Conflito Israel-Palestina

Portugal só irá aderir ao Conselho de Paz de Trump se se cingir ao conflito israel-palestiniano

O chefe da diplomacia portuguesa admitiu que o país não se afastará dos Estados Unidos mesmo quando não concorde com "aspetos, dimensões, propostas ou iniciativas de política externa".

Portugal só irá aderir ao Conselho de Paz de Trump se se cingir ao conflito israel-palestiniano
MARCOS BORGA

Portugal só irá aderir ao Conselho de Paz criado pelo Presidente norte-americano se o âmbito da organização se cingir ao conflito israelo-palestiniano, afirmou hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.

"O 'Board of Peace' [Conselho de paz] é perfeitamente enquadrável se se restringir a Gaza", afirmou Paulo Rangel na sua intervenção numa conferência sobre "O futuro da segurança da Europa", que esta terça-feira decorre na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

A organização "foi proposta pelos Estados Unidos para este conflito israelo-palestiniano, gostaríamos que se cingisse a isso", reforçou, lembrando que a posição é seguida por outros Estados, incluindo o Brasil.

"O que está previsto na resolução do Conselho de Segurança [da ONU que aprovou, em novembro, a criação desta organização] é que haja uma espécie de comissão da paz ou conselho da paz ou junta da paz, como quisermos chamar, com um papel de supervisão política de um governo tecnocrático que atua em Gaza", lembrou.

Por isso, a organização em causa "terá de uma arquitetura diferente da apresentada", reforçou o ministro.

Para Portugal "como para a generalidade dos países europeus, as Nações Unidas são uma sede fundamental de governação mundial. E, portanto, aí é o espaço para o diálogo, é o espaço para as decisões, é o espaço multilateral em que nós nos queremos afirmar", observou Rangel.

Ainda assim, o chefe da diplomacia portuguesa admitiu que o país não se afastará dos Estados Unidos mesmo quando não concorde com "aspetos, dimensões, propostas ou iniciativas de política externa".

"Nós somos capazes de dialogar com os Estados Unidos e de contrapor alternativas", assegurou, defendendo que "a política externa portuguesa não abdica do laço transatlântico".

"Isso seria uma negação daquilo que é o próprio ADN, do que é o código genético de Portugal e da política externa portuguesa", concluiu.

Criado oficialmente na quinta-feira passada, o Conselho de Paz foi anunciado como um organismo com o objetivo de aplicar o plano de Washington para pôr fim à guerra na Faixa de Gaza, mas o tratado fundador revela um mandato muito mais vasto, apresentando-se como uma organização alternativa às Nações Unidas.

Presidido por Donald Trump, o Conselho de Paz enviou convites de adesão a vários países, incluindo Portugal, sendo que o preço de um lugar permanente é de mil milhões de dólares (854,3 mil milhões de euros).

Trump tem sido muito crítico da ONU, criada em 1945, no rescaldo da II Guerra Mundial, que conta atualmente com 193 Estados-membros.