20 anos do 11 de setembro

A guerra mais longa da América: do 11 de Setembro à invasão do Afeganistão

Lucas Jackson

Chega ao fim, depois de 20 anos, a guerra do Afeganistão. Fazemos uma retrospetiva de como tudo começou e de como, duas décadas e quatro Presidentes depois, os Estados Unidos não conseguiram impedir a conquista do poder pelos talibãs.

A Guerra no Afeganistão começou há 20 anos, no seguimento dos atentados terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos. A Operação Liberdade Duradoura lançada pelos norte-americanos em território afegão tinha como objetivo afastar do poder os talibãs, desmantelar a Al-Qaeda, capturar Osama Bin Laden e impedir ataques terroristas em solo americano.

Vinte anos depois, os Estados Unidos dão por terminada a Guerra no Afeganistão, abandonando o país da mesma forma que nele entraram, em 2001, com os talibãs no poder de um território dividido por um conflito interno de proporções esmagadoras.

No fim de mais um capítulo de um conflito cujos contornos ameaçam a diplomacia internacional, fazemos uma retrospetiva de como tudo começou e de como, ao fim de 20 anos e quatro Presidentes depois, os Estados Unidos não conseguiram impedir a conquista do poder pelo grupo radical islâmico.

11 de Setembro: o gatilho

Stringer .

Terça-feira, 11 de setembro de 2001. Dezanove terroristas da Al-Qaeda, organização radical islâmica liderada por Osama Bin Laden, sequestram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos com, no total, 246 pessoas a bordo.

Os relógios marcavam as 08:46 (hora local) quando o primeiro avião – um Boeing 767 da American Airlines – atinge a Torre Norte do World Trade Center, em Nova Iorque, cerca de uma hora depois de ter descolado do aeroporto de Boston.

Dezassete minutos mais tarde, às 09:03 (hora local), o mundo assiste, em direto, a um segundo avião – um Boeing 767 da United Airlines – colidir com a Torre Sul do World Trade Center.

Cerca de meia hora depois, um terceiro avião, o voo 77 da American Airlines, que deslocou do aeroporto Washington Dulles, na Virgínia, com destino para Los Angeles, colide contra o Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Larry Downing

Um quarto voo, da United Airlines, despenha-se perto Shanksville, na Pensilvânia, 81 minutos depois de ter descolado de Newark, quando os passageiros tentaram tomar o controlo da aeronave, que se assume que os sequestradores pretendiam fazer colidir contra o Capitólio.

Tim Shaffer

Os atentados terroristas do 11 de Setembro resultaram na morte de 2.977 pessoas e deixaram feridas mais de 6.000.

O ultimato de Bush

A 21 de setembro, dez dias depois dos ataques, o Presidente norte-americano, George W. Bush, faz um ultimato ao Governo talibã: “entreguem os terroristas” ou “sofrerão o mesmo destino que eles”.

As exigências incluíam a entrega de todos os líderes da Al-Qaeda no Afeganistão aos Estados Unidos, a libertação de todos os prisioneiros de nacionalidade estrangeira, incluindo cidadãos norte-americanos, a proteção de jornalistas, diplomatas e voluntários no Afeganistão, o encerramento dos campos de treino de terroristas e a entrega dos mesmos às autoridades competentes.

Win McNamee

A recusa dos talibãs em cumprir estas exigências e a vontade dos Estados Unidos de pôr fim ao terrorismo em solo americano deu lugar à Operação Liberdade Duradoura, que arrancou em outubro de 2001, quando as forças norte-americanas deram início aos bombardeamentos no Afeganistão.

Uma semana depois da eclosão da guerra, os talibãs propõem entregar Bin Laden a um país neutro, mediante a apresentação de provas do seu envolvimento no 11 de Setembro, para que pudesse ser julgado. Os Estados Unidos rejeitam, com Bush a declarar não haver necessidade de “discutir a inocência ou a culpa. Sabemos que ele é culpado”.

