Um grupo de ex-alunos da rede de escolas católicas lassalistas em França juntou-se para denunciar a violência, incluindo abusos sexuais, cometida há décadas por membros daquela congregação, indicaram no domingo alguns dos seus membros.
A congregação religiosa católica Irmãos das Escolas Cristãs, fundada por São João Batista de La Salle no final do século XVII, garante que leva estas acusações "muito a sério" e declarou ter já indemnizado 70 pessoas.
Os membros do grupo, na maioria com idades entre 50 e 70 anos, denunciam crimes prescritos, cometidos entre 1955 e 1985 em cerca de 20 escolas pertencentes aos Irmãos das Escolas Cristãs, revelaram Philippe Auzenet, de 73 anos, e o outro cofundador do grupo, Philippe B. (inicial alterada), que prefere manter o anonimato, em declarações à agência de notícias francesa, AFP.
Os antigos alunos daquelas escolas católicas denunciam "atos de violência física", "bullying, humilhações" e, num "grande número" de casos, "toques inapropriados, agressões sexuais e violações", cometidos por religiosos ou professores leigos, a maioria dos quais já falecidos.
"Entre os sete e os nove anos, fui ameaçado de morte, agredido, amarrado, pendurado pelos pés, tinham facas de talho e ameaçavam arrancar-me os olhos. Isto arruinou a minha vida", relatou Philippe Auzenet.
Philippe B., de 62 anos, diz-se vítima de "violência e toques inapropriados" por religiosos e professores leigos entre 1969 e 1978.
"Eram estaladas, socos, pontapés. Algumas crianças eram espancadas pelos religiosos em frente de toda a turma, no púlpito, eram penduradas nos cabides ou colocadas em contentores do lixo", descreveu.
Durante a confissão, o padre podia "fazer perguntas sobre pensamentos impuros", como, por exemplo, 'Pensas em brincar com os órgãos sexuais dos teus amigos?' e acompanhá-las de gestos inapropriados", afirmou.
A congregação, "ciente (...) da sua responsabilidade", criou em 2014 uma unidade de apoio, encarregada de receber queixas e "acompanhar" as vítimas, escreveu o seu advogado, Matthias Pujos, num comunicado divulgado no domingo à noite.
Registadas 70 denúncias
Até ao momento, foram registadas 72 denúncias, 70 das quais já resultaram no pagamento de indemnizações, no total de 2.434.882 euros, de acordo com as recomendações da Comissão de Reconhecimento e Reparação (CRR) instituída pela Igreja de França.
Desde 2022, a congregação, que agora gere 150 instituições privadas em França, além de muitas outras em todo o mundo, apresentou também três queixas judiciais, como faz sistematicamente quando um dos seus membros acusado de irregularidades ainda é vivo, indicou o advogado.
O grupo de antigos alunos exige agora que a congregação reconheça a sua responsabilidade pelo que considera "violência sistémica" e a criação de um fundo de reparação de 100 milhões de euros e emitiu um apelo para recolher testemunhos.
Estas revelações surgem numa altura em que França ainda está a recuperar de um escândalo que envolve abusos físicos e sexuais de menores em Notre-Dame de Bétharram, no sudoeste do país, onde quase 250 queixas foram apresentadas por ex-alunos, acusando padres e leigos de atos cometidos entre o final da década de 1950 e o início da década de 2000.
Os ex-alunos só começaram a manifestar-se no outono de 2023, denunciando sexo oral e masturbação forçados, espancamentos, humilhações e tortura.
A Congregação dos Padres de Bétharram reconheceu a sua responsabilidade por estes atos no ano passado e tenciona indemnizar todas as vítimas.
Afetado por uma "amnésia traumática", Philippe Auzanet afirmou que "todas essas memórias vieram à superfície" durante o caso Bétharram.

