Coronavírus

As próximas pandemias. Podemos culpar os animais?

Mark Baker

Os cientistas têm alertado para a possibilidade de haver novas doenças no futuro próximo, algumas delas com potencial para se tornarem epidemias. Não sabemos qual o vírus nem de onde virá, mas a probabilidade de se tratar de uma doença transmitida por animais é cada vez maior. A SIC Notícias falou com dois especialistas para perceber o que pode a ciência fazer para prevenir novas pandemias.

Especial Coronavírus

Os últimos 20 anos foram marcados pelo aparecimento de novos vírus e epidemias, incluindo a atual pandemia que vivemos. Em poucos meses, o vírus SARS-CoV-2 espalhou-se por todo o mundo, infetando mais de 40 milhões de pessoas, das quais cerca de 1,1 milhões morreram. As doenças emergentes e as novas zoonoses – doenças transmitidas ao Homem por animais – começam a preocupar a comunidade científica que prevê o aparecimento de novas epidemias num futuro próximo.

A Covid-19 é um exemplo de uma doença causada por um vírus de origem animal. A ciência acredita que o vírus terá tido origem nos morcegos, mas há ainda questões por responder. Os morcegos têm já um historial associado a pandemias e outras doenças, estando também na origem do surto de SARS-CoV, em 2003, como no do MERS, que se propagou em 2012 pelo Médio Oriente, e são ainda responsáveis pela transmissão do vírus do Ébola e da raiva em algumas regiões.

“O morcego sempre foi o candidato natural, até porque os morcegos são o habitat de dezenas de outros coronavírus. A esmagadora maioria [destes vírus] nunca atingiram – e esperemos que não venham a atingir – o homem”, explica Paulo Paixão, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia.

O vírus encontrado nos morcegos, até agora, não foi o SARS-CoV-2, mas sim um coronavírus com uma composição genética muito semelhante, que poderá ser da mesma família.

“O vírus filogeneticamente mais próximo do SARS-CoV-2 foi encontrado num morcego, na China, com 96% de semelhança genética. O que nos leva a crer que o vírus que origina a Covid-19 poderá ter vindo direta ou indiretamente dos morcegos”, explica Ricardo Rocha, investigador especializado em ecologia tropical no CIBIO-InBIO, Universidade do Porto.

Entre o vírus que foi encontrado no morcego e o SARS-CoV-2 poderá haver uma separação, do ponto de vista evolutivo, de 40 a 70 anos – ou seja, seriam necessários entre 40 a 70 anos para que o vírus que foi encontrado nos morcegos evoluísse de forma natural até ao vírus que infetou mais de 40 milhões de seres humanos.

É nesse espaço temporal que reside a maioria das dúvidas sobre a evolução do vírus e a forma como aconteceu a transição entre espécies. Os investigadores procuram evidências que mostrem se a passagem foi direta – do morcego para o ser humano – ou se houve um hospedeiro intermediário que terá levado e possibilitado a mutação do vírus para se tornar patogénico para o Homem. No caso das epidemias de SARS e MERS, o vírus passou através de um civeta-das-palmeiras e de um dromedário, respetivamente.

A culpa não é dos morcegos

Sukree Sukplang

Nem de nenhum outro animal. Apesar das histórias que foram partilhadas culpabilizando os morcegos – e que incluíam uma sopa de morcego, que pretendia atribuir a responsabilidade da pandemia aos hábitos alimentares chineses – não há provas que o morcego tenha transmitido o vírus aos seres humanos. Este tipo de narrativas aumentou a aversão das comunidades para com os morcegos, levando ao ataque de colónias e abate de animais.

“A verdade é que houve perseguição de algumas colónias de morcegos. Há eventos de distúrbios e de tentativas de matar os morcegos em países que vão desde o Peru, Quénia à Austrália”, diz Ricardo Rocha.

Não só esta vendeta contra os morcegos é errada como é também perigosa para a população humana. É errada por dois motivos: primeiro, porque existem 1.400 espécies de morcegos, o que significa que as espécies que habitam estas regiões nada têm a ver com a espécie onde foi detetado o vírus; segundo, porque o vírus identificado nos morcegos não é o SARS-CoV-2, mas outro que tem uma composição filogenética semelhante. É perigosa porque “o distúrbio de colónias e o abate de animais leva a mudanças na propagação dos vírus e pode aumentar a incidência e a perigosidade dos vírus”.

Uma colónia que esteja estabelecida num determinado local pode conter um conjunto de vírus que não são patogénicos para os humanos, mas o abate dos animais irá libertar o espaço para que outra colónia o possa ocupar. Nesta comunidade poderão existir vírus novos e desconhecidos que ficam mais próximos da população humana.

Para além disso, os morcegos têm um importante papel nos ecossistemas que habitam e contribuem para o bem-estar do ser humano. Estes animais são conhecidos por se alimentarem de insetos, eliminando potenciais transmissores de doenças – como é o caso dos mosquitos anopheles que transmitem malária. Também na agricultura, estes animais podem proteger as colheitas de diversas pragas agrícolas e ajudar à reflorestação de espaços, através da polinização.

“Para dar uma ideia: o valor anual, em termos de benefício para os agricultores, nos Estados Unidos, foi estimado em 23 mil milhões de dólares por ano. Os morcegos contribuem para o nosso bem-estar através do consumo dessas pragas agrícolas. Eles estão-nos a alimentar, de certa forma”, sublinha o Ricardo Rocha.