Com a ajuda dos aliados da NATO, os Estados Unidos derrotam os talibãs no início de dezembro de 2001, removendo-os do poder. A maioria dos membros da Al-Qaeda e dos talibãs conseguem, no entanto, escapar à captura fugindo para o Paquistão ou escondendo-se em regiões remotas.

Lucas Jackson

Com os talibãs fora do poder, a ONU aprova, em dezembro de 2001, o acordo de Bona, que definiu a administração provisória do Afeganistão, presidida por Hamid Karzai, até à realização de eleições.

O regresso da violência

Em 2003, altura em que se mantinham em território afegão cerca de oito mil operacionais norte-americanos, o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anuncia o fim dos combates com o grupo radical islâmico. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos invadiam o Iraque numa operação paralela para derrubar Saddam Hussein.

Com a atenção dos EUA desviada, os talibãs reagruparam-se em redutos no sul e no leste do Afeganistão e lançaram a insurgência, com a violência de regresso às ruas do país. O número de ataques suicidas aumentou de 27, em 2005, para 139, em 2006, enquanto os atentados à bomba mais do que duplicaram.

Em 2008, as tropas norte-americanas em solo afegão pediram reforços e Bush autorizou o envio de mais militares, elevando o total para 48.500 soldados destacados no Afeganistão, de forma a conter o avanço dos talibãs.

Lucas Jackson

O que mudou com a chegada de Obama?

A administração de Barack Obama anunciava, meses depois da eleição, uma nova estratégia para a guerra do Afeganistão. Era preciso concentrar esforços no Paquistão, derrotando os membros da Al-Qaeda que lá se refugiavam e destruindo os seus esconderijos.

Poucos meses depois, com o receio do Governo afegão a aumentar, Obama anunciou um reforço massivo das tropas norte-americanas no Afeganistão, chegando os Estados Unidos a ter, em 2010, cerca de 100 mil militares destacados naquele país.

1 de maio de 2011. Osama Bin Laden é morto

“Hoje posso anunciar ao povo americano e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que resultou na morte de Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda e terrorista responsável pela morte de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes”, anunciou Barack Obama a 1 de maio de 2011 num discurso ao país.

Dez anos depois dos atentados de 11 de Setembro, as forças especiais norte-americanas matam, no Paquistão, o cérebro por trás do atentado terrorista mais mortífero da história norte-americana. A morte do principal alvo dos Estados Unidos alimentou o debate sobre a necessidade de presença de tropas norte-americanas no Afeganistão e, em junho de 2011, Barack Obama anunciou o início da retirada dos militares do país.

Osama Bin Laden

Osama Bin Laden

Mazhar Ali Khan

O processo, que deveria ficar concluído no verão de 2012, acabou por só se iniciar em 2014, ano findo o qual os aliados da NATO deram por concluídas as suas missões. No Afeganistão ficaram, nessa altura, cerca de 12.500 militares estrangeiros, 10.000 dos quais norte-americanos.

Nesse ano, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que as suas tropas abandonariam o Afeganistão até 2016. Até lá, as intenções eram treinar as tropas afegãs a oferecer resistência e a conduzir operações antiterrorismo.

A mudança de estratégia de Trump

A segurança no Afeganistão continuou a deteriorar-se e, numa mudança de política, Donald Trump riscou o plano de retirada das tropas norte-americanas de solo afegão, defendendo que a presença dos Estados Unidos no Afeganistão seria definida pelas “condições no terreno” e não mediante prazos temporais.

Os Estados Unidos intensificaram a ofensiva contra os talibãs, lançando ataques aéreos e reforçando a presença militar no terreno. Em resposta, o grupo radical islâmico desenvolve uma série de ataques à bomba na capital, Cabul.

