Cultura

Escritor Mario Vargas Llosa diz que corrupção é a grande ameaça à democracia

O escritor Mario Vargas Llosa apontou a corrupção como "uma grande ameaça à democracia, que está a minar as suas fundações" e para a qual "há uma tolerância que é extremamente perigosa".

"Uma minoria não se pode substituir a uma maioria do país, e criar um  problema constitucional, que é o princípio da democracia".  disse o escritor
© Jorge Silva / Reuters

Mario Vargas Llosa falava aos jornalistas, minutos depois de ter recebido  o doutoramento "Honoris Causa" pela Universidade Nova de Lisboa. 

O escritor afirmou que "sempre houve corrupção, mas, hoje em dia, parece  haver uma tolerância, que cria uma falta de respeito pelas instituições,  uma atitude um pouco cínica face ao poder, ao Governo, às eleições, um grande  desprestígio dos partidos políticos, que pode corromper a vida democrática,  e é um fenómeno que tanto pode ocorrer nos países desenvolvidos como em  vias de desenvolvimento". 

Questionado sobre o apoio ao manifesto contra a independência da Catalunha,  que assinou, assim como centenas de personalidades da cultura espanhola,  entre as quais Pedro Almodóvar, o escritor hispano-peruano Vargas Llosa  defendeu que "há que se respeitar a Constituição (de Espanha), que foi amplamente aprovada por imensa maioria de espanhóis, entre eles, uma imensa maioria  de catalães". 

"Esta Constituição tem regras que devemos respeitar, ou a democracia  é ferida, e este texto define que a soberania reside no povo espanhol, no  seu conjunto, e uma fração não pode decidir arbitrariamente, tornar-se independente  do resto de Espanha, violando uma Constituição e uma soberania", argumentou.

O escritor afirmou que a "Constituição pode ser alterada, mas é preciso  respeitar os mecanismos que ela própria tem". 

"Uma minoria não se pode substituir a uma maioria do país, e criar um  problema constitucional, que é o princípio da democracia". 

Questionado pela Lusa sobre a hipótese de criar um regime federalista  espanhol - de Estados de Espanha -, como propõe o PSOE, para resolução da  questão catalã, Vargas Llosa foi claro: "Não se acalma um tigre entregando-lhe  cordeiros. O tigre continua a ser um tigre e, se lhe entregam cordeiros,  só se lhe abre o apetite". 

"O nacionalismo e o independentismo não são uma doutrina, é uma forma  de fanatismo que não se aplaca com a ideia de um sistema federal, pois irão  considerar que é uma etapa, até se conseguir a independência. É uma utopia".

Referindo-se ainda a Espanha, o escritor defendeu o regime de monarquia  constitucional, e afirmou que "a monarquia tem uma razão de ser em Espanha  e desempenhou um papel fundamental", nomeadamente quando da tentativa de  golpe de Estado, em fevereiro de 1981, e na transição do regime autoritário  de Francisco Franco, em 1975-1976. 

"As monarquias constitucionais na Europa são onde as democracias funcionam  melhor", afirmou e citou a Noruega, Suécia, Dinamarca e Grã-Bretanha, que  são "democracias muito avançadas e muito modernas". 

"A monarquia tem um figurino decorativo, mas garante estabilidade e  tem um papel em Espanha", asseverou. 

Questionado sobre as relações entre a América Latina e Portugal, defendeu  que "podiam ser mais intensas e fortes" e que "a Europa se devia aproximar  mais" do continente, que "é democrático, tem uma economia de mercado e regista  um crescimento económico". 

"Não só Portugal, mas também Espanha, que apesar de ter aumentado a  sua presença, podia e devia ser maior, dos dois países, aliás", rematou.

Questionado sobre a situação no Médio Oriente, o escritor afirmou que  "é um conflito de nunca acabar", e defendeu a "resolução do problema de  base, que é a criação de ambos os Estados". 

Llosa considerou que "há uma forte intransigência de Israel" e apelou  a que "a comunidade internacional seja mais enérgica, nomeadamente os Estados  Unidos, que têm uma forte ascensão" sobre o Estado judaico. 

Sobre a sua experiência política, quando se candidatou à Presidência  da República do Peru, em 1990, afirmou que ficou com "uma má recordação".

"Aprendi que não sou político, foi uma experiência positiva para conhecer  um país e é muito diferente a política vista de uma biblioteca, da que se  vive nas ruas, quando se faz campanha, nomeadamente as condições especiais  que o Peru vivia naquele momento, (em que estava em guerra)". 

O escritor, que afirmou que "tem mais projetos do que possibilidade  de os vir a escrever, por muitos anos de vida que tenha", terminou recentemente  uma obra para teatro, "Los Cuentos de la Peste", que "são vagamente inspirados  no 'Decamaron', de Bocaccio, e que será estreada em Madrid pelo Teatro Nacional  Espanhol". 

Sobre a atual literatura peruana, afirmou que "estão a surgir muitos  homens e mulheres" e destacou Jeremías Gamboa, e o seu romance, "Contarlo  todo", editado no ano pasado, que é "um retrato da nova sociedade peruana,  da emergente clase média indígena". 

"Um livro ambicioso sobre a nova sociedade peruana, e que reflete toda  essa mudança social que se tem notado", acrescentou. 

Natural de Arequipa, no Peru, Vargas Llosa obteve a nacionalidade espanhola  em março de 1993, sem nunca renunciar à peruana, como destaca o Instituto  Cervantes, e foi feito marquês pelo rei Juan Carlos de Espanha, em fevereiro  de 2011. 

"Conversa na catedral", "As guerras do fim do mundo", "A tia Júlia e  o escrevedor", "A sociedade do espetáculo", "O sonho celta" são alguns dos  títulos do escritor, editados em Portugal. 

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