Cultura

Salas de cinema, “streaming” e dólares

Opinião

Scarlett Johansson no papel principal de "Viúva Negra": como controlar as receitas do "streaming"?

Scarlett Johansson processou os estúdios Disney por causa das receitas do filme “Viúva Negra”: com a consolidação das plataformas de “streaming”, a economia de Hollywood mudou.

A notícia está a abalar o mundo do cinema. E quando dizemos “mundo do cinema”, estamos, de facto, a falar de uma (nova) complexidade de circuitos, produções e receitas que, hoje em dia, determina a vida dos filmes. O facto é este: Scarlett Johansson colocou os estúdios Disney em tribunal por causa das receitas do filme “Viúva Negra”, a produção Marvel (que faz parte do império Disney) por ela protagonizada [trailer].

Que se passa, então? Johansson alega que está a ser financeiramente lesada pela decisão de lançar o filme, em simultâneo, nas salas e na plataforma de “streaming” Disney+. Segundo os seus advogados, tal decisão não respeitou o acordo de começar por lançar “Viúva Negra” apenas nas salas, esperando um determinado tempo (a habitual “janela” de exibição) para a sua difusão virtual. O valor das receitas devida a Johansson será, assim, necessariamente mais baixo (até porque essas receitas caíram abruptamente da primeira para a segunda semana), pelo que a Disney poderá ter que compensar a actriz, dizem também os advogados, com um valor na ordem dos 50 milhões de dólares…

Vozes mais prudentes consideram que a base legal deste acção judicial está longe de ser tão óbvia, até porque, de uma maneira ou de outra, Johansson também lucrou com a colocação de “Viúva Negra” em “streaming”. Mas os milhões que a intérprete da personagem de Natasha Romanoff poderá (ou não) receber estão longe de encerrar a questão — este é um caso que, de uma maneira ou de outra, irá ter repercussões nas futuras relações contratuais entre estúdios e actores, em particular aqueles que interpretam personagens de “franchises” com grande repercussão em todos os circuitos de difusão.

Há ainda outra maneira de dizer isto: a importância crescente do “streaming” na economia global do cinema está a alterar todas as formas de relação entre quem investe e quem surge nas imagens do ecrã (aliás, dos ecrãs, no plural). Longe vão os tempos em que o “studio system” se construía a partir de contratos de exclusividade dos intérpretes com determinado estúdio.

Fica uma certeza: episódios como este vão implicar alguma mudança no conhecimento público das receitas do “streaming”, até agora tratadas de forma mais ou menos secreta pela maior parte dos respectivos proprietários… Hollywood, decididamente, já não é o que era.