Em 2018, sem o cessar da insurgência e com a guerra a tornar-se cada vez mais ‘impopular’ entre os norte-americanos, a administração Trump e os aliados iniciam negociações com os talibãs, oferecendo a retirada das tropas em troca da promessa de que o Afeganistão não seria palco de terrorismo.

Dois anos depois, é assinado um acordo entre as duas partes que define a retirada de todas as tropas do Afeganistão até maio de 2021, mediante a manutenção de diálogos e negociações de paz entre os talibãs e o Governo afegão.

O enviado de paz dos EUA, Zalmay Khalilzad, à esquerda, e o Mullah Abdul Ghani Baradar, o principal líder político dos talibãs, cumprimentam-se depois de assinar um acordo de paz em Doha, no Qatar, em fevereiro de 2020.

O enviado de paz dos EUA, Zalmay Khalilzad, à esquerda, e o Mullah Abdul Ghani Baradar, o principal líder político dos talibãs, cumprimentam-se depois de assinar um acordo de paz em Doha, no Qatar, em fevereiro de 2020.

Hussein Sayed

O fim da guerra, a chegada dos talibãs ao poder e a derrota dos EUA

Na altura em que Joe Biden assume a presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2021, o número de tropas no Afeganistão estava reduzido a 2.500 militares e o 46.º Presidente norte-americano comprometeu-se a honrar o acordo de retirada, apontando 11 de setembro como a data prevista para a sua conclusão, duas décadas depois do início da guerra.

“Chegou a altura de pôr fim à guerra mais longa da América”, afirmou.

Biden garantiu que Washington continuaria a apoiar as autoridades afegãs no processo de paz, mas o plano dos talibãs era outro. Em maio, o grupo radical islâmico lançou uma nova ofensiva e conquistou vários territórios, aumentando os receios de que as forças de segurança afegãs fossem derrotadas. Um cenário que veio a confirmar-se em agosto, quando os talibãs conquistaram quase todo o território afegão, incluindo a capital, Cabul.

Duas décadas depois dos Estados Unidos e aliados da NATO terem entrado em território afegão para pôr fim ao Governo dos talibãs, o grupo volta ao poder.

“Os Estados Unidos já cumpriram a sua missão no Afeganistão: capturar os terroristas que nos atacaram no 11 de Setembro, punir Osama Bin Laden e degradar a ameaça terrorista, para impedir que o Afeganistão se tornasse base para que ataques contra os EUA fossem planeados", disse Joe Biden em julho.

"Não fomos ao Afeganistão para formar uma nação. É direito e responsabilidade exclusiva da população afegã decidir o seu futuro e como querem administrar o seu país" .

Talibãs tomam controlo do palácio presidencial do Afeganistão depois do Presidente ter abandonado o país, na sequência da tomada da capital Cabul.

Talibãs tomam controlo do palácio presidencial do Afeganistão depois do Presidente ter abandonado o país, na sequência da tomada da capital Cabul.

Zabi Karimi

Os custos da guerra

A guerra do Afeganistão custou aos cofres públicos dos EUA um valor que se estima rondar os 1,7 biliões de euros, segundo a Associated Press. Além disso, os Estados Unidos terão investido cerca de 70 mil milhões de euros no exército afegão.

Uma pesquisa da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, divulgada pela BBC, estima que mais de 240 mil pessoas tenham perdido a vida durante a guerra, entre as quais:

  • Operacionais norte-americanos mortos no Afeganistão até abril: 2.448;
  • Funcionários ligados aos Estados Unidos: 3.846;
  • Forças de segurança afegãs: 66.000;
  • Aliados: 1.144;
  • Civis afegãos: 47.245;
  • Talibãs e outros combatentes: 51.191;
  • Trabalhadores de ajuda humanitária: 444;
  • Jornalistas: 72.

De acordo com as Nações Unidas, o Afeganistão tem a terceira maior população deslocada do mundo. Desde 2012, pelo menos cinco milhões de pessoas fugiram e não conseguiram regressar a casa.

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