Coronavírus

Estarão os anti-vacinas a mudar de ideias?

Ted S. Warren

Enquanto a ciência corre em busca de uma vacina contra o coronavírus, e alguns líderes políticos avisam que, sem ela não é possível levantar as restrições impostas à sociedade, há um fenómeno crescente a acontecer em vários países, como o Reino Unido e a França.

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De acordo com a pesquisa conduzida pelo Vaccine Confidence Project, um grupo de investigadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, as pessoas estão menos preocupadas com os efeitos colaterais da vacinação, ao contrário do que vinha acontecendo de há alguns anos.

À medida que aumenta o número de mortes por coronavírus, aumenta também o número de pessoas disposto a ser vacinado. É o que revelam os números das recentes pesquisas.

Para a diretora da VCP, Heidi Larson, a pandemia que o mundo atravessa está "definitivamente a levar as pessoas a repensar muitas coisa". O que não significa, sublinha, que a longo prazo esta tendência se mantenha. Larson explica que há um grupo de pessoas que está a reagir em sentido contrário, e em quem a ideia de uma potencial vacina contra a Covid-19 gera desconfiança.

"Este é um momento importante para refletir sobre o valor das vacinas", diz Larson. "Se tivéssemos uma vacina, não estaríamos trancados em casa, as economias não estariam a desmoronar e teríamos sido um mundo totalmente diferente. A questão é: tivemos que chegar a algo tão mau?"

A directora da VCP acredita que o céticismo da população em relação às vacinas tem a ver com o facto de, namior parte das vezes, não conseguirem ver uma ameaça. Larson acredita que a protecção da sociedade "depende totalmente da cooperação pública".

Pessoas que são contra vacinas estão a mudar de ideias

Pessoas que são contra vacinas estão a mudar de ideias

Bing Guan

Haley Searcy, de 26 anos, vive na Flórida.
À CNN admitiu que era "totalmente anti-vacinas" quando a filha nasceu em 2019. "Eu tinha visto tantos relatos de crianças a morrer de SIDS [Síndrome da Morte Súbita Infantil] e a ter outras reações perigosas devido às vacinas", justificou.

O medo, apesar de não ser cientificamente suportado, é comum entre os céticos das vacinas, que acreditam que mesmo aqueles tratamentos que foram submetidos a testes rigorosos ainda podem ser perigosos. "Eu tinha tanto medo das vacinas como das doenças que eles protegem".

Apesar disso, aconselhada pelo pediatra da filha, Searcy acabou por permitir que esta fosse vacinada. Uma decisão que tomou contrariada, nunca deixando de acreditar que as vacinas eram desnecessárias e perigosas. Pelo menos até ao surto de Covid-19. "Desde então, percebi o que essas doenças podem fazer quando não são combatidas com vacinas", diz agora a norte-americana.

"A minha mãe tem uma doença pulmonar, por isso, se ela contrair o Covid-19, não há como combatê-la. Aprendi o máximo que pude a falar contra informações erradas, na esperança de convencer mais pessoas a ficar em casa e a seguir o distanciamento social, para que ela não fique doente."

A pesquisa e a informação recolhida, na tentativa de proteger-se, e aos seus, foram determinantes nesta mudança de ideias.

"Eu aprendi o quão rigorosos são os testes de vacinas antes de serem disponibilizados ao público", disse ela. "Eu não procurei activamente informações sobre vacinas, mas quanto mais eu aprendia, mais percebia que isso ia ajudar, e mais fácil se tornava reconhecer a falta de ciência nos argumentos anti-vacinas."

Uma tendência preocupante


Atualmente, apesar da maioria das crianças ser vacinada, os serviços de saúde têm registado um padrão preocupante de diminuição da taxa de imunização nos últimos anos.

Os dados so Serviço Nacional de Saúde britânico revelam que, no Reino Unido, apenas 33 das 149 autoridades locais atingiram a meta de vacinação de 95% para doenças evitáveis ​​por imunização entre 2018 e 2019.

E, nos Estados Unidos da América, desde 1992 que não se verificava um número tão alto de casos de sarampo, principalmente entre pessoas não vacinadas. A Organização Mundial de Saúde retirou mesmo o país da lista dos que são considerados livres da doença.

Agora, com o propagação da Covid-19, um relatório da UNICEF dá conta de mais de 117 milhões de crianças em risco de ficar sem a vacina contra o sarampo. Este órgão das Nações Unidas já instou os países a continuarem com a imunização essencial, mas admite há um risco "inaceitavelmente alto" de adiamento.

Vacinação - obrigatória ou não
A mãe de Isaac Lindenberger, do Ohio, é convictamente contra a vacinação, e o irmão mais novo, Ethan, chegou às manchetes norte-americanas, no ano passado, quando decidiu ser vacinado contra a vontade da mãe, aos 19 anos.

Lindenberger tem 23 anos, e também só se submeteu a vacinação há poucos meses, como condição para entrar na universidade.
É através de um podcast, de nome "A verdade lúcida", que o jovem aborda o assunto, e a desinformação que há a propósito da vacinação.

"Definitivamente vejo efeitos positivos nas pessoas que são anti-vacinas, e que antes não considerariam a vacinação", contou à CNN. "É muito mais difícil estar em estado de negação quando se trata da verdade objetiva dos perigos das doenças infecciosas, quando se está a enfrentar uma pandemia".

Aqueles que se opõem a vacinas publicamente correm agora o risco de ouvir críticas ferozes. No domingo, o tenista Novak Djokovic foi o protagonista da polémica quando, num directo nas redes sociais, se assumiu anti-vacinas.
"Não gostaria de ser forçado a tomar uma vacina para poder viajar. Mas se isso se tornar obrigatório, o que é que faço? Terei que tomar uma decisão. Tenho a minha opinião sobre o assunto, e se ela mudará em algum momento, não sei."

Algumas pessoas em grupos anti-vacinas temem que os governos usem o isolamento como uma oportunidade para aprovar legislação, como a aplicação de vacinas obrigatórias .
Essa é uma preocupação séria para Lynette Marie Barron, que dirige um grupo chamado Tough Love, e que duas vezes fez campanha, com sucesso, no estado do Alabama, contra projetos de lei que previam o fim das isenções religiosas.

Paul Offit, pediatra americano especializado em doenças infecciosas, admite que a população esteja "bastante assustadas" com a velocidade do desenvolvimento da vacina, mas lembra que haverá sempre a preocupação com a segurança das vacinas. "Todos se preocupam, incluindo empresas farmacêuticas, o governo e a comunidade médica".


Offit responde ainda aos argumento anti-vacinas que defende a liberdade de escolha dos cidadãos:

"É seu direito inalienável, como cidadão dos EUA ou de qualquer outro país, permitir que você ou o seu filho sejam infectados por uma doença potencialmente fatal e transmissiva?Acho que a resposta a essa pergunta é não".