Ciência

Cientistas rejuvenescem o sistema imunitário usando o fígado como "substituto" do timo

O timo, órgão essencial para produção de células imunitárias T, perde eficácia com a idade.

Ilustração das células T, ou linfócitos T, componentes do sistema imunitário do organismo que reconhecem um local específico (antigénio) na superfície de agentes patogénicos ou corpos estranhos, ligam-se a ele e produzem anticorpos para o eliminar.
Ilustração das células T, ou linfócitos T, componentes do sistema imunitário do organismo que reconhecem um local específico (antigénio) na superfície de agentes patogénicos ou corpos estranhos, ligam-se a ele e produzem anticorpos para o eliminar.
KEITH CHAMBERS/SCIENCE PHOTO LIB

Cientistas conseguiram restaurar temporariamente a produção de células imunitárias em ratinhos idosos, usando o fígado como substituto do timo, um órgão essencial da imunidade que perde eficácia com a idade.

Com o passar dos anos, o sistema imunitário perde gradualmente eficácia, tornando o organismo mais vulnerável a infeções, cancro e outras doenças.

Agora, uma equipa de cientistas do MIT e de Harvard descobriu uma nova forma de rejuvenescer um dos seus componentes essenciais, com potencial para melhorar a saúde na terceira idade, segundo a investigação publicada na revista Nature.

O papel do timo na imunidade

A investigação, conduzida por uma equipa do Broad Institute do MIT e da Universidade de Harvard, centrou-se no timo, um pequeno órgão localizado atrás do esterno, na parte superior do tórax. O timo é crucial para o desenvolvimento das células T ou linfócitos T, um tipo de célula imunitária responsável por identificar e eliminar ameaças como vírus, bactérias e células cancerígenas.

A partir do início da idade adulta, o timo começa a encolher e a perder atividade, o que limita a produção de novas células T e contribui para o enfraquecimento do sistema imunitário.

Transformar o fígado num “substituto” do timo

Em experiências com ratinhos, os investigadores conseguiram reutilizar parte do fígado para desempenhar temporariamente algumas das funções do timo.

“À medida que envelhecemos, o sistema imunitário começa a decair. Queríamos perceber como manter este tipo de proteção imunitária durante mais tempo, e foi isso que nos levou a pensar em formas de reforçar a imunidade", diz o neurocientista do MIT, Mirco Friedrich.

As proteínas que desaparecem com a idade

Numa primeira fase da experiência, a equipa comparou o sistema imunitário de ratinhos jovens e idosos. Essa análise permitiu identificar três proteínas de sinalização essenciais, cujos níveis diminuem com a idade: DLL1, FLT3-L e IL-7. Estas proteínas desempenham um papel central na transformação de células imaturas em células T funcionais e na sua manutenção.

Com base nesses resultados, os investigadores desenvolveram um tratamento com mRNA, o ácido ribonucleico mensageiro que funciona como um conjunto de instruções para a produção de proteínas. O tratamento foi administrado através de injeções repetidas no fígado de ratinhos idosos.

A escolha do fígado não foi casual: é um órgão com elevada capacidade de produção de proteínas, mesmo em idades avançadas.

Resultados: mais células T e melhor resposta imunitária

Após quatro semanas de tratamento, os ratinhos idosos apresentaram aumentos significativos no número e na diversidade de células T. Também responderam de forma mais robusta às vacinas e mostraram maior capacidade de combater tumores, sinais de um sistema imunitário mais forte e funcional.

Um aspeto que os cientistas salientaram é que o aumento da produção de células T induzido pelo fígado foi temporário. Isto reduz o risco de uma estimulação excessiva do sistema imunitário, que poderia provocar inflamação ou levar o organismo a atacar os seus próprios tecidos.

Apesar dos resultados encorajadores, os cientistas sublinham que é ainda necessário demonstrar a viabilidade desta abordagem em humanos. Os próximos passos incluem testes noutros animais e a exploração de diferentes proteínas de sinalização e tipos de células imunitárias.

Já houve outras tentativas de rejuvenescer a produção de células T, nomeadamente através da administração direta de estimulantes imunitários na corrente sanguínea, muitas vezes com efeitos secundários e riscos significativos. Os resultados agora publicados sugerem que esta estratégia baseada no fígado pode vir a ser uma alternativa mais segura e eficaz.

"Se conseguirmos restaurar algo essencial como o sistema imunitário, esperamos poder ajudar as pessoas a manterem-se livres de doenças durante mais tempo", afirma Zhang.