Cultura

40 mil espectadores para “Nomadland”

Opinião

Chloé Zhao e Frances McDormand durante a rodagem de "Nomadland"

Depois da reabertura das salas, “Nomadland”, distinguido com três Óscares, é o título com melhor performance nas salas portuguesas.

Nas salas portuguesas, ao fim de 21 dias de exibição, o filme “Nomadland” chegou à beira dos 40 mil espectadores — mais exactamente, 39.437, segundo os números oficiais do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual). Eis uma performance que vale a pena sublinhar, quanto mais não seja porque se trata do título mais visto em Portugal depois da reabertura das salas, a 19 de abril.

Não tenhamos dúvidas: o triunfo nos Óscares — vencendo nas categorias de melhor filme, melhor realização (Chloé Zhao) e melhor actriz (Frances McDormand) — tem sido um factor decisivo no seu impacto comercial. E ainda bem, digo eu, já que são sempre positivos os estímulos que levem os espectadores a descobrir a pluralidade do cinema contemporâneo.

Nenhum filme é “melhor” ou “pior” por causa dos respectivos números de bilheteira. Por isso mesmo, evitando confundir a vida comercial dos filmes com o valor artístico que cada um lhes possa atribuir, vale a pena citar alguns números. Assim, por exemplo, “Godzilla vs. Kong” foi visto até agora por 12.160 espectadores.

Entenda-se: não se trata de comparar, em absoluto, esses números com os de “Nomadland”. Porquê? Porque o valor de “Godzilla vs. Kong” diz respeito apenas a quatro dias de exibição. Mas há uma dimensão relativa que vale a pena ter em conta. A saber: o número de ecrãs a que dizem respeito estes números. Assim, tendo em conta que “Nomadland” está em 86 ecrãs, isso significa uma frequência de 458 espectadores por ecrã; no caso de “Godzilla vs. Kong”, em 88 ecrãs, o valor correspondente será de 138…

Insisto: nenhum filme é “bom” ou “mau” em função da sua performance comercial. Fica, ainda assim, uma pequena lição pedagógica: importa relativizar a noção segundo a qual o mercado é feito de uma multidão de espectadores que vêem “blockbusters” face a uma minoria que procura outro tipo de filmes. Na verdade, o contexto da distribuição/exibição é mais complexo do que isso — e creio que, no interesse de todos (das empresas aos espectadores) vale a pena pensar o mercado para lá de clichés automáticos, por vezes moralistas.

Uma informação mais, para ajudar nesta reflexão: “O Pai” [trailer], também em quatro dias de exibição, atraiu 10.626 espectadores em 63 ecrãs. Média por ecrã: 168.