A série de história natural "Planeta Pré-Histórico" está de volta para a sua terceira temporada, agora focada na megafauna que viveu milhões de anos depois da extinção dos dinossauros. De mamutes-lanosos a diprotodontes - parentes gigantes dos vombates - "A Idade do Gelo" recria criaturas que marcaram o último grande período glaciar da Terra.
Narrada pelo ator Tom Hiddleston, a série combina conhecimento científico atualizado com tecnologia de efeitos visuais inspirada nas técnicas de filmagem de vida selvagem utilizadas pela BBC.
Em entrevista à Reuters, o produtor executivo Mike Gunton, diretor criativo da Unidade de História Natural da BBC, e o consultor científico chefe Darren Naish explicam como foi possível dar vida a espécies desaparecidas há dezenas de milhares de anos.
Porquê a Idade do Gelo?
Mike Gunton recorda que, depois de duas temporadas dedicadas aos dinossauros, a equipa teve de perceber qual seria o passo seguinte.
"Foi originalmente por isso que fizemos o 'Dinossauros'. E quando terminámos a segunda série, pensei, certo, já fizemos o difícil segundo álbum, onde é que vamos para a terceira série? E ocorreu-me que a outra grande época da história da Terra, em que houve muita agitação, muitos animais extraordinários, muitas coisas interessantes para dizer, foi a Idade do Gelo. Sempre foi um dos meus favoritos, porque acho que é muito romântico".
Apesar de serem animais extintos, muitas das espécies da Idade do Gelo são surpreendentemente próximas das atuais, explica Darren Naish.
"Por um lado, animais como os mamutes lanudos e os grandes tigres-dentes-de-sabre não são familiares. Por outro lado, os mamutes são uma espécie de elefante e os tigres-dentes-de-sabre são obviamente felinos, são animais que quase toda a gente conhece muito bem. Isto torna ainda mais desafiante acertar em cheio (…), como os seus tecidos se moviam e como era o seu pelo".
E acrescenta que esta é uma altura única para estudar estes animais:
"Esta é a idade de ouro em termos da nossa compreensão destes animais (…). Por razões relacionadas com as alterações climáticas, estamos a aprender muito mais sobre os corpos preservados no permafrost da Sibéria e do Alasca".
Gunton sublinha que, apesar de a tecnologia permitir tudo, a equipa escolheu impor limites para manter autenticidade.
"Temos o melhor pessoal de efeitos visuais do mundo a fazer isto. Temos a melhor comunidade científica. E penso que temos os melhores realizadores de filmes sobre a vida selvagem a juntarem-se para ajudar nisto. Por isso, usamos muita da experiência de como filmamos animais reais".
A regra principal foi filmar estes animais como se fossem reais.
"Num mundo VFX pode-se fazer qualquer coisa. É possível colocar uma câmara em qualquer lugar. Podes contar a história que quiseres. A imaginação é o limite. Nós dissemos: não, não devem fazer isso, porque não é autêntico".
O produtor explica ainda que as câmaras virtuais obedecem às restrições da realidade e garante que "todas as histórias têm de ser - e são - baseadas na ciência".
"As câmaras só podem ser colocadas em locais onde se possa colocar uma câmara. Assim, não se pode colocar uma câmara no nariz de um animal ou num local ridículo. Tem de parecer que só se pode filmar desta forma".
Os gigantes mais estranhos do hemisfério sul
A megafauna da América do Sul e da Austrália foi um dos maiores desafios. Darren Naish descreve esses animais como "extremamente estranhos, radicalmente estranhos", lembrando que a equipa teve de dar vida a criaturas como "cangurus gigantes, predadores gigantes parentes dos coalas e animais gigantescos como o vombate do tamanho dos rinocerontes".
"Sempre soubemos que seriam um grande desafio. E foram mesmo. Conseguimos e demos-lhes vida melhor do que qualquer outra pessoa alguma vez o fez
O que foi realmente a Idade do Gelo?
Outra missão da série é desfazer equívocos. Para muitos espectadores, Idade do Gelo significa um planeta inteiro coberto de neve. Naish contraria essa ideia:
"Quando as pessoas ouvem falar da Idade do Gelo, imaginam que, de polo a polo, tudo está coberto de neve. Enquanto que, de facto, as calotes polares do norte e do sul eram muito maiores. Assim, o norte da América do Norte e o norte da Eurásia estavam cobertos por camadas de gelo e era frio. O sul de Inglaterra era muito frio, por exemplo, com o mesmo permafrost moderno. Mas mais a sul, os trópicos continuavam a ser tropicais. Eram diferentes dos de hoje, mas não era gelo por todo o lado. Havia trópicos e subtrópicos".
Gunton lembra que este período não é apenas fascinante e é fundamental para compreender o presente.
"Quando olhamos à nossa volta, percebemos que grande parte do mundo em que vivemos é o resultado direto do que aconteceu na Idade do Gelo, desde as pradarias ao curso dos rios, ao clima e aos materiais de construção utilizados nas casas. Tudo isto foi feito durante a Idade do Gelo. Portanto, a marca da Idade do Gelo é provavelmente um dos eventos mais importantes e significativos da nossa história. Teve um impacto enorme no mundo contemporâneo".
