João Lopes

Comentador SIC Notícias

Cultura

Sessão de Cinema: “Adeus à Linguagem”

A longa-metragem em 3D realizada por Jean-Luc Godard em 2014 é um título central na história do cinema no século XXI — pela originalidade das três dimensões e também pelos ecos históricos e simbólicos da sua narrativa.

Roxy, o cão do cineasta, é personagem central em "Adeus à Linguagem"
Roxy, o cão do cineasta, é personagem central em "Adeus à Linguagem"

Embora com claro fundamento histórico e estético, tornou-se quase um cliché dizer que Jean-Luc Godard (1930-2022) é um dos grandes revolucionários da narrativa cinematográfica, desde a sua estreia na longa-metragem, em “O Acossado” (1959), até às obras finais, nomeadamente a derradeira longa-metragem, “O Livro de Imagem” (2018). O certo é que isso não nos deve fazer esquecer que o seu legado é também eminentemente televisivo, e tanto mais quanto, a partir de “Número Dois” (1975), Godard trabalhou em permanente ziguezague entre os modelos cinematográficos e as produções apoiadas por diversos canais de televisão.

Revisitemos, por isso, “Adeus à Linguagem” (2014), a sua longa-metragem em 3D, dois anos depois de ter experimentado pela primeira vez as três dimensões com “Os Três Desastres”, um dos segmentos de “3x3D”, um dos títulos da produção de Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. Aliás, a possibilidade de (re)descoberta de “Adeus à Linguagem” no streaming é tanto mais paradoxal e motivadora quanto, não sendo, naturalmente, uma cópia em 3D, não podemos deixar de observar que, com ou sem as três dimensões, Godard está à procura de uma nova forma de entendimento & tratamento das imagens — e também, claro, das suas relações com os sons.

Em primeiro lugar, estamos perante o drama de um casal, com as suas atribulações para manter, ou inventar, alguma forma de genuína comunicação. Depois, essa história, sendo privada, nunca é uma história fechada, isto é, abre-se às memórias trágicas da história colectiva — em particular da história do século XX —, levando-nos ao encontro de imagens das guerras e à evocação do horror do Holocausto. Enfim, tudo isto vai sendo pontuado por um desejo de utopia que encontra na relação com a Natureza, ou melhor, com os elementos naturais, o seu método de afirmação — incluindo a fundamental presença do cão de Godard, de seu nome Roxy, que funciona como exuberante “condutor” das sequências do filme.

Tudo isto tem tanto de invenção cinematográfica como de jogo lúdico com o conceito de “clip” televisivo. “Adeus à Linguagem” é, por isso, um exemplo modelar de um trabalho enraizado na crença de que o cinema se reafirma através de um permanente cruzamento de técnicas e narrativas, de alguma maneira inventando um futuro de imagens & sons sempre envolvido com a dimensão humana, demasiado humana, das nossas dores e alegrias. Godard poderia fazer seus os versos de abertura da “Tabacaria” de Álvaro de Campos: “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

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