A uma semana do grande clássico que na próxima segunda-feira vai opor no Dragão o comandante da Liga a um Sporting que pode sair da Invicta a apenas um ponto do FC Porto, as últimas movimentações em Alvalade indiciam que a "malta" que tanto Rui Borges gosta de elogiar não acredita verdadeiramente no tricampeonato. A começar pelo capitão.
A muito mal engendrada estória em torno da sua ausência no milagroso triunfo sobre o Nacional não condiz com o desejo de ficar até ao final da temporada e lutar pela reedição de uma proeza que remonta ao tempo dos Cinco Violinos. E pior do que isso, deixa no ar a suspeita de que Morten Hjulmand traiu o pacto com o presidente e, qual Ruben Amorim versão 2026, estaria disposto a abandonar o barco a meio da viagem.
Não há outra forma de entender as palavras do treinador sobre a exclusão do escandinavo no desafio com os madeirenses. Se estava com problemas pessoais sem nenhuma relação com a atividade profissional, o clube falhou em toda a linha ao não divulgar essa informação e em solicitar o (obrigatório, diga-se) respeito pela fronteira que delimita a atmosfera íntima do jogador.
Ao fazer passar a mensagem de que o médio não foi a jogo para ser defendido não se sabe muito bem do quê, a estrutura leonina, a 24 horas do fecho dos principais mercados, conseguiu de uma assentada abrir a porta a todo o género de especulação e ainda por cima "entregar" na praça pública um futebolista que por essência e comportamento estaria sempre a coberto desse julgamento.
O vasto e rico historial de Hjulmand em Alvalade faria dele o último candidato a um pedido especial de proteção na antecâmara de um duelo caseiro com um adversário que compete pela manutenção. Dono da braçadeira, líder do balneário (nem sempre as duas circunstâncias se aplicam a uma única pessoa), fluente em português e influente como ninguém dentro de campo, o internacional "viking" dispensaria qualquer ordem para ficar em casa só porque entretanto alguém lhe tinha apresentado uma proposta de transferência pouco convincente.
Partindo do princípio de que os leões não foram confrontados com uma abordagem que se dispusesse a bater os 80 milhões da cláusula de rescisão (nessa eventualidade, o consentimento do atleta bastaria para validar o negócio), fica claro que algo de concreto chegou à mesa de Frederico Varandas e foi suficiente para fazer vacilar Hjulmand e levá-lo a pensar na saída imediata.
A partir daí, retirar o dinamarquês da convocatória e associar à decisão uma narrativa oficial que se destinava a fazer crer que era para defesa de um dos principais ativos do plantel apenas ajudou a interpretar que o camisola 42 terá de facto esboçado um adeus aos bicampeões nacionais, esquecidos os termos do acordo de cavalheiros celebrado quando a Juventus tentou o resgate para a Série A.
No fundo, o Sporting pagou na mesma moeda a primeira "facada" de Hjulmand. Ninguém Morten por isso, até porque em muitos casamentos no futebol as estórias de dupla traição são há muito vistas como um grande clássico.

