Coronavírus

Governos estudam expansão da "bolha social" - será cedo para um abraço?

Handout .

Limitar drasticamente o contacto das pessoas com os outros parece estar a ajudar muitos países a conter a disseminação do coronavírus. Mas, à medida que as economias caem e as pessoas se cansam das regras, os governos começam a estudar o alívio dos bloqueios, sem arriscar uma segunda vaga de infeções.

Especial Coronavírus

A abordagem da "bolha social" é uma das hipóteses em análise, por parte de alguns governos, para aliviar o confinamento obrigatório.
Mas, em que é que consiste?
A ideia é permitir que as pessoas possam ver alguns amigos e familiares selecionados.

De acordo com um memorando divulgado aos meios de comunicação locais, as autoridades da Bélgica estão a considerar a hipótese de que os cidadãos possam escolher, e contactar, com 10 pessoas, aos fins de semana.


Para fechar a rede de possíveis infeções, cada membro do grupo teria que incluir as outras nove pessoas na sua lista de 10. E uma vez escolhidas, cada pessoa seria proibida de se encontrar com alguém fora dos 10 nomeados.

O que não é ainda claro, é como é que isso seria policiado.
Além disso, o método pode criar um problema social para algumas pessoas. Quem escolher? E se a pessoa que você escolher para o seu top 10 não o incluir no deles?

Governos estudam expansão da "bolha social"

Governos estudam expansão da "bolha social"

Vasily Fedosenko

A ideia não foi incluída no recente anúncio das medidas por parte do governo belga mas, de acordo com a BBC, há outros países a ponderar aplica-la.

O primeiro-ministro da Escócia, Nicola Sturgeon, disse à BBC Radio Escócia, na semana passada, que estava a pensar expandir a definição de "famílias", para permitir pequenas reuniões de pessoas, "incentivando quem mora sozinho a talvez se relacionar com alguém que esteja sozinho, ou com outras 2 pessoas, para formar uma espécie de bolhas de pessoas".

Já na Nova Zelândia, a aplicação das bolhas de contacto, para incluir familiares próximos, cuidadores e pessoas que vivem isoladas, arranca já na próxima.

Bélgica estuda "bolha social" de 10 pessoas

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OLIVIER HOSLET

Mas, enquanto não há vacina, muitos países hesitam ainda em permitir mais contacto social, sob pena de provocar uma nova vaga de infeção.
Ao tomar decisões, os especialistas têm adotado uma métrica chave conhecida como taxa de reprodução efetiva (Rt) - a taxa na qual o vírus se espalha entre a população.


Em vários países, o que tem acontecido é que os governos se têm abstido de facilitar as medidas de confinamento até que a Rt nacional seja significativamente menor que uma. Ou seja, até que quem contraia o vírus o transmita, em média, a menos que uma pessoa.

É cedo?


Stefan Flasche, professor associado da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), é da opinião que é muito cedo para relaxar as restrições no Reino Unido. Mas admite que, quando for seguro faze-lo, as amplas bolhas sociais possam ser um importante "mecanismo de aceitação" para as pessoas, enquanto a busca pela vacina continua.

"Ele não foi projetado para resolver a pandemia, mas ajudará a componente social", diz. "Teremos o risco de Covid por muito tempo, então qualquer coisa para manter a sociedade a funcionar ajudaria."

Especialistas acreditam que alargamento da bolha social pode tornar o confinamento mais tolerável

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Rafael Marchante

'As pessoas só precisam de um abraço'


O impacto do isolamento no bem-estar mental já está a ser sentido em todo o mundo. Nos Estados Unidos, uma linha de atendimento nacional de saúde mental registou um aumento dramático do número de pessoas que entraram em contacto, com um aumento de chamadas próximo dos 900%.

Apesar disso, Andy Bell, vice-presidente executivo do Centro de Saúde Mental do Reino Unido, não tem certeza se uma pequena expansão de bolhas sociais será boa para a saúde mental do público.

"É importante entender que nem todo mundo está a passar por isto da mesma forma", explicou à BBC.

"O bloqueio é muito mais difícil se você for inseguro, se tiver uma renda muito baixa, se está em acomodações superlotadas. Os desafios para a saúde mental são muito maiores quando você tem estes fatores de risco. Vamos ter que aprender em tempo real agora", acrescentou.

Já Brian Dow, vice-presidente executivo da Rethink Mental Illness, acredita que a adoção dessa política seria benéfica, desde que bem administrada.

"Isso permite que as pessoas libertem a ansiedade que podem estar a sentir presas dentro de casa", disse. "As pessoas têm sido muito criativas em socializar on-line, mas, francamente, agora, as pessoas só precisam de um abraço".

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