Cultura

“Whatever People Say I Am..." faz 20 anos: como os Arctic Monkeys tornaram uma geração refém do indie rock

Há 20 anos, quatro amigos de Sheffield mudaram para sempre o panorama do indie britânico. Com o lançamento do álbum de estreia "Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not", os Arctic Monkeys captaram a crueza da vida urbana e adolescente, tornando-se num fenómeno cultural imediato e transformando-se em ícones de uma geração que cresceu entre pubs, ruas e música de garagem.

A banda britânica de indie rock Arctic Monkeys num pub, em 2006.
A banda britânica de indie rock Arctic Monkeys num pub, em 2006.
Matt Green / GETTY IMAGES

Há 20 anos, numa altura em que Reino Unido vivia sob uma “monarquia” imposta pela música pop, quatro amigos de Sheffield decidiram mudar o jogo. A 23 de janeiro de 2006, o indie rock renascia das cinzas, com novo fôlego e atitude rebelde: os Arctic Monkeys, de Alex Turner, Jamie Cook, Matt Helders e Andy Nicholson, lançavam o primeiro álbum da carreira, o icónico "Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not".

Em 2005, o Reino Unido já começava a mostrar sinais de cansaço em relação ao britpop, que em breve não seria mais do que um sentimento de nostalgia, com o indie preso a fórmulas recicladas e o rock a viver sob a sombra da sua própria lenda.

Foi nesse cenário que os Arctic Monkeys surgiram, não como resultado de um plano de marketing, mas como um rumor, um bate-boca. Quando "Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not" chegou às lojas, com a assinatura da Domino Records, não havia dúvidas. O público já sabia as letras de cor. Não foi hype. Foi validação.

Tornou-se um fenómeno cultural que já vinha a ser alimentado dois anos antes do lançamento, graças às demos que circulavam online, em particular o MySpace. Fruto da ideia visionaria da banda de distribuir CDs com as suas músicas nos primeiros concertos, conquistando a juventude sónica mesmo antes de ser comercializado.

Esse fenómeno, que hoje parece quase pré-histórico, permitiu aos Arctic Monkeys assumir o título de novo símbolo do rock contemporâneo e tornar-se os arquitetos de uma verdadeira revolução no indie britânico.

Com o título inspirado numa citação do filme britânico "Saturday Night and Sunday Morning" (1960), de Alan Sillitoe, o disco tornou-se no álbum de estreia mais vendido da história britânica na altura, com mais de 360 mil cópias vendidas na primeira semana.

Duas décadas depois, continua a ser o lançamento de estreia de uma banda mais vendido no país, soando como um murro na mesa: rápido, insolente e absolutamente certeiro.

Entre a rua, o pub e a herança do rock britânico

Musicalmente, o álbum é uma mistura perfeita entre tradição e frescura, com influências claras de The Jam, The Clash, The Libertines, Pulp e até The Strokes, mas tudo filtrado por uma identidade muito própria.

O verdadeiro trunfo estava na escrita. Alex Turner trouxe para o rock algo raramente visto com tanta precisão: realismo social em tempo real. As letras não falam de grandes ideais abstratos, mas de situações concretas: filas para entrar no clube, seguranças antipáticos, raparigas que desaparecem na pista, taxistas sarcásticos e egos inflados pela bebida.

Canções como “I Bet You Look Good on the Dancefloor” e “When the Sun Goes Down” não romantizam a noite: documentam-na. Com “Fake Tales of San Francisco”, os Arctic Monkeys expõe a hipocrisia da cena indie e “A Certain Romance”, o épico final, é uma carta de amor e ódio à própria comunidade que os viu nascer, como os seus “classic Reeboks”.

O rosto que marcou uma geração

Se há algo tão marcante quanto as músicas de "Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not", é a capa do álbum, reconhecível a quilómetros de distância por qualquer fã de indie rock.

A imagem surgiu quase como um acaso, um “acidente” que não teve nada de trágico ou fatal, mas tudo de memorável, e acabou por representar na perfeição a noite crua de muitos adolescentes da altura: um jovem de olhar cansado, cigarro na mão, num clube noturno.

Durante anos, foi conhecido apenas como o “homem misterioso” da capa do álbum de estreia dos Arctic Monkeys. Hoje, é muito mais do que isso. Chris McClure, irmão de Jon McClure, vocalista da banda Reverend And The Makers, tornou-se uma figura lendária e um verdadeiro símbolo da era indie britânica.

Amigo próximo dos elementos dos Arctic Monkeys, Chris McClure viu a sua vida mudar assim que o álbum foi lançado: “Naquela segunda-feira, o meu telemóvel não parava de tocar. Foi uma loucura, como se tivesse sido mergulhado na fama. Toda a gente queria saber quem eu era", afirmou citado pela Radio X.

Um clássico que recusou envelhecer

O mais impressionante é isto: "Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not" não soa datado. Continua a ser ouvido, citado e celebrado. Não como relíquia, mas como referência viva.

Os Arctic Monkeys mudaram e muito ao longo destas duas décadas. Passaram do garage rock à sofisticação cinematográfica, do couro justo aos fatos inspirados nos anos 70, da atitude rebelde de adolescentes à maturidade expectável de quem já entrou na faixa dos 40 anos.

Mas tudo começou aqui. Neste retrato cru de juventude, excesso e identidade em construção. O título do álbum nunca foi tão pertinente. Há 20 anos que tentam rotular a banda.

E eles continuam a responder da mesma forma: “Whatever people say I am, that’s what I’m not” ("Seja o que for que digam que eu sou, não é isso que eu sou").

E talvez seja por isso que este disco continua a importar: porque nunca quis agradar a todos. Quis apenas ser verdadeiro. E conseguiu.