Cultura

Ainda o IMAX: que mercado?

"Oppenheimer", de Christopher Nolan, é um dos próximos filmes anunciados em IMAX
"Oppenheimer", de Christopher Nolan, é um dos próximos filmes anunciados em IMAX

Até que pode os lançamentos de filmes em salas IMAX podem contribuir para um retorno (mais significativo) dos espectadores às salas escuras?

Os mais recentes lançamentos em IMAX, incluindo o admirável “Moonage Daydream”, sobre David Bowie (recorde-se o trailer aqui em baixo), ou a reposição de “Avatar” definem um fenómeno desconcertante. Por um lado, há neles, implicitamente, uma celebração da grandeza física que o cinema pode conter e que, em boa verdade, faz parte de toda a sua história e mitologia; por outro lado, estão longe de gerar um fenómeno global de “regresso às salas”.

Os números são esclarecedores. Assim, nos EUA (para o melhor ou para o pior, “o” mercado de referência), no primeiro fim de semana, “Avatar” acumulou cerca de 10 milhões de dólares de receitas em 1860 salas — uma performance interessante, mas também não mais que mediana para os padrões daquele contexto.

Claro que nada disto pode ser pensado como se fosse um problema específico das salas IMAX ou do “tamanho” dos ecrãs (até porque “Avatar” não foi reposto apenas em formato IMAX). Acontece que, mesmo para um título comercialmente tão poderoso como “Avatar”, o grau de mobilização dos espectadores permanece apenas moderado. Serão ainda consequências do período de pandemia? Sem dúvida. Ao mesmo tempo, os factos relançam uma pergunta primitiva: que é possível fazer para que os espectadores em geral encarem as salas escuras, não como uma excepção, mas sim uma das regras essenciais do consumo cinematográfico?

Poderíamos tentar transpor a questão para um contexto como o português, mas qualquer paralelismo seria, no mínimo, inconsequente — bastará lembrar que há apenas três salas IMAX a funcionar regularmente no nosso país. Apesar disso (ou precisamente por causa disso), não deixa de ser desconcertante que o critério (geral) de lançamento de “Moonage Daydream” nas salas se traduza numa breve semana de exibição…

O que está em jogo envolve elementos muito mais radicais, já que não pode ser dissociado da cultura cinematográfica que os potenciais espectadores têm (ou não têm). Que cultura é essa? Não, por certo, a de um saber enciclopédico sobre cinema, ainda menos a de uma qualquer relação desses espectadores com o universo particular da crítica. Nada disso. É a cultura da curiosidade e do amor pela verdade primordial de um filme nas salas.

Sem as dinâmicas dessa cultura não parece fácil resolver o que quer que seja. Como se, de repente, os fãs do futebol proclamassem que deixou de fazer sentido ir aos estádios… Mesmo não esquecendo que as alternativas caseiras são muitas, há que reconhecer que, em termos económicos, o futebol tem conseguido manter a sua base de consumidores.

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