Cultura

João Canijo deixa filmografia de ficções que espelham "identidade nacional"

João Canijo faz parte da geração de realizadores que sobressaiu sobretudo nos anos 1990. Uma das primeiras experiências no cinema foi como assistente de realização estagiário em "O estado das coisas" (1982), que Wim Wenders rodou em Portugal.

João Canijo deixa filmografia de ficções que espelham "identidade nacional"
FABRIZIO BENSCH

O realizador João Canijo, que morreu esta quinta-feira aos 68 anos, deixa uma cinematografia ficcional tanto impregnada na realidade social portuguesa como nos clássicos da Grécia Antiga.

João Canijo faz parte da geração de realizadores que sobressaiu sobretudo nos anos 1990, juntamente com Pedro Costa ou Teresa Villaverde, e uma das primeiras experiências no cinema foi como assistente de realização estagiário em "O estado das coisas" (1982), que Wim Wenders rodou em Portugal.

A primeira longa-metragem seria "Três Menos Eu" no final dos 1980, produzida por Paulo Branco, estreada no Festival de Cinema de Roterdão e protagonizada por Rita Blanco, a atriz que o acompanhou praticamente ao longo de todo o percurso como realizador.

Seguiu-se "Filha da Mãe" (1990), cujo argumento foi coescrito com o cineasta francês Olivier Assayas, a série humorística "Sai da Minha Vida" (1996) e "Sapatos Pretos" (1998), protagonizado por Ana Bustorff, inspirado na história verídica de uma mulher que contratou um assassino para matar o marido.

"Intensa discussão cinematográfica sobre a identidade nacional"

O investigador Daniel Ribas, que dedicou uma tese de doutoramento ao cinema de João Canijo, escreveu que nas narrativas dele "é possível identificar alguns problemas sociais: machismo, imigração, prostituição, corrupção, marginalidade, pouca mobilidade social, dificuldades socioeconómicas, etc.".

E acrescentava: "O cineasta desenvolve uma dramaturgia da violência como significante de uma intensa discussão cinematográfica sobre a identidade nacional, que resulta na demolição violenta de lugares comuns".

Tudo isto, sem esquecer referências que tanto podiam ir de Ingmar Bergman a John Cassavetes e às tragédias da Grécia clássica, num trabalho de construção de personagens feito em conjunto com o elenco, com muitos dos atores - e sobretudo atrizes - a transitarem de um projeto para outro.

Em "Mal Nascida" (2007), por exemplo, Anabela Moreira protagoniza o Portugal interior e agreste, em "Noite Escura" (2003), João Canijo retrata uma família que gere um bar de alterne, em "Fátima" (2017) recria uma peregrinação religiosa para entender a relação entre um grupo de mulheres e a fé.

"A Humanidade sempre teve essa necessidade de acreditar em algo transcendente e isso foi uma coisa que me interessou muito, perceber porquê. Não pretendo explicá-lo, mas perceber até onde é que isso pode levar as pessoas", disse o realizador em entrevista à Lusa em 2017.

Da filmografia de João Canijo há ainda a sublinhar o documentário "Fantasia Lusitana" (2010), um filme feito a partir de imagens de arquivo da propaganda oficial do Estado Novo.

Dos filmes mais recentes, João Canijo dizia que "Mal Viver" (2023), um drama psicológico intenso sobre uma família de mulheres de diferentes gerações que gerem um hotel, era o seu melhor filme, fruto de um método de trabalho de construção de personagens com o elenco que foi sendo apurado ao longo da carreira.

A "Mal Viver", que lhe valeu um Urso de Prata em 2023 no Festival de Cinema de Berlim, estava ancorado um outro filme, "Viver Mal", com histórias paralelas dos hóspedes daquele hotel e com o qual forma um díptico.

João Canijo, que morreu na quinta-feira aos 68 anos, deixa por estrear o projeto "Encenação", sobre um encenador de teatro que prepara uma nova peça, "confrontado com a idade e o relacionamento com as suas atrizes", como descreveu a produtora Midas Filmes no verão passado, quando o filme esteve em rodagem.