz um retrato dos últimos dez anos da investigação biomédica do cancro em Portugal, apesar do número de ensaios clínicos ter aumentado significativamente na última década, e dos dados, ‘per capita’, serem semelhantes aos registados na Alemanha, o país ainda “apresenta um ecossistema subdesenvolvido” nesta área.

“Os ensaios clínicos que existem são altamente dependentes do apoio privado, o que implica um perfil mais alinhado com os interesses da indústria farmacêutica (por exemplo, dedicado à aprovação de medicamentos específicos), e potencialmente menos alinhado com as necessidades clínicas específicas do país ou de cada centro hospitalar envolvido nos estudos”, alerta a ASPIC.

Isto faz com que os centros clínicos portugueses estejam principalmente envolvidos em grandes ensaios multinacionais, refere a associação, ao adiantar que a investigação do cancro publicada por equipas nacionais “não é citada em diretrizes clínicas com a mesma frequência que a de outros sistemas”.

“No seu conjunto, a informação disponível sugere que a investigação nacional em cancro não está a ter um elevado impacto na prática clínica”, alerta o primeiro estudo do género feito em Portugal.

Em relação à forma como essa investigação resulta em tecnologias ou práticas inovadoras, o “sistema apresenta poucos indicadores positivos”, sinaliza também o documento, que apurou que o número de patentes biomédicas registadas e aprovadas a nível europeu é “ainda bastante baixo”.

Já quanto à capacidade de captação de financiamento europeu, o estudo avança que o sistema português “apresenta ainda bastantes dificuldades”, tendo em conta que “muito poucas empresas privadas portuguesas são capazes de assegurar o financiamento da União Europeia para o desenvolvimento da inovação a partir de instrumentos de PME”.

“Estes dados, apontam, uma vez mais, para um sistema de inovação que não está devidamente desenvolvido”, refere a ASPIC, ao destacar, porém, que várias iniciativas recentes estão a concentrar-se no desenvolvimento da capacidade do país para fazer a transferência de conhecimentos no domínio biomédico e melhorar os cuidados aos pacientes.

É o caso da Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica (AICIB) ou do Porto Comprehensive Cancer Centre (P.CCC), refere o estudo.

A nível geográfico e de instituições que fazem investigação em cancro, o Porto surge em destaque, com a Universidade do Porto, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e o IPO Porto.

Segue-se Lisboa, com uma rede maior de instituições, e depois Coimbra e a região do Minho, com um “crescimento recente bastante substancial”, indica o documento da ASPIC.

Na vertente mais clínica da investigação, os principais hospitais nacionais e institutos de oncologia (IPO) têm um “papel fundamental”, adianta também o estudo, que refere que o país conta com um conjunto de centros que, apesar de não serem especializados na investigação do cancro, “contribuem grandemente para o ecossistema português e alguns são altamente competitivos nos concursos europeus", como é o caso do Instituto de Medicina Molecular (iMM) e os Centros Champalimaud.

“O sistema de investigação biomédica em Portugal está em clara expansão, incluindo a investigação em cancro que, apesar de ainda representar apenas 10% da investigação biomédica nacional, também aumentou significativamente na última década. Prova disso é o facto de a produção bibliométrica, ‘per capita’, ser semelhante a sistemas como os de França, Espanha e Alemanha”, sublinha o estudo.

Tendo como base as principais conclusões deste trabalho, a ASPIC avança com medidas que pretende que possam “servir como base de discussão com as entidades relevantes e com poder de decisão” para melhorar a estratégia nacional para a investigação em cancro.

De acordo com a associação, estas medidas passam pela criação de centros especificamente dedicados à investigação em oncologia, com financiamento sustentável, incluindo centros académicos, centros clínicos e indústria.

“Esta ação pode ser atingida através da estruturação das instituições e recursos já existentes, considerando a possibilidade de constituição do “Cancer Research Hubs””, refere o estudo.

Além disso, deve ser reforçado o investimento em instrumentos, infraestruturas e recursos humanos, dedicados a promover a transferência da investigação básica em “abordagens que gerem produtos inovadores e que tenham impacto clínico”, alega a ASPIC.

Com a realização deste estudo, que contou com o apoio da Fundação "la Caixa", da Fundação Calouste Gulbenkian e da Novartis, a associação pretendeu “iniciar discussões entre todos os interessados e identificar pontos fortes e alavancas para posicionar Portugal como uma voz forte na investigação em cancro" a nível global.

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