Cultura

Cannes: um festival com pessoas bem vivas

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A actualidade do cinema está muito para além dos super-heróis e dos “efeitos especiais”: alguns filmes do Festival de Cannes são a prova eloquente de como continua a haver cineastas que não desistem de abordar a complexidade das relações humanas .

O mercado dos filmes tende a favorecer uma imagem da actualidade do cinema que, quase sempre, se esgota numa visão banalmente tecnológica: seriam os “efeitos especiais” que definiriam a vanguarda (?), impondo o domínio económico e simbólico de super-heróis e afins.

Face à oferta da 72ª edição do Festival de Cannes (até 25 de Maio), o mínimo que se pode dizer é que essa visão não faz justiça ao presente do cinema — nem sequer, entenda-se, no estrito plano da produção e do comércio. Vale a pena, por isso, celebrar alguns filmes que, ora com desencanto, ora com contagiante ternura, colocam em cena, não super-heróis digitais, mas pessoas bem vivas, vulneráveis e contraditórias como cada um de nós.

Eis cinco desses filmes (o primeiro da secção ‘Un Certain Regard’, os outros da competição oficial), todos eles tocados por uma contagiante ansiedade realista. Esperemos que, mais ou tarde ou mais cedo, estejam disponíveis nos ecrãs portugueses.

BULL – É, por certo, uma das grandes revelações deste festival. Apoiado pelo Instituto Sundance, marca a estreia nas longas metragens de ficção da americana Annie Silverstein. Descobrimos os bastidores dos “rodeos” com touros, na zona de Houston, a partir do olhar de uma adolescente solitária, ela própria a aprender a conhecer o mundo à sua volta — grande rigor narrativo e invulgar delicadeza emocional.

LES MISÉRABLES – “Filme-choque”, encenando a existência atribulada, por vezes extremamente violenta, de uma zona dos subúrbios de Paris. Também uma estreia na realização, neste caso de Ladj Ly (francês, nascido no Mali), o filme parte das comemorações do Mundial de Futebol de 2018 para desvendar as tensões internas que rasgam toda uma comunidade.

SORRY WE MISSED YOU – Mais um notável trabalho do inglês Ken Loach, já por duas vezes vencedor da Palma de Ouro (a última das quais em 2016, com “Eu, Daniel Blake”). Como sempre apostado em dar conta dos desequilíbrios económicos da sociedade britânica, encena, desta vez, a vida atribulada de uma família cuja diminuação de rendimentos vai a par de uma perturbante decomposição dos laços afectivos.

DOLOR Y GLORIA – Finalmente liberto das componentes mais rebuscadas e “barrocas” de alguns dos seus filmes mais recentes, o espanhol Pedro Almodóvar faz o retrato (quase) auto-biográfico de um cineasta a tentar recuperar de um longo período de depressão e dependência de drogas — austero e comovente. Na figura central, Antonio Banderas tem uma das mais brilhantes composições de toda a sua carreira [foto].

THE HIDDEN LIFE – O americano Terrence Malick, também já vencedor de uma Palma (“A Árvore da Vida”, 2011), continua a deslumbrar com o seu cinema de intimismo e cumplicidade com a Natureza. Desta vez, conta a história (verídica) de um austríaco que, na Segunda Guerra Mundial, se assumiu como objector de consciência, recusando-se a integrar os exércitos de Hitler — com ou sem prémios, ficará, por certo, como um dos grandes filmes de 2019.