Economia

Rendas em Lisboa chegam a absorver 80% do rendimento das famílias

A crise da habitação em Portugal atinge números preocupantes. É o país da Europa onde as casas estão mais sobrevalorizadas e onde as famílias mais têm dificuldades em comprá-las.

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A crise na habitação não é um problema exclusivo de Portugal. A maioria dos países europeus enfrenta o mesmo desafio. Os preços são altos e o mercado nem sempre tem capacidade para dar resposta a tanta procura. Mas por cá o problema está a ganhar uma dimensão que levanta preocupações.

Um relatório da Comissão Europeia diz que Portugal é o país da união onde as casas estão mais sobrevalorizadas. Onde é maior a diferença entre o preço de venda de uma casa e o preço real - o que ela realmente vale. Em média paga-se mais 35%. 

"Não é nada que nos surpreenda. O preço das habitações está a subir, e está a subir de uma forma demasiado rápida, sobretudo se correlacionarmos com os rendimentos das famílias portuguesas. Há uma diferença cada vez maior, que todos os anos tende a agravar-se", diz Gonçalo Antunes, geógrafo e especialista em habitação. 

É que o preço das casas e das rendas também tem subido noutras cidades europeias como Paris. O problema é que o rendimento dos franceses é maior do que o dos portugueses e, por isso, têm menos dificuldades em suportar esses custos.

Lisboa é a capital europeia onde o esforço financeiro de uma família para arrendar um T2 é maior. Em algumas zonas, o valor da renda equivale a 80% do rendimento de uma família.

A comissão europeia aponta como uma das causas o turismo. Há muitas habitações destinadas, por exemplo, a alojamento local. Porque o grande problema é mesmo a falta de casas. Mas a solução pode não estar só em construir mais, mas também em aproveitar melhor as casas que já existem.

"Nós temos em Portugal cerca de seis milhões de alojamentos e temos 4.1 milhões de famílias. O que quer dizer que temos um superávit de cerca de dois milhões de habitações a mais. E muitas dessas casas estão vagas como se sabe", afirma Gonçalo Antunes. 

Na última década, os preços reais da habitação cresceram mais de 50%. Um valor muito superior à média europeia de 25%. Onde é que isto vai parar, ninguém sabe dizer. Há quem fale bolha imobiliária que pode estar quase a rebentar, mas isso traz também consequências.

"Na verdade, seria um grande drama económico e financeiro para o país. Desde logo vamos imaginar uma família que tenha adquirido a habitação no ano passado, se de repente a habitação desvalorizar 10, 15, 20% muito provavelmente ficaria com um crédito ao banco superior ao valor da habitação”, alerta Gonçalo. Antunes.  

E a capacidade de endividamento das famílias tem diminuído.