João Rosado

Comentador SIC Notícias

Desporto

Opinião

Com Rui Borges, é sempre marcha-atrás

Opinião de João Rosado. O empate com o Braga e as declarações do treinador indicam o caminho que se deve escolher.

Com Rui Borges, é sempre marcha-atrás
JOSÉ COELHO // LUSA

Para uns é um caso de bipolaridade, para outros, uma questão de dualidade. O empate entre Sporting e Sporting de Braga foi explicado de maneira completamente diferente pelos responsáveis das duas equipas, em contraponto com aquilo que um par de horas depois acabou por se verificar no rescaldo do outro grande clássico da noite, interpretado por FC Porto e Benfica.

Em Alvalade, enquanto o técnico do Sporting de Braga atribuiu o resultado a um “critério de arbitragem” que deixou os jogadores “confusos”, Rui Borges não teve qualquer pejo em admitir que o bicampeão nacional continua a padecer de uma maleita noutro tempo identificada por Ruben Amorim.

O onze que tanto devora os adversários como logo de seguida se encolhe perante os mesmos acentuou domingo a tendência que esta temporada torna indisfarçável um fator que pode hipotecar o tão ambicionado tricampeonato. A exemplo do que ficou registado frente a Benfica (Supertaça), FC Porto e Nápoles, o leão mostrou-se incapaz de se superiorizar nos desafios em que é obrigado a partilhar o favoritismo, esgotando a paciência e aparentemente perturbando a tranquilidade do treinador.

É verdade que o confronto com os minhotos não representou nova derrota (fatura que foi passada no dérbi contra Bruno Lage, no clássico diante de Francesco Farioli e no duelo com António Conte), mas a maneira como o golo de penálti apontado por Rodrigo Zalazar foi digerido prova que a insatisfação provocada pela exibição no Estoril roça agora o grau zero da (in)tolerência.

Gualter Fatia

Por muito que se reconheça a Rui Borges uma honestidade difícil de ser replicada por outros colegas nas conferências de Imprensa, as palavras que o transmontano proferiu no domingo a propósito da prestação dos pesos-pesados do balneário denunciam um ciclo diferente no relacionamento com o plantel. Ao dizer que Francisco Trincão “teve dificuldades” e que Pote “apareceu a espaços”, o míster mete-se por caminhos que de certeza não desconhece e que vão esticar a corda ao máximo, com a agravante de ser crescente a desconfiança dos adeptos que continuam a pensar que o “rapaz” de Mirandela não pode no futebol sentar-se em determinadas mesas.

A seu favor, apesar da urgência em adotar medidas consentâneas com a crise exibicional, joga a flexibilidade que num passado bem recente lhe permitiu subir ao Marquês. Há meio ano, quando ainda hesitava entre dois sistemas, acabou com suavidade por regressar à linha dos três defesas, fazendo o aproveitamento das raízes criadas por Amorim.

Neste momento, está mais do que convidado a fazer nova marcha-atrás. Quando se tem um leque de centrais composto por Quaresma, Debast, Diomande e Gonçalo Inácio (sem esquecer

Matheus Reis), quase parece um crime abdicar de dois deles e pedir numa organização defensiva de quatro unidades que seja Maxi Araújo a compensar a inclinação de Pote pelo corredor central.

É na sobrecarga de funções que afeta estas unidades (Maxi enquanto lateral e extremo e Pote enquanto ala e terceiro médio) que os oponentes encontram um défice na elaboração sportinguista, da mesma forma que no lado direito o apetite ofensivo de Vagiannidis como que conflitua com o espaço de Quenda. O 3-4-x3 que viabilizou a conquista dos dois títulos seguidos ajudaria, assim, entre outras coisas, a desobstruir o flanco de Quenda, clarificando em simultâneo o papel de Pote e de Trincão no apoio a Luis Suárez.

No sistema mais rentável, o Sporting, graças precisamente à colocação interior dos dois avançados convocados por Roberto Martínez, construiria com toda a naturalidade um “quadrado” invejável no meio-campo, para benefício explícito da fustigada dupla composta por Hjulmand e Morita.

Reprodução/Sporting CP

Os compromissos que se seguem no horizonte leonino (três caseiros, diante de Marselha e Alverca e dois fora, face a Paços de Ferreira e Tondela) podem ser os ideais para Rui Borges mostrar o lado bom da bipolaridade tática que de certeza preserva. Caso contrário, o discurso à Bruno Lage, expondo publicamente certas lideranças, pode levar Frederico Varandas a ressuscitar o critério que o fez desencantar dois treinadores perto do Natal de 2024-25 e que nada tem a ver com aquele que o levou a anunciar ontem a renovação de Pote até 2030.