A Carris reagiu esta segunda-feira ao relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) que apontou inconformidades no cabo de tração que ligava as duas cabines.
Em comunicado, a empresa esclarece que a manutenção do ascensor é levada a cabo pela MNTC, o atual prestador de serviços que "é uma Empresa de Manutenção de Instalações de Elevação (EMIE) reconhecida pela DGEG, o que significa que fez prova de todos os requisitos de capacidade e habilitação constantes do regime legal aplicável". Verifica-se agora que esta "poderá não ter cumprido devidamente o contrato", mas "este incumprimento nunca foi reportado pela Direção de Manutenção do Modo Elétrico, nem pelo Gestor do Contrato, que aliás reiteraram a máxima confiança no desempenho desta empresa".
Por isso, a empresa afirma que desconhecia "toda a factualidade descrita nos pontos 3 a 7 do Resumo das Constatações Relevantes até à Data". Estes dois pontos dizem respeito ao facto de o cabo não estar certificado para transporte de pessoas e à zona onde o cabo rompeu não ser passível de inspeção visual sem desmontagem, respetivamente.
"De momento, estão a ser apuradas as respetivas responsabilidades, sendo que o Diretor de Manutenção do Modo Elétrico foi, entretanto, demitido", acrescenta a empresa.
Na nota enviada às redações, a Carris detalha que "embora o Relatório Preliminar do GPIAAF considere que 'não é possível neste momento afirmar se as desconformidades na utilização do cabo são ou não relevantes para o acidente', importa esclarecer que o processo de aquisição dos mesmos, com alegadas inconformidades, que condicionaram todo o processo de substituição dos cabos, ocorreu em mandato anterior ao do presente Conselho de Administração".
"Sobre esta matéria, o Conselho de Administração da CARRIS desconhece a factualidade exposta nos pontos 2 a 5 do Resumo das Constatações Relevantes até à Data sobre o cabo de tração/equilíbrio. Uma vez que o Relatório refere o incumprimento de normativos em vigor na CARRIS, serão apuradas as respetivas responsabilidades", defende a Carris.
O ponto 2 referido pela empresa diz respeito à constatação de que o "cabo instalado não estava conforme com a especificação da CCFL [Companhia Carris de Ferro de Lisboa]" e que a utilização de cabos "desconformes" deveu-se "a diversas falhas acumuladas no seu processo de aquisição, aceitação e aplicação pela CCFL".
O atual mandato, presidido por Pedro Bogas, foi viabilizado pelo PS em maio de 2022. Os cabos que não estavam em conformidade com o que era recomendado, e que eram diferentes daqueles que eram utilizados até então, entraram em operação a 20 de dezembro de 2022, operando durante 601 dias até 26 de agosto. O segundo, igual ao anterior, entrou em operação no dia 1 de outubro de 2024. Durou 337 dias até ao dia do acidente.
No entanto, o processo de aquisição do mesmo iniciou-se em março de 2022 "quando estavam em curso trabalhos de remotorização do elevador de Santa Justa”. No dia 17 desse mês, a Direção de Manutenção do Modo Eléctrico (DME) da CCFL constatou a inexistência em armazém dos cabos necessários para esse trabalho “e sinaliza a necessidade da sua compra urgente à Direção de Logística e Património (DLP) da empresa”.
A Carris sublinha ainda que a perceção de que a "segurança do sistema dependia inteiramente do cabo e que o sistema de freio não era eficaz para imobilizar as cabinas sem o cabo" nunca tinha sido "transmitida à Administração da empresa, nem foi feita qualquer proposta técnica".
"O Relatório reitera que não foram comunicadas quaisquer queixas relativas à manutenção dos ascensores e elevador, nem sequer, como já se referiu, sobre o alegado desempenho deficiente do prestador de serviços da manutenção dos ascensores", acrescenta a empresa.
Sobre o enquadramento legal do Ascensor da Glória exposto no relatório, a Carris diz não concordar com o mesmo: "A Carris, enquanto mero operador, desde logo não aceita que se encontra na sua exclusiva responsabilidade os aspetos relativos à segurança da operação dos ascensores."
Uma vez que este documento ainda é preliminar e apresenta " informação ainda incompleta", a Carris diz esperar pelo "Relatório Final para uma pronúncia mais abrangente e concreta sobre o apuramento das causas do acidente".
Realça ainda que "tem em curso uma auditoria externa independente às causas do acidente, cujas conclusões serão relevantes para uma apreciação mais detalhada da presente investigação do GPIAAF".


