Abusos na Igreja Católica

Marcelo foi quem tomou iniciativa e ligou a D. José Ornelas para explicar envio da denúncia

Marcelo foi quem tomou iniciativa e ligou a D. José Ornelas para explicar envio da denúncia
ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Presidente da República diz que só falou com o bispo de Leiria-Fátima três semanas depois de a Presidência enviar a denúncia por alegado encobrimento de abusos sexuais para a PGR.

O Presidente da República avisou D. José Ornelas que tinha enviado uma denúncia por alegado encobrimento de casos de abusos sexuais para a Procuradoria-Geral da República.

Os dois terão falado a 26 de setembro, quando Marcelo ainda estava nos Estados Unidos, três semanas após o envio da denúncia.

"A comunicação social soube e na sequência disso contactou D. José Ornelas e antes contactou a Presidência da República. E é só no dia 26, nos EUA, é que eu falo com D. José Ornelas."

Marcelo usou a expressão "comunicação social" 12 vezes em quatro minutos de entrevista sobre o tema para justificar por que motivo contactou o atual bispo de Leiria-Fátima.

"Não senti necessidade nenhuma [de o avisar], aconteceu porque a comunicação social tinha perguntado a ele e a mim", disse.

Questionado sobre quem tomou iniciativa, Marcelo admite que foi ele e justifica:

"Entretanto chegou uma versão, apresentada pela comunicação social, de que teria sido uma iniciativa por ser a, b ou c. E eu disse: ‘Sr. D. José, muito simples, isto é a regra geral que se aplica e, portanto, a comunicação social diz que foi uma coisa pessoal e não foi uma coisa pessoal’."

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Este caso, explica Marcelo, seguiu o caminho normal, ou seja a "suspeita é enviada para a Presidência da República, e na Presidência da República é enviada diretamente ao Presidente. O Presidente despacha-a para o chefe da Casa Civil, sem olhar sequer para o teor da suspeita, dizendo que é uma suspeita de teor criminal, faça-se como sempre".

No sábado, o Ministério Público confirmou estar a investigar o bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, por alegado encobrimento de abusos sexuais, referindo ter recebido sobre esta matéria uma "participação provinda da Presidência da República".

De acordo com uma nota publicada esta terça-feira, "a Presidência da República enviou à Procuradoria-Geral da República, no dia 6 de setembro, uma denúncia envolvendo, nomeadamente, D. José Ornelas" e, depois dessa data, "foi contactada por vários órgãos de comunicação social, para confirmar tal envio, o que naturalmente confirmou".

D. José Ornelas é suspeito de ter encoberto suspeitas de abusos sobre menores. Em 2011, quando liderava a Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, foi alertado, por um professor de português, para alegados abusos sexuais cometidos sobre crianças num orfanato, em Moçambique, tutelado pela instituição.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa agradeceu o alerta, mas disse que o padre em questão não estava sob a sua autoridade e que não existiam indícios sobre o diretor da escola. Este ano, o professor enviou nova denúncia ao Presidente da República, que a remeteu à PGR.

A Conferência Episcopal Portuguesa esclareceu que, em 2011, José Ornelas deu indicações para que se iniciasse uma investigação interna, mas não foram encontrados indícios. Diz que, mais tarde, a PGR de Moçambique e a Procuradoria italiana, onde vive um dos suspeitos, arquivaram o processo depois de investigar o caso.

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