Afeganistão: Capital dos Errantes

Hamid Taheri: refugiado num sonho

Hamid Taheri: refugiado num sonho

Miguel Laia

NOVA FCSH

Atravessou o Médio Oriente e a Europa com as chuteiras calçadas. Em cada pontapé na bola, Hamid fica um passo mais próximo do sonho, mas ainda não deu o remate certeiro.

A sua história parece ser um obstáculo na Europa

A ToloTV transmite as celebrações de fim do ano, segundo o calendário islâmico. O pachto, língua oficial do Afeganistão, invade a sala da família Taheri, juntamente com o cheiro do chá afegão. Por cima da televisão, perdura a bandeira de um país em guerra desde 1979. A casa é portuguesa, mas os tapetes salá e o masbaha lembram o lar que se viram obrigados a deixar há 22 anos.

Foi em Kharkiv, na Ucrânia, onde Hamid viveu durante 12 anos, após ter saído de Cabul, capital do Afeganistão, que começou a dar os primeiros toques na bola, com o incentivo do irmão mais velho. Hoje, com 26 anos, este refugiado afegão ainda sonha ser jogador de futebol profissional, mas a sua história parece ser um obstáculo na Europa.

Aos quatro anos, os pais pegaram nele e nos quatro irmãos e deixaram para trás Cabul. Hamid sabe apenas que a partida teve na guerra o motivo: “Isso acho que todo o mundo sabe”. Mas o mundo não sabe que a sua família faz parte dos 2,5 milhões de afegãos que abandonaram o país, em conflito, quase sem pausas. A fuga à guerra, em 1997, ainda deixa marcas. Os países por onde passaram até chegar a Portugal tornaram-se cenários de outras guerras.

Passaram pela Palestina e pelo Irão, mas a memória só o permite lembrar-se dos anos em que viveram na Ucrânia. Apesar de os pais terem o seu próprio negócio no pequeno comércio, as dificuldades financeiras e legais eram muitas para uma família de refugiados. No entanto, Hamid começava aqui a percorrer o seu sonho: fazia, pela primeira vez, parte de uma equipa, mas era apresentado, nos jogos oficiais, como filho do treinador para poder jogar, sem pagar as quotas de inscrição. “Havia meses em que tínhamos de dar 40 ruble e houve uma fase em que não tínhamos esse dinheiro”, conta.

Portugal: o país dos seus ídolos (Luís Figo e Abel Xavier)

Nos 12 anos que viveram na Ucrânia, a família nunca conseguiu obter o visto de residência. Em 2009, deixa a Ucrânia, em busca de “um abrigo bom, uma vida calma” que encontra em Portugal. Hamid, que estava a treinar apenas há duas semanas na célebre equipa Shakhtar Donetsk, vê nesta mudança um novo entrave à concretização do seu sonho, mas, pelo menos, era o país dos seus ídolos: Luís Figo e Abel Xavier.

Já em Portugal, o afegão voltou a dar pontapés na bola na Associação Desportiva Bobadelense, perto da sua nova casa. “Eu tinha medo, mas quando comecei a jogar, a dar pontapés aqui, não foi muito difícil”, conta Hamid, que rapidamente mudou de clube para o Sport Grupo Sacavenense. Mas, a partir daqui, o caminho tornou-se mais árduo.

“Quando estava nos séniores, surgiu uma chamada lá dos refugiados para o Sacavenense e disseram-me que não podia treinar”, relembra Hamid. A razão ainda hoje é desconhecida para o jogador, mas acredita que a sua identidade possa ter um peso nisso: “Não sei se é porque sou afegão, ou porque sou refugiado, ou porque sou estrangeiro”.

“O futebol não é para um afegão, é para o Cristiano Ronaldo”

Entretanto, os pais entram no quarto a meio da entrevista. Hamid serve de tradutor de uma geração que não fala português. O pai conta que na altura lhe disseram que “o futebol não é para um afegão, é para o Cristiano Ronaldo”, como quem espelha a injustiça de que acredita ter sido vítima o filho.

A vida de Hamid é feita de muitas tentativas para alcançar o seu sonho. Para ele, há uma frase que permanece: “Nunca desistir”. Em 2011, tentou a sorte no Sport Clube Sanjoanense. Treinou arduamente durante uma, duas, três semanas, um mês, dois meses, sempre na esperança de conseguir ser oficialmente inscrito na equipa. Isto repetiu-se durante três anos. Porque não desistir, se não podia jogar? “Eu pensei ‘se eu parar agora, não posso sonhar mais, depois é difícil recuperar o ritmo’”, justifica Hamid. O jogador guarda, com o carinho de quem muito sofreu para conquistar, o papel que oficializa a sua primeira inscrição no clube de futebol.

“Aquilo que se passa lá (no Afeganistão) tem de ficar lá”, conclui Hamid.

“Eu nunca posso pensar que não sou afegão, porque, quer queira, quer não, eu sou afegão”. Ainda assim, regressar ao Afeganistão não é um plano, pelo menos para Hamid: “Portugal, para mim, é abrigo, é a minha casa”.

"Eles pensam que um afegão tem barba e aqueles vestidos estranhos”

Hamid sente-se quase tão português, quanto afegão, mas é muitas vezes confundido com um mexicano ou um ucraniano. “Eles (os portugueses) pensam que um afegão tem barba e aqueles vestidos estranhos”, por isso é facilmente recebido com estranheza.

Para Hamid, há ainda muito desconhecimento. Dizer que é refugiado e afegão ainda é sinónimo de ser associado a um bombista. Há um misto de medo, vergonha e estranheza no primeiro contacto com um afegão de calças de ganga e ténis, mas acima de tudo estranheza.

O jogador sente na pele o que é viver na Europa com a sombra da cultura afegã. Os pais sonham que case com uma muçulmana. “Lá (no Afeganistão), não há romance, tem de ser noivado e casar logo”. Hamid não sabe o que o futuro lhe reserva, mas sabe que não quer isso para si: “Não, eu não posso obrigar a pessoa a ser assim (muçulmana)”.

Por enquanto, a sua namorada é a bola

Por enquanto, a sua namorada é a bola. Atualmente, o afegão joga à defesa no União Atlético Povoense. A parede do seu quarto guarda pendurada a bandeira do Afeganistão e das mais de 20 medalhas que já mereceu.

Na época de 2018/2019, ganhou o prémio de Melhor Jogador da SuperLiga de Futebol 5 Lisboa. Hamid acredita que, num cenário diferente, podia ter evoluído muito mais, talvez jogar na segunda, ou até primeira divisão, onde ganharia dinheiro suficiente para não ter de trabalhar fora do futebol e conseguir sustentar a família.

O refugiado afegão conhece bem a realidade de outros que saíram do seu país: deixar para trás casa, projetos, amigos e começar de novo. Por isso, quando o pai liga a televisão e se fala em mais um atentado em Cabul, Hamid prefere não ver: “É difícil ver, porque nós já sabemos, eu pessoalmente já sei, o que é, o que nós passámos”.

Há 22 anos fora de Cabul, Hamid quer seguir em frente, quer uma vida tranquila. E ter uma vida tranquila “é saber não sofrer” por todos os refugiados que, ao contrário dos Taheri, não saíram na altura certa. Hamid não quer ignorar o país que o viu nascer, sonha até um dia jogar pela Seleção de Futebol afegã. Sabe que deixou para trás a guerra e é por isso que não a quer no seu presente.