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Cancro: “Não falamos de algo longínquo. É o presente”

Oncologia. A medicina de precisão assume cada vez mais destaque e é vista como uma forma de personalizar o tratamento. Oferece “maior eficácia e menor toxicidade”, evita “tratamentos fúteis” e aumenta as hipóteses de sobrevivência dos doentes

Júlio Oliveira nos corredores do IPO-Porto, onde é o coordenador da Unidade de Ensaios Precoces, pioneira na sua área em Portugal

RUI DUARTE SILVA

Tiago Oliveira

É como (tentar) fazer um fato por medida. A comparação é assumidamente simples mas serve como ponto de partida para perceber a principal vantagem da medicina de precisão aplicada à oncologia: molda o tratamento em função das características genéticas e permite adequar a resposta médica em benefício do doente.

A meta é “a realização de um tratamento dirigido a uma alteração molecular, habitualmente num gene, que é uma alteração promotora do crescimento do tumor”, explica Luís Costa. O diretor do serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar Lisboa Norte acredita que as terapias inseridas nesta área permitem aos profissionais de saúde serem “mais específicos na escolha de um medicamento antitumoral e possivelmente com menos efeitos adversos, em comparação com tratamentos que não são dirigidos a alterações moleculares específicas, como será o caso da quimioterapia”. Importa dizer que a medicina de precisão não está a ganhar tração como um substituto dos métodos mais utilizados — a que se junta a radioterapia, por exemplo — até porque ainda não pode ser utilizada em todos os cancros e tumores. Para “este objetivo”, explica Luís Costa, “será necessário que a ciência básica identifique a referida alteração e uma forma eficaz de inibir a sua atividade”. Além disso, é “necessário também desenvolver um teste diagnóstico que permita reconhecer essa alteração na prática clínica e, obviamente, ter a comprovação em ensaios clínicos sobre a sua eficácia”.

Júlio Oliveira é o coordenador da Unidade de Ensaios Precoces do IPO-Porto, pioneira em Portugal, e criada há dois anos, com foco na dinamização da medicina de precisão em oncologia e em tentar facilitar o aceso de doentes a novas terapias que se enquadram neste campo. “Não falamos de algo longínquo. É o presente”, diz. O trabalho passa por um esforço de coordenação com outras instituições para identificar pessoas com “tumores raros ou que já tenham esgotado” praticamente todas as hipóteses de tratamento e proceder a uma sequenciação genómica para perceber se podem ser enquadrados em ensaios de tratamentos inovadores. A referenciação e evolução está em constante acompanhamento por um “Molecular Tumor Board”, organismo que junta diferentes especialistas oncológicos da instituição para discutir caso a caso.Dos 280 doentes na unidade, apenas “10 a 15% recebem recomendação de tratamento”, porque “não é só por alguém ter uma alteração molecular” que se pode enveredar por esta via. “É preciso perceber se as alterações detetadas são relevantes, para que não se aumente a toxicidade desnecessariamente. Por isso é que o número de doentes alocados é tão baixo”, explica.

Custos elevados

“O número crescente de alterações moleculares identificadas como alvo potencial tem vindo a crescer de forma substancial”, aponta o médico oncologista do Hospital de Santa Maria, André Mansinho, e é partir daqui que surge “o primeiro passo para que possa ser utilizada uma terapêutica-alvo”. A aplicação “de sequenciação de nova geração permite, de uma forma rápida, com recurso a uma amostra tumoral ter acesso às alterações genómicas mais frequentes num determinado tipo de tumor, ao invés da realização de múltiplos testes isoladamente”. Em algumas situações, como acontece com o cancro do pulmão, “já se considera o método padrão”, e estes estudos são vitais para “identificar potenciais candidatos a terapêuticas de ensaios clínicos”. Apesar de alguns avanços registados e de já “existirem várias instituições e empresas que podem prestar este tipo de serviços”, em Portugal “o preço é elevado” e a “acessibilidade ainda é algo limitada”, com “o circuito de aprovação dos pedidos a carecer de otimização”. Defende André Mansinho que “é crucial que seja feito planeamento e investimento a médio prazo, pois em breve” estaremos perante “uma ferramenta de trabalho que irá ser incorporada na clínica”, com uma certeza: “Atrasos a esse nível vão limitar o acesso à inovação e, em última análise, prejudicar os doentes.”

Pede-se mais investimento e o Plano Europeu de Luta contra o Cancro pode dar um empurrão importante. A medicina de precisão é um dos eixos do documento, o que significa que há financiamento disponível. “A Bélgica faz quase cinco vezes mais ensaios do que nós e Espanha oito vezes mais”, aponta Júlio Oliveira. “Isto traduz uma assimetria muito grande” e coloca-nos no fundo da cauda da Europa. “O quadro comunitário obriga-nos a trabalhar de forma diferente” e a desenvolver “projetos em conjunto” para garantir mais investimento. O responsável dá o exemplo do Porto Comprehensive Cancer Centre, que recebeu um financiamento de €17 milhões e resulta de um consórcio entre o IPO-Porto e o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Será a forma mais eficaz de a comunidade oncológica avançar também em campos como a cirurgia de precisão, que “já tem em conta o conhecimento genético da doença” e é mais eficaz, desvenda José Dinis. O coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas reforça que dar mais condições à medicina de precisão não merece discussão, pois trata-se de algo que oferece “maior eficácia e menor toxicidade”. É uma forma de “evitarmos tratamentos fúteis e é por isso que queremos avançar”.

Armas Inovadoras contra o Cancro

Imunoterapia
Células. É uma forma inovadora de tratamento para o cancro, cada vez mais utilizada, através da qual se promove uma ativação do sistema imunitário. Deste modo, quando as células de determinado órgão do organismo se transformam em células tumorais, elas poderão ser reconhecidas pelos glóbulos brancos, que terão capacidade de as destruir eficazmente.

mRNA
Vacinas. O RNA Mensageiro ganhou relevância com a covid-19, mas já antes se exploravam as potencialidades desta forma de carregar o código genético do vírus, que contém as instruções para que as células do corpo produzam certas proteínas. A farmacêutica alemã BioNTech já administrou uma vacina experimental contra o cancro a 120 doentes.

Medicamentos agnósticos
Moléculas. Agnóstico deriva do termo grego para “desconhecido”, e estes novos fármacos são dirigidos a uma determinada alteração molecular mesmo que se desconheça a localização anatómica de origem do tumor. Recentemente foi aprovado pela primeira vez na Europa um medicamento deste género.

O cancro que mais mata em Portugal

4797. É o número de mortes provocadas pelo cancro do pulmão em Portugal em 2020, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde. Trata-se da doença oncológica responsável por mais óbitos em Portugal e, no ano passado, foram diagnosticados 5415 novos casos de cancro do pulmão, com 85% dos novos casos a serem detetados em pessoas que fumam ou fumaram. A incidência é três vezes superior nos homens que nas mulheres, mas com os números a mostrarem uma tendência de subida no sexo feminino. O panorama é preocupante e a grande preocupação é que estes dados mais recentes não reflitam sequer a verdadeira dimensão do problema e do aparecimento de novos tumores pulmonares. A pandemia provocou um enorme atraso no deteção de novos cancros, com informações da Liga Portuguesa Contra o Cancro a darem conta que 400 mil rastreios e 100 mil diagnósticos de cancro ficaram por fazer, o que terá um impacto assinalável a curto e médio prazo no aparecimento de cancros em estado mais avançado e com consequências diretas na mortalidade.

Textos originalmente publicados no Expresso de 13 de agosto de 2021

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