Conflito Israel-Palestina

Israel muda versão sobre ataque que matou 15 socorristas após vídeo que revela contradições

O presidente do Crescente Vermelho exigiu uma investigação independente ao caso, depois do vídeo revelador encontrado num telemóvel que estava no bolso de um dos paramédicos mortos.

Israel muda versão sobre ataque que matou 15 socorristas após vídeo que revela contradições
Abdel Kareem Hana/AP

As forças militares de Israel recuaram na versão sobre a morte de 15 profissionais de saúde na Faixa de Gaza, no mês passado, depois de ter sido divulgado um vídeo que contraria as suas declarações iniciais, noticiou este domingo a AP.

O vídeo - gravado por um telemóvel - contraria a versão de que os veículos do Crescente Vermelho e da Proteção Civil onde seguiam os 15 profissionais de saúde e socorristas não tinham as luzes de sinalização nem os faróis ligados quando foram atacadas por tropas israelitas.

Na versão inicial, as forças militares israelitas justificaram ter atirado contra as ambulâncias e carros de bombeiros porque estas estavam "a avançar suspeitamente" na direção de tropas colocadas num local próximo.

Conhecidas as imagens do vídeo, uma fonte militar oficial israelita que pediu o anonimato disse à agência Associated Press (AP) que essa versão está "errada".

Segundo a AP -- que obteve o vídeo a partir de um funcionário das Nações Unidas, sob condição de anonimato --, as imagens mostram que as equipas do Crescente Vermelho estavam a conduzir devagar e não parecem estar a agir de forma suspeita ou ameaçadora.

Os veículos onde os profissionais seguiam -- que tinham sido chamados a responder a alertas de feridos em Tel al-Sultan, um bairro da cidade de Rafah, na Faixa de Gaza -- tinham os logótipos visíveis e as luzes de emergência ligadas.

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Militares israelitas que conduzem as operações em Tel al-Sultan abriram fogo contra os veículos durante mais de cinco minutos, com breves pausas, ouvindo-se o autor do vídeo a rezar e a dizer: "Desculpa, mãe. Foi este o caminho que escolhi para ajudar pessoas, mãe".

Oito elementos do Crescente Vermelho, seis da proteção Civil e um das Nações Unidas morreram no tiroteio, registado antes de o sol nascer, a 23 de março.

Os corpos foram enterrados numa vala comum, num local que só foi identificado uma semana depois.

Os corpos foram desenterrados e estão a ser analisados.

O telemóvel com o vídeo foi encontrado no bolso de um dos paramédicos assassinados, disse o vice-presidente do Crescente Vermelho palestiniano, Marwan Jilani.

O presidente da mesma organização, Younes Al-Khatib, exigiu uma investigação independente ao caso. "Não confiamos em nenhuma das investigações do exército [israelita]", vincou.

O embaixador da Palestina junto das Nações Unidas já distribuiu o vídeo pelos elementos do Conselho de Segurança.

Paramédico que sobreviveu foi espancado

Munzer Abed, paramédico que sobreviveu ao ataque, confirmou à AP a veracidade do vídeo.

Outro paramédico, Assaad al-Nassasra, continua desaparecido e Abed disse que o viu ser levado, de olhos vendados, por militares israelitas.

Uma das ambulâncias que respondeu à chamada para Tel al-Sultan regressou em segurança, transportando pelo menos um ferido, referiu o Crescente Vermelho, dando conta de que os veículos seguintes foram todos atacados.

"De repente, atiraram diretamente contra nós", contou Abed, explicando que o ataque foi tão intenso que a ambulância parou.

Segundo o seu relato, soldados israelitas arrastaram-no para fora da ambulância, despiram-no até ficar só de roupa interior e espancaram-no e ataram-lhe as mãos atrás das costas, antes de o interrogarem sobre quantas pessoas seguiam na ambulância.

Abed testemunhou os ataques contra os veículos de emergência da Proteção Civil que chegaram a seguir.

Questionadas sobre o vídeo divulgado, as forças armadas israelitas disseram que o caso "está a ser analisado minuciosamente".

Israel tem acusado o grupo extremista palestiniano Hamas de esconder combatentes em ambulâncias e veículos de emergência, para justificar os ataques contra essas viaturas, mas o pessoal médico rejeita essa acusação.

Os ataques israelitas na Faixa de Gaza já causaram a morte a mais de 150 socorristas do Crescente Vermelho e da Proteção Civil e a um milhar de profissionais de saúde, a maioria dos quais quando estavam em serviço.