Coronavírus

O lugar onde se pode espreitar a morte em vida

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

A unidade de cuidados intensivos de um Hospital, é, nestes dias, o olho do furacão desta pandemia.

Especial Coronavírus

Já estive muitas vezes em situações de tensão e sempre fui capaz, através de algum treino, de atingir um certo estado de frieza em relação ao que ia acontecendo à minha frente. Mas a idade vai gastando a minha capacidade de regeneração emocional.

É cada vez mais intenso, para mim, lidar com as situações hostis que me são dadas; sobretudo se se trata de sofrimento alheio.

Rui Caria

Nos últimos dias tenho tido a experiência de permanecer no Hospital de Santo Espírito em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, tentando documentar, através de imagens, todo aquele mundo novo.

Tenho, nalgumas situações, vestido uns fatos de proteção biológica que aumentam a nossa temperatura corporal em poucos minutos. Tudo o que é vidro, fica embaciado.

A máscara não deixa entrar ar suficiente para que possamos respirar fundo, a plenos pulmões. As luvas colam-se às mãos suadas. Há aperto naquilo tudo. É como se nos estivéssemos a afogar no nosso próprio suor. Poucos minutos depois, toda aquela indumentária técnica, que sabemos essencial, se torna insuportável.

Rui Caria

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A unidade de cuidados intensivos de um Hospital, é, nestes dias, o olho do furacão desta pandemia. É o lugar onde se pode espreitar a morte em vida.

As pessoas que aqui trabalham são uma espécie de elfos. Parecem todas iguais, por detrás das máscaras que lhes roubam a existência entre os comuns.

Cruzei-me, durante umas horas, com gente que não seria capaz de identificar amanhã no supermercado, simplesmente, porque estive com pessoas sem lhes ver a feição, permanentemente escondida, por detrás daquelas máscaras e dos capuzes insuportáveis.

Nos cuidados intensivos, estas pessoas chegam a servir durante, pelo menos, doze horas, embrulhadas nesta falsa pele que rapidamente se cola à verdadeira. É uma sensação atroz.

Rui Caria

Se eu não tivesse estado já do lado de dentro daqueles ofegantes fatos, jamais compreenderia o sofrimento calado daqueles seres brancos e azuis que circulam quase sempre em silêncio enquanto tratam dos doentes, num bailado de humanismo misturado com a precisão necessária para evitar a falha que, aqui, pode levar à morte dos outros; ali, entubados; expostos à mercê da vontade de um microscópico ser, que nem vivo é. Um ser invisível, incapaz de sobreviver por si.

Vive apenas, quando invade os corpos frágeis, daqueles, que agora sofrem e clamam por ajuda, prostrados, de barriga para baixo. Como se a salvação fosse ficar de costas viradas para os salvadores, numa espécie de ironia da distância.

Nem todos vamos ficar bem. Não é possível aos que já ficaram mal. A revolta dos que já perderam, não os deixa ouvir as frases de esperança dos que ainda lutam. E é preciso aceitar como é preciso lutar.

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