Invasão de habitats potencia novas doenças

A destruição de ecossistemas já começa a soar alarmes entre a comunidade científica porque, por um lado, coloca os humanos mais perto de novas espécies de animais selvagens e, por outro, obriga a que os animais se reorganizem num espaço mais confinado e em contacto com novas espécies.

A perda de habitats é “de longe a maior” causa para o aparecimento de novas doenças nos seres humanos, explica Ricardo Rocha, mas não é a única. Também a caça e o comércio de animais selvagens, as alterações climáticas ou qualquer fator que leve à movimentação de animais poderá criar contactos novos e aumentar a probabilidade de transferir elementos patogénicos de uma espécie para a outra.

Para Paulo Paixão, o grande problema é o aumento da população. “Somos mais, invadimos mais os ambientes naturais e claro que a possibilidade de contacto com os animais selvagens no seu habitat vai aumentar. A probabilidade de irem passando esses vírus para nós vai aumentando”, esclarece o virologista.

É uma questão de probabilidades. A proximidade aumenta a probabilidade de passagem que potencia o aparecimento de mutações e adaptações a diferentes organismos. O mesmo acontece com a mobilização dos animais que, ao contactarem com outras espécies em regiões diferentes, podem ficar contaminados com um novo vírus e levá-lo para outra região. Um pouco como os seres humanos fizeram com o SARS-CoV-2, transportando-o por diversos países.

Se olharmos para as principais epidemias e surtos dos últimos anos iremos encontrar um excelente exemplo do impacto da movimentação de animais na propagação de vírus: o H5N1, mais conhecido como Gripe das Aves. Neste caso, a ciência determinou que a doença tinha origem nas aves migratórias que carregam o vírus entre regiões, contaminando as aves de capoeira, através dos dejetos. O vírus chegou ao Homem através da alimentação.

“Nós temos cada vez mais contactos com os vírus, eles existem em grande quantidade e vamos aumentar a probabilidade. Felizmente a passagem deles das espécies animais para nós não é assim tão fácil nem a adaptação para nós [seres humanos]. Mas, obviamente, que a probabilidade vai aumentando cada vez mais”, remata o presidente da SPV.

A nova pandemia poderá vir da Amazónia

Uma situação que está a preocupar os investigadores e virologistas é a desflorestação da Amazónia. À medida que o ser humano caminha cada vez mais para o interior da grande floresta tropical, maiores são os riscos de encontrar novas formas de vírus – e alguns com potencial pandémico.

“Este é uma grande preocupação porque existe um deslocamento de organismos. Eles tentam adaptar-se a estes cenários novos e desafiantes através da mudança de lugares”, explica Adalberto Luís Val, investigador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, à Thomson Reuters Foundation.

Segundo o investigador, o Instituto Evandro Chagas, sediado na cidade de Belém, no Brasil, está a estudar os diferentes microorganismos que existem na Amazónia, tendo identificado 220 novos vírus, dos quais 37 podem causar doença nos seres humanos. Desses, 15 têm potencial para causar uma epidemias.

A diversidade ecológica que existe na Amazónia pode constituir um risco para a humanidade, mas não é o único fator de risco. Também o desaparecimento da floresta tropical e a transformação do espaço em savana, atrai espécies de roedores que contribuiem para o aumento da possibilidade de transmição de doenças já conhecidas, mas igualmente preocupantes.

Ueslei Marcelino

O que pode a ciência fazer?

A prevenção de novas pandemias não é tarefa fácil, principalmente porque não sabemos quem será o elemento agressor. O papel da ciência é preparar a comunidade para reagir a uma nova zoonose e evitar que esta se espalhe, tornando-se numa pandemia.

O estudo dos vírus e bactérias potencialmente patogénicos para criação de um espólio de informação, será o elemento mais útil para a identificação e diagnóstico do vírus, quando este aparecer. Esta prática existe entre a comunidade científica e o morcego já é uma das espécies mais estudadas.

Ao saber identificar o novo vírus, o diagnóstico torna-se mais rápido, o que permite uma atuação mais imediata de forma a conter e tratar a doença. É neste sentido que se pode evitar a propagação da doença a nível global, relembra Paulo Paixão.

O virologista aponta ainda um outro campo onde é necessário investir: o desenvolvimento de novos antivirais. “Temos muito poucas armas terapêuticas para o tratamento de infeções agudas", denuncia o virologista lembrando que com um fármaco que seja eficaz a matar o vírus é possível prevenir a evolução da doença e reduzir o número de mortos. Com base no conhecimento atual, as companhias farmacêuticas poderão investigar formas de eliminar diferentes famílias patogénicas - com os coronavírus ou os vírus da gripe - dando mais armas aos profissionais de saúde para combater novas pandemias. Esta linha de investigação não é tão preventiva, mas contribui para a cura da doença, assim que ela surgir.

Mesmo sem conhecer o vírus atacante, Paulo Paixão reforça que é possível desenvolver fármacos que atuem sobre determinadas compostos dos vírus que nós conhecemos atualmente, podendo tornar-se eficazes nas novas zoonoses da mesma família. Por exemplo, um vírus capaz de matar o SARS-CoV-2 poderá também contribuir para o tratamento de outros coronavírus que possam vir a aparecer. O mesmo se passa com os vários tipos de vírus da gripe.

Ricardo Rocha sugere ainda o estudo dos ecossistemas naturais e o impacto que os distúrbios nos habitats podem causar nas diferentes espécies animais. O investigador considera importante perceber de que forma é que estes distúrbios “têm impacto nas espécies, não só na forma como se movimentam no espaço, mas como interagem umas com as outras” de forma a perceber “o que isso origina a nível da condição de saúde dos animais e até mesmo das plantas”.

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