O cancro está a deixar de ser, em muitos casos, uma sentença para passar a ser uma doença com duas fases: o tratamento e a sobrevivência. Segundo dados da OCDE, em Portugal o número de pessoas a viver depois de um diagnóstico de cancro aumentou 27% numa década, acima da média europeia. Mas esta segunda vida traz desafios, nomeadamente nas complicações crónicas.
Marta Pojo, do Núcleo Regional Sul da Liga Portuguesa Contra o Cancro, explica que “quando há doença avançada que não é dada como curada, mas está controlada ou em remissão, estamos a falar de cancro como doença crónica”, defendendo que essa distinção é essencial para compreender as necessidades de acompanhamento a longo prazo.
Para quem sobreviveu a um cancro, o término dos tratamentos não significa o fim de atenção à saúde. Lurdes Bebiano, hoje com 65 anos, foi diagnosticada com cancro da mama aos 47 e enfrentou “17 sessões de quimioterapia e 32 de radioterapia” antes de poder respirar de alívio. A partir daí, a vigilância e o acompanhamento médico foram essenciais para lhe dar confiança e tranquilidade. “Quero estar sempre um passo à frente [de qualquer problema de saúde]”, admite. “É por isso que todos os anos faço esta revisão e mantenho-me tranquila.”
Mesmo quando o cancro deixa de estar ativo, a cronicidade pode permanecer sob outra forma, através de sequelas físicas e psicológicas associadas aos tratamentos. “O cancro pode provocar outras doenças adicionais, devido ao seu tratamento, que tornam essas pessoas doentes crónicos”, afirma. É o caso das neuropatias, dores persistentes ou alterações hormonais e metabólicas. “São doenças crónicas associadas ao cancro, mas não é o cancro enquanto doença crónica”, clarifica.
No IPO, Joana Simões Pereira, endocrinologista com consulta dedicada à sobrevivência, vê esse padrão todos os dias. “Podem surgir alterações em qualquer órgão como consequência dos tratamentos efetuados”, diz, com exemplos concretos: uma quimioterapia que induz “menopausa muito precoce e repentina”, ou radioterapia que pode aumentar, com o tempo, o risco de segundos cancros. “Estes riscos permanecem ao longo de toda a vida” e devem ser acompanhados, aponta.
E se o envelhecimento, por si só, representa riscos acrescidos e maior propensão para doenças crónicas, a experiência de um sobrevivente oncológico pode agravá-los, nomeadamente ao nível cardiovascular. “Um doente sobrevivente de cancro geralmente tem um risco cardiovascular cerca de sete vezes superior ao da população em geral”, afirma.
A questão central é o seguimento e a capacidade do sistema para o assegurar com tempo e uma visão integrada. “Um doente que tem uma consulta de 15 minutos com o seu oncologista terá maior dificuldade em falar destes problemas secundários”, considera. A Liga tenta colmatar falhas que persistem no SNS, como a falta de recursos humanos, com apoio. Sobretudo na saúde mental. “O cancro tem um impacto gigantesco na saúde mental, não só da pessoa, mas de quem a rodeia também”, afirma.
Lurdes Bebiano sentiu isso. Mas garante ter ultrapassado “o medo” e diz-se agora “com coragem”, fruto do apoio emocional que encontrou nos amigos e na família, mas também em pessoas que passaram por experiências semelhantes. Foi por isso que se inscreveu como voluntária no movimento Vencer e Viver, da Liga, para dar a outros doentes o conforto que ajuda a dar esperança e ser “o testemunho de que é possível”. “Há sempre um dia da semana que reservo para isto”, sublinha.
A par de um maior investimento no apoio à saúde mental, o SNS precisa de reorganizar os cuidados e assegurar uma monitorização permanente e personalizada dos sobreviventes oncológicos, considera Joana Simões Pereira. “Era muito importante darmos formação aos colegas da medicina interna e medicina geral e familiar” para estarem atentos aos riscos, mas também criar “consultas mais especializadas só a pensar na sobrevivência dos doentes”. Porque, sublinha, “um sobrevivente de cancro é um seguimento para a vida toda”.

