Um grupo de investigação português liderado pela astrobióloga Lígia Coelho testou, pela primeira vez, copos menstruais em condições reais de voo espacial. Os resultados mostram que estes dispositivos mantêm a forma e a funcionalidade mesmo sob acelerações extremas, abrindo caminho a soluções mais sustentáveis para futuras missões à Lua e a Marte.
Comer de uma saqueta, dormir preso à parede ou usar uma sanita a vácuo são adaptações necessárias para viver no espaço. A menstruação também exige planeamento, sobretudo quando se pensa em missões longas para a Lua ou Marte.
Foi por isso que a investigadora portuguesa Lígia Fonseca Coelho, astrobióloga e bolseira de pós-doutoramento na Universidade de Cornell, liderou o projeto AstroCup, que testa copos menstruais em condições reais de voo espacial.
“Precisamos de discutir seriamente sobre o que significa ter autonomia sobre a saúde no espaço"
Num estudo publicado na revista da Nature npj Women’s Health, a equipa descreve a primeira validação deste tipo de dispositivos em ambiente espacial, um passo considerado essencial para garantir autonomia em saúde durante missões tripuladas.
"O nosso teste avaliou como o material e a funcionalidade dos copo menstruais respondem às condições extremas de um voo espacial. No entanto, ainda falta compreender como este tipo de dispositivo se comporta em microgravidade real e sob exposição prolongada à radiação, fatores que não foram simulados neste voo", explicou Lígia Coelho em entrevista à SIC Notícias.
Os coautores com Coelho são Catarina Miranda, Miguel Morgado e Diogo Nunes, da Universidade de Lisboa, e João Canas, da empresa aeroespacial SpinWorks. São autores contribuintes André F. Henriques, da Universidade de Lisboa, e Adam B. Langeveld, investigador de Cornell e da Johns Hopkins University.
"Além disso, é essencial desenvolver soluções de limpeza, esterilização e descarga de fluidos, adaptados ao interior de uma nave espacial, onde a água é limitada e os resíduos têm de ser cuidadosamente geridos".
Lançamento a bordo do foguetão português Baltasar
O projeto começou em 2022, quandodois copos menstruais de silicone foram lançados a bordo do foguetão português Baltasar, do Instituto Superior Técnico. A caixa metálica que os transportava, desenhada por engenheiros aeroespaciais, subiu até três quilómetros de altitude, passou alguns minutos em microgravidade e regressou intacta.
“Tiveram um desempenho muito bom. Agora sabemos que os copos da Lunette, e provavelmente os de outras marcas, são muito resistentes à turbulência e à microgravidade", disse na altura Lígia Coelho.
A equipa escolheu a finlandesa Lunette pelo perfil sustentável e pela aposta em opções menstruais mais ecológicas.
Copos mantêm estrutura e funcionalidade
A experiência mais recente decorreu num voo suborbital não tripulado, que proporcionou 9,3 minutos de microgravidade e fases de aceleração extrema, especialmente no lançamento e na descida antes da abertura do paraquedas.
A equipa confirmou que os dois copos menstruais de silicone mantiveram a integridade estrutural e a funcionalidade, mesmo durante a aceleração extrema.
Num teste com água, após o voo, o copo preservou a forma. Outro teste, usando glicerol - um análogo do sangue - confirmou que o dispositivo se comportou de forma funcional.
“Estamos a desenvolver tantos sistemas para manter humanos vivos num sítio onde não deviam estar. Quanto mais longe formos, para a Lua ou Marte, mais difícil se torna", explica Lígia Coelho.
“A saúde das mulheres no espaço é muito pouco estudada. Há temas que continuam a ser tabu. E se não falamos deles, ninguém investe neles"
Atualmente, a maioria das astronautas suprime a menstruação hormonalmente durante missões de vários meses. Quem prefere menstruar tem apenas uma opção logística: levar pensos ou tampões descartáveis… e trazê-los de volta. A NASA estima um custo de 10 mil dólares por cada libra (0,45 kg) enviada para o espaço, o que torna esta solução pouco sustentável para viagens de anos como até Marte.
Além disso, a supressão hormonal prolongada exige grandes quantidades de medicação e levanta questões de segurança, nomeadamente riscos acrescidos de coágulos sanguíneos.
“Precisamos de discutir seriamente sobre o que significa ter autonomia sobre a saúde no espaço. Os dispositivos menstruais ainda não chegaram ao espaço e isso tem de mudar", defende Lígia Coelho.
“A saúde das mulheres no espaço é muito pouco estudada. Há temas que continuam a ser tabu. E se não falamos deles, ninguém investe neles", afirma a investigadora.
Lígia Coelho trabalha no Carl Sagan Institute, onde estuda biossinais microbianos para apoiar a procura de vida noutros planetas. Antes da astrobiologia, foi investigadora na área do cancro e criou um kit de diagnóstico de infeções urinárias pensado para missões com equipas reduzidas.
Objetivo: colocar copos menstruais na Estação Espacial Internacional
Em fevereiro, a equipa AstroCup enviou copos menstruais com membros da tripulação na missão simulada Hypatia II, na Estação de Investigação do Deserto de Marte, no Utah, recolhendo dados sobre a usabilidade e as reações dos astronautas.
"Estamos a conduzir experiências com astronautas análogas para avaliar usabilidade, conforto e requisitos operacionais em ambientes extremos. Para além dos copos menstruais, estamos também a testar outros dispositivos menstruais reutilizáveis, como roupa interior menstrual, para identificar quais são os mais adequados para missões de longa duração".
O passo seguinte será levar estas tecnologias a um ensaio em ambiente espacial real, idealmente na Estação Espacial Internacional.
“Queremos desenvolver opções que permitam às astronautas gerir a menstruação de forma segura e autónoma no espaço”
O AstroCup nasceu como um projeto de Lígia Coelho com colegas: as astrobiólogas Catarina Miranda e Coelho, e os engenheiros aeroespaciais Catarina Pereira, Miguel Morgado, João Canas e Diogo Nunes para "criar soluções que aumentem a autonomia dos astronautas na gestão da sua saúde, neste caso na saúde menstrual, durante missões no espaço".
"Com o AstroCup não queríamos apenas lançar um copo. Queríamos lançar esta conversa", afirma.
Para Lígia Coelho, garantir dispositivos menstruais seguros e reutilizáveis faz parte da preparação de missões espaciais.
"Há muito poucos casos documentados de menstruação no espaço e, por isso, não sabemos que efeitos a exposição prolongada à radiação, as alterações do sistema imunitário em microgravidade ou o stress fisiológico de uma missão a Marte podem ter sobre a saúde menstrual. Precisamente por existirem estas lacunas, é urgente desenvolver opções que permitam às astronautas gerir a menstruação de forma segura e autónoma no espaço".

