Ataques em Paris

"Uma parte de mim morreu nessa noite", recorda sobrevivente do Bataclan 10 anos depois dos ataques

Dez anos depois, Paris ainda carrega as marcas emocionais e físicas dos ataques que deixaram 130 mortos e mais de 350 feridos. Além do Bataclan, os atentados atingiram bares, restaurantes e o Stade de France, mergulhando o país em luto e transformando a política de segurança.

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Dez anos após os atentados de 13 de novembro de 2015, Paris volta a lembrar as 130 vítimas mortais e os mais de 350 feridos daquela noite. Entre os sobreviventes, Sébastien Lascoux ainda luta com o trauma e com a perda do amigo que morreu ao tentar salvar outra amiga.

O Bataclan foi um dos seis locais atacados por militantes islâmicos em Paris, naquela noite em que a música se calou sob o som das armas automáticas. Uma década depois, Lascoux fala da dor, da culpa e da importância de continuar a nomear os que morreram — “porque, ao nomeá-los, fazemos com que continuem a viver”.

“Tudo aconteceu muito, muito rápido”

Sébastien Lascoux estava absorvido pela música quando os disparos começaram. Tinha ido ao Bataclan com os amigos Christophe “Chris” Lellouche e Sophie-Charlotte para assistir a um concerto da banda Eagles of Death Metal. De repente, o som do rock foi substituído por tiros e gritos.

“Ao princípio pensei que eram bombinhas. As luzes acenderam-se, as pessoas começaram a gritar e só então percebi que alguém estava a disparar”, conta á agência Reuters.

Separou-se dos amigos e atirou-se ao chão.

“Vejo os terroristas no andar de cima. Vejo dois e não sei onde está o terceiro. Mas digo a mim próprio que, se ia morrer, talvez fosse a altura de tentar escapar".

Conseguiu fugir e abrigou-se num apartamento próximo. O amigo Chris, porém, não teve a mesma sorte.

“Um deles disparou um tiro e o Chris teve o reflexo de empurrar a Sophie-Charlotte. Ela foi atingida por um fragmento de bala. Ele foi atingido pelo resto e morreu instantaneamente. Com a sua ação, salvou-a".

Aceitar o que se passou foi, durante muito tempo, impossível.

“Senti-me como se estivesse fora de mim. Eu estava lá sem estar lá. Uma parte de mim morreu nessa noite, que ficou na sala do Bataclan”.

O trauma transformou a vida de Sébastien. Sofre de transtorno de stress pós-traumático, evita locais cheios e sons altos. Deixou o emprego numa estação de rádio e trabalha agora como freelancer. Apesar de continuar a amar a música, ainda não conseguiu voltar a um concerto. “Espero um dia conseguir ir novamente, sobretudo com as minhas filhas”.

Este ano, Sébastien decidiu participar pela primeira vez nas cerimónias organizadas pelas associações de vítimas. Costuma visitar o jardim memorial “13 de novembro de 2015”, inaugurado pela câmara de Paris, onde estão inscritos os nomes das vítimas - incluindo três que morreram por suicídio.

“É importante ler todos os nomes porque, ao nomeá-los, fazemo-los viver. A sua memória está lá, continua a viver em nós”.

O jardim será oficialmente inaugurado a 13 de novembro, com a presença do Presidente Emmanuel Macron.

“A vida continua, mas o trauma fica”

À porta do Bataclan, moradores e turistas param em silêncio. 

“Hoje vivo a sete mil quilómetros de distância. Mas este é o meu bairro”, diz Françoise Deboste, agora residente nas Antilhas Francesas.
“Cada vez que passamos por aqui, o sentimento de solidariedade intensifica-se”, acrescenta Xavier, que vive na zona há 25 anos.

As homenagens multiplicam-se: uma marcha em memória das vítimas percorreu a 9 de novembro os locais atacados e na Praça da República os novos cartazes recordam a união que se seguiu à tragédia.

“Todos concordamos que isto nos marcou para sempre. Estamos profundamente traumatizados por aquela noite… Mas a vida continua”, diz Catherine Bertrand, também sobrevivente do Bataclan e vice-presidente de uma associação de vítimas.