“Crónica de um Verão” (título original: “Chronique d’un Été”) é um dos títulos emblemáticos da Nova Vaga francesa que em 2021 completa 60 anos. Estamos, afinal, perante um momento decisivo desse movimento que ajudou a definir algumas das coordenadas fundamentais da modernidade cinematográfica — lembremos apenas que em paralelo, também em 1961, surgiram filmes como “Paris nous Appartient”, de Jacques Rivette, e “Uma Mulher É uma Mulher”, de Jean-Luc Godard.
Através da efeméride, reencontramos um nome cuja actualidade crítica e vivacidade de pensamento persistem: Edgar Morin, co-realizador de “Crónica de um Verão”, na companhia de Jean Rouch. Na verdade, no ano em que completou 100 anos — nasceu a 8 de julho de 1921 —, Morin acaba de publicar “Leçons d’un Siècle de Vie” (Éditions Denoël, Paris), ou seja, à letra, “Lições de um Século de Vida”, livro-balanço em que evoca a sua trajectória de acção e reflexão, desde a investigação sociológica até à especulação filosófica.
E se é verdade que o cinema nunca foi a paisagem central dessa trajectória, não é menos verdade que Morin surge como um fundamental pensador moderno das narrativas cinematográficas e, em particular, do seu papel na nossa visão do mundo — como ele escreveu, de forma poética, o cinema conduz-nos à “música subentendida das coisas”.
Desde logo, claro, porque temos esse belíssimo “Crónica de um Verão”, filme-inquérito que Rouch e Morin conduzem interrogando pessoas anónimas sobre como vivem (e o que é viver) no começo da década de 60 [video].
Depois, porque Morin é autor de um livro clássico, “O Cinema ou o Homem Imaginário” (ed. Relógio D’Água, Lisboa; tradução de António-Pedro Vasconcelos), subtil reflexão antropológica sobre o que somos e imaginamos ser através dos filmes. Com ele aprendemos, afinal, não apenas a riqueza interior do cinema, mas a arte de ser espectador — por amor do cinema.

