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Covid-19. Casos de reinfeção são raros mas lançam mais dúvidas sobre o vírus

Teste ao novo coronavírus em Paris, França.

Michel Euler

Eis o que se sabe até ao momento sobre a reinfeção pelo novo coronavírus.

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Os casos de reinfeção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 são raros mas possíveis, confirmando-se atualmente cinco a nível mundial, e lançam um conjunto de dúvidas sobre o novo coronavírus e sobre a imunidade por exposição.

Segundo um estudo publicado esta terça-feira na revista científica Lancet, a exposição ao novo coronavírus pode não se traduzir em imunidade total garantida à doença covid-19 e os investigadores apontam a necessidade de análises adicionais dos casos de reinfeção. Saiba o que é conhecido até ao momento sobre a reinfeção com SARS-CoV-2.

Quantos casos de reinfeção existem?

O estudo divulgado esta terça-feira na revista Lancet confirma o primeiro caso de reinfeção pelo novo coronavírus nos Estados Unidos, o quinto em todo o mundo. O primeiro foi registado em Hong Kong em 24 de agosto e os restantes na Bélgica, Holanda e Equador.

No entanto, investigadores na Coreia do Sul e em Israel já descreveram outros casos de reinfeção, o que resulta em menos de 20 possíveis reinfeções, em comparação com os mais de 37,5 milhões de casos de infeção confirmados em todo o mundo.

"Não significa que não haja mais", alerta Mark Pandori, um dos autores da investigação publicada esta terça-feira sobre o paciente norte-americano.

Muitas pessoas infetadas não apresentam sintomas de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus, o que dificulta o diagnostico, e um dos cinco casos de reinfeção, o paciente de Hong Kong, foi descoberto por acaso, através de um teste de triagem no aeroporto.

A confirmação de que se trata de uma reinfeção também implica uma análise genética das amostras retiradas de cada uma das infeções, para verificar se estão, ou não, em causa duas estripes diferentes do vírus, um procedimento difícil de implementar em larga escala.

Quais as consequências da reinfeção para os doentes?

As consequências de uma reinfeção variam de caso para caso, e se para os doentes dos Estados Unidos e do Equador a segunda infeção foi mais grave do que a primeira, nos restantes casos esse agravamento não se verificou.

Para os investigadores do estudo publicado na Lancet, o facto de o paciente de Hong Kong não ter desenvolvido sintomas na segunda infeção é uma boa notícia e um sinal de que o seu sistema imunitário aprendeu a defender-se após a primeira infeção.

Por outro lado, o paciente dos Estados Unidos foi hospitalizado e recebeu oxigénio durante a segunda infeção, apesar de ter apresentado sintomas leves na primeira vez.

"É preocupante", afirmou a especialista em imunidade da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, Akiko Iwasaki, citada pela agência AFP num comentário à investigação.

Segundo os autores, uma hipótese para explicar o agravamento dos sintomas na segunda infeção é a possível exposição a um inóculo muito grande do vírus na segunda vez, "o que teria causado uma reação mais aguda".

A explicação pode também passar pela exposição a uma estirpe mais virulenta do vírus ou pelo facto de a segunda infeção ter sido facilitada pela presença de anticorpos devido à primeira (uma possibilidade em outras doenças, como a dengue).

Por outro lado, investigadores holandeses também descreveram recentemente o caso de uma mulher de 89 anos que morreu após uma reinfeção, ainda que a vítima sofresse de um cancro raro que enfraqueceu o seu sistema imunitário.

Quais as implicações na pandemia?

Os casos de reinfeção, ainda que raros, lançam dúvidas no debate sobre a imunidade contra o SARS-CoV-2 e sobre a eventual duração dessa imunidade.

As reinfeções identificadas nos Estados Unidos e em Hong Kong ocorreram num período relativamente curto: quatro meses e meio entre a primeira e a segunda infeção para o doente de Hong Kong e até 48 dias para o dos Estados Unidos.

"Os exemplos de outros coronavírus, responsáveis por gripes comuns e pela síndrome respiratória aguda grave (SARS) e a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS), mostram que não há imunidade vitalícia", afirmou recentemente uma especialista da Organização Mundial da Saúde, Maria van Kerkhove.

Já Mark Pandori alerta que as pessoas que já estiveram expostas ao novo coronavírus devem continuar a tomar precauções, incluindo o distanciamento físico, o uso de máscara e a higienização das mãos, uma vez que a possibilidade de reinfeção não está excluída.

Os investigadores também têm tentado perceber por que motivo algumas pessoas podem ser reinfetadas e um investigador do Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica francês, Frédéric Altare, ouvido pela AFP, explicou que estes casos têm sido muito estudados na tentativa de identificar um fator diferenciador que possam justificar a reinfeção.

Seja qual for o motivo, considera a investigadora Akiko Iwasaki, "as reinfeções mostram que não podemos contar com a imunidade adquirida através da infeção natural para alcançar a imunidade de grupo", sublinhando que a estratégia é ineficaz e pode ser fatal para muitas pessoas.

Quais as implicações na criação de uma futura vacina?

"O facto de serem possíveis reinfeções pode significar que uma vacina não seria completamente protetora. Mas como o número de casos é minúsculo, isso não nos deve dissuadir de desenvolvê-las", refere um professor na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, Brendan Wren, citado pela organização britânica Science Media Centre (SMC).

Também a Aliança Global de Vacinação (Gavi) - para cujo conselho de administração foi nomeado o ex-primeiro ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso - reconhece que a capacidade de desenvolver uma vacina eficaz contra a covid-19 é desconhecida.

A posição da Gavi é a de que "mesmo considerando as incógnitas, a vacinação continua a ser o melhor meio de proteção [contra covid-19], mesmo que as vacinas não garantam imunidade vitalícia e que sejam necessários reforços".

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