Desporto

E tudo o Qatar levou

E tudo o Qatar levou
Anja Niedringhaus/ AP

Diz Sepp Blatter que a atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar “foi um erro” e que o plano original era dar a competição aos Estados Unidos. Percebe-se bem esta vontade do antigo presidente da FIFA.

Blatter sabia muito bem de todos os podres da sua casa e tinha clara noção de que os norte-americanos iriam sentir-se agredidos (mais ainda depois de verem o Mundial de 2018 ser entregue à Rússia) e largar toda a sua máquina de investigação em cima da FIFA. Mas os seus colegas do comité executivo, que votavam na escolha das sedes para os Mundiais, não tiveram o mesmo instinto de sobrevivência e entregaram-se de corpo e alma à oferta maior vinda da pequena nação recheada de petrodólares. Afinal, leiloar os votos para quem desse mais era o que sempre tinham feito e sem qualquer consequência.

Só que desta vez a fatura foi alta. É aí que se inicia a contagem decrescente para rebentar a bomba no organismo que comanda o futebol mundial. O fim da era Blatter, e de muitos que o acompanharam, começa a desenhar-se no momento em que o suíço desembrulha aquele papel com o nome do Qatar.

A escolha acontece em 2010, debaixo de fortes alegações de suborno relacionadas com a candidatura qatari. Cinco anos depois, a 7 de maio de 2015, estoira o maior caso de corrupção no desporto mundial, conhecido como Fifagate, com o FBI a prender vários dirigentes do organismo num hotel em Zurique antes do congresso anual.

No meio da tempestade, Blatter, como extraordinário sobrevivente político, ainda consegue, dias depois, a 29 de Maio, ser reeleito para o quinto mandato consecutivo. Sempre a negar que o organismo era corrupto e que apenas tinha algumas maças podres. No seu casulo de negação e de alguém que, a exemplo de outros dirigentes da FIFA, já não viam na corrupção endémica algo de ilegal, mas apenas um modus operandi necessário para que a máquina não parasse de funcionar.

Desta vez, porém, aguenta poucos meses. Em outubro, o suíço é finalmente afastado da FIFA por um suposto pagamento ilegal a Michel Platini, realizado em 2011, no valor de 2 milhões de francos suíços, cerca de 1,8 milhões de euros. Migalhas para as verbas movimentadas por baixo da porta pelas altas patentes da FIFA. Ainda assim, suficiente para afastar o dono do trono e o ambicioso herdeiro. Os dois seriam absolvidos, em Julho deste ano, pelo Tribunal Criminal Federal da Suíça quando já eram cartas fora do baralho há muito tempo.

Mas os ases e reis que comandam o futebol mundial atualmente não são muito diferentes daqueles que os antecederam. E sabem que alguns países têm de ser agradados para evitar um novo Fifagate. Até porque a corrupção na FIFA é mobília: está à vista de todos.

Gianni Infantino, presidente desde 2016, na sequência do afastamento de Blatter, não quer ser apanhado na curva. Esteve envolvido no seu primeiro processo de atribuição de um Mundial no congresso de 2018. E quem vai organizar a competição a seguir ao Qatar? Isso mesmo. Estados Unidos, juntamente com México e Canadá.

Nada melhor do que começar por saldar contas antigas para deixar o FBI longe de casa. Blatter tinha razão: nenhum problema é problema se os Estados Unidos estiverem contentes. Mas fez mal as contas em 2010 quando pensou que um organismo de ganância sem limites, com a corrupção a correr nas veias, iria ser moderado e não aceitar todas as guloseimas vindas do Qatar.

Últimas Notícias