Desporto

"O dia chegou!" Campeã paralímpica belga morre aos 40 anos por eutanásia

Jason Cairnduff

Marieke Vervoort sofria de uma doença espinhal degenerativa e incurável e há várias anos que tinha os papéis assinados "à espera que chegasse a hora."

Leo Correa

"O dia chegou!"

Marieke Vervoort tinha afirmado publicamente que, quando o dia chegasse, ela estaria pronta e os papéis assinados para autorizar a eutanásia.

O dia chegou esta terça-feira, na sua cidade natal, Diest, após uma noite passada com a família e amigos numa celebração brindada com champagne, que a atleta chamava de analgésico.

Marieke Vervoort foi das primeiras pessoas a assinar o pedido de eutanásia na Bélgica, onde a morte assistida é permitida por lei desde 2008.

"Se eu não tivesse estes documentos para a eutanásia, acho que já teria cometido suicídio. Acho que haverá menos suicídios quando todos os países tiverem a lei da eutanásia. Quero que todos percebam que isto não é homicídio, é dar mais vida às pessoas ".

A ajudar à dor interminável da doença incurável, Marieke ainda sofria de crises epiléticas nos últimos anos. Em 2004 sofreu uma crise enquanto cozinhava em casa e sofreu queimaduras graves que lhe valeram quatro meses de internamento.

Deixou de poder estar sozinha e começou a ser acompanhada por uma cadela, a Zenn, que a avisava das convulsões antes mesmo de estas acontecerem, para além de ajudar em tarefas aparentemente simples como tirar as meias da gaveta ou até carregar as compras quando Marieke exagerava no peso dos sacos. Numa das entrevistas recentes afirmou:

"Quando vou ter um ataque epilético, a Zenn chega a avisar-me uma hora antes. Não sei como é que ela sente isso."

Mark Allan

Na entrevista à Associated Press por altura dos Jogos Paralímpicos do Rio, (onde venceu duas medalhas) Marieke descreveu como é viver com uma dor ininterrupta de uma doença espinhal degenerativa e incurável.

“É extremamente difícil para o meu corpo. Em cada treino sofre dores. Treino duro para todas as corridas. Treinar, pilotar e competir são remédios para mim. Faço tanto esforço - para empurrar literalmente todo o meu medo e tudo para longe", afirmou Marieke na entrevista em 2016

Marieke falou dos momentos mais difíceis e das noites em que apenas conseguia dormir 10 minutos. As dores tão intensas chegaram a fazer desmaiar quem estava ao seu lado, a tentar ajudar sem nada poder fazer.

Condolências de todo o país, inclusive da família real belga

"Marieke 'Wielemie' Vervoort era uma atleta muito forte e uma grande Mulher. A sua morte toca-nos profundamente. Muita força para a família e amigos", afirmou a família rela belga na rede social Twitter.

Para o desporto belga Marieke Vervoort será sempre reconhecida pelos feitos desportivos, desde logo as medalhas de ouro e prata nas corridas de cadeira de rodas nos Jogos Paraolímpicos de Londres em 2012 e mais 2 medalhas há três anos no Rio de Janeiro.

"A mulher que estava sempre a rir, estava a sofrer"

Conhecida pelo cabelo espetado e pelo sorriso rasgado, mas escondia uma dor agudizante que não tinha como melhorar.

Nas últimas semanas Vervoort passou mais tempo no hospital do que em casa. Há apenas ano e meio treinava 6 dias por semana na pista de atletismo.

“Agora é totalmente diferente. A doença evolui muito, muito rápido e estou novamente no processo de eutanásia. Vou-me decidir a fazê-lo. É impossível viver nessas condições”.

Agora que partiu a atleta quer ser cremada e que uma parte das cinzas fique num monumento em sua honra construído numa uma pista de atletismo. O resto pode ser espalhado nos penhascos de Lanzarote, a ilha espanhola onde a atleta belga mais gostava de treinar.

Jason Cairnduff