O que acha que acontece se disser a uma criança de quatro anos para comer fruta porque faz bem, mas a deixar numa sala cheia de gomas e chocolates? A vontade e determinação de cada criança terá impacto no resultado, mas é inegável que este ambiente não vai facilitar as decisões.
É isto que acontece com as determinantes comerciais de saúde. Tal como o ambiente social influencia as nossas escolhas, também o ambiente criado pelas grandes indústrias influencia aquilo que comemos, bebemos e fazemos no dia a dia.
Tudo isto influencia o nosso comportamento: a comida que encontramos nas prateleiras, a publicidade que aparece nas redes sociais ou na televisão e até os lanches que são dados nas escolas.
Precisamos de políticas de saúde pública que nos protejam e garantam que o marketing de alimentos ultraprocessados ou bebidas alcoólicas, por exemplo, é controlado e cumpre a regulamentação.
Promover literacia e explicar porque é importante comer bem dificilmente será suficiente se continuarmos a ter crianças muito expostas à publicidade a alimentos pouco saudáveis, ou campanhas brilhantes sobre bebidas alcoólicas ou refrigerantes altamente processados.
A obesidade não é apenas uma condição ligada ao estilo de vida
Na última semana, falou-se muito das novas guidelines para tratamento da obesidade lançadas pela Organização Mundial da Saúde. São um marco importante para que a narrativa de que a obesidade é uma escolha acabe.
Esta guideline relembra que a obesidade não é apenas um fator de risco ou uma condição ligada ao estilo de vida, mas sim uma doença em si mesma, moldada por uma combinação complexa de determinantes biológicos, sociais, comerciais e ambientais.
É neste sentido que recomendam que, para além da alimentação, do movimento, do sono, da saúde mental e do ambiente, se usem também medicamentos adequados. Não são injeções da moda, são tratamentos sérios e eficazes que reduzem o risco de diabetes e de doença cardíaca.
Mas não podemos celebrar este marco ignorando outra parte essencial da guideline, que reforça exatamente isto: que o ambiente também tem de mudar. Se não mexermos no ambiente que causa a doença, estamos sempre a correr atrás do prejuízo e vamos continuar a gastar muito mais dinheiro a tratar doenças do que a preveni-las.
Com cada vez menos recursos, por mais medicamentos que tenhamos, o setor da saúde será sempre pouco sustentável se os estilos de vida saudáveis forem um luxo e não um direito.
Neste momento ter acesso a cabazes de fruta e legumes, licenças de amamentação prolongadas, ou acesso a desporto e cultura são benefícios que quase só chegam a quem os pode pagar.
Precisamos de criar um ambiente que previna a doença antes de ela aparecer: regulamentar a publicidade, facilitar escolhas saudáveis, tornar os ambientes mais justos e garantir que o acesso ao tratamento não dependa da carteira.
