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Depois de tudo, viver é “estar sempre um passo à frente”

Superação. O número de sobreviventes cresceu de forma significativa na última década em Portugal, acima da média europeia. O desafio passou a ser garantir acompanhamento médico e qualidade de vida para lá dos tratamentos

18 anos depois de vencer um cancro da mama, Lurdes Bebiano dedica um dia por semana ao voluntariado no IPO para apoiar quem precisa
18 anos depois de vencer um cancro da mama, Lurdes Bebiano dedica um dia por semana ao voluntariado no IPO para apoiar quem precisa
Matilde Fieschi

O cancro está a deixar de ser, em muitos casos, uma sentença para passar a ser uma doença com duas fases: o tratamento e a sobrevivência. Segundo dados da OCDE, em Portugal o número de pessoas a viver depois de um diagnóstico de cancro aumentou 27% numa década, acima da média europeia. Mas esta segunda vida traz desafios, nomeadamente nas complicações crónicas.

Marta Pojo, do Núcleo Regional Sul da Liga Portuguesa Contra o Cancro, explica que “quando há doença avançada que não é dada como curada, mas está controlada ou em remissão, estamos a falar de cancro como doença crónica”, defendendo que essa distinção é essencial para compreender as necessidades de acompanhamento a longo prazo.

Para quem sobreviveu a um cancro, o término dos tratamentos não significa o fim de atenção à saúde. Lurdes Bebiano, hoje com 65 anos, foi diagnosticada com cancro da mama aos 47 e enfrentou “17 sessões de quimioterapia e 32 de radioterapia” antes de poder respirar de alívio. A partir daí, a vigilância e o acompanhamento médico foram essenciais para lhe dar confiança e tranquilidade. “Quero estar sempre um passo à frente [de qualquer problema de saúde]”, admite. “É por isso que todos os anos faço esta revisão e mantenho-me tranquila.”

Mesmo quando o cancro deixa de estar ativo, a cronicidade pode permanecer sob outra forma, através de sequelas físicas e psicológicas associadas aos tratamentos. “O cancro pode provocar outras doenças adicionais, devido ao seu tratamento, que tornam essas pessoas doentes crónicos”, afirma. É o caso das neuropatias, dores persistentes ou alterações hormonais e metabólicas. “São doenças crónicas associadas ao cancro, mas não é o cancro enquanto doença crónica”, clarifica.

No IPO, Joana Simões Pereira, endocrinologista com consulta dedicada à sobrevivência, vê esse padrão todos os dias. “Podem surgir alterações em qualquer órgão como consequência dos tratamentos efetuados”, diz, com exemplos concretos: uma quimioterapia que induz “menopausa muito precoce e repentina”, ou radioterapia que pode aumentar, com o tempo, o risco de segundos cancros. “Estes riscos permanecem ao longo de toda a vida” e devem ser acompanhados, aponta.

E se o envelhecimento, por si só, representa riscos acrescidos e maior propensão para doenças crónicas, a experiência de um sobrevivente oncológico pode agravá-los, nomeadamente ao nível cardiovascular. “Um doente sobrevivente de cancro geralmente tem um risco cardiovascular cerca de sete vezes superior ao da população em geral”, afirma.

A questão central é o seguimento e a capacidade do sistema para o assegurar com tempo e uma visão integrada. “Um doente que tem uma consulta de 15 minutos com o seu oncologista terá maior dificuldade em falar destes problemas secundários”, considera. A Liga tenta colmatar falhas que persistem no SNS, como a falta de recursos humanos, com apoio. Sobretudo na saúde mental. “O cancro tem um impacto gigantesco na saúde mental, não só da pessoa, mas de quem a rodeia também”, afirma.

Lurdes Bebiano sentiu isso. Mas garante ter ultrapassado “o medo” e diz-se agora “com coragem”, fruto do apoio emocional que encontrou nos amigos e na família, mas também em pessoas que passaram por experiências semelhantes. Foi por isso que se inscreveu como voluntária no movimento Vencer e Viver, da Liga, para dar a outros doentes o conforto que ajuda a dar esperança e ser “o testemunho de que é possível”. “Há sempre um dia da semana que reservo para isto”, sublinha.

A par de um maior investimento no apoio à saúde mental, o SNS precisa de reorganizar os cuidados e assegurar uma monitorização permanente e personalizada dos sobreviventes oncológicos, considera Joana Simões Pereira. “Era muito importante darmos formação aos colegas da medicina interna e medicina geral e familiar” para estarem atentos aos riscos, mas também criar “consultas mais especializadas só a pensar na sobrevivência dos doentes”. Porque, sublinha, “um sobrevivente de cancro é um seguimento para a vida toda”.