Coronavírus

Comunicação sobre a pandemia tem de ser mais clara, diz Ordem dos Psicólogos

Bastonário da Ordem dos Psicólogos fala numa população com cansaço acumulado.

Especial Coronavírus

O bastonário da Ordem dos Psicólogos alertou esta segunda-feira para a importância de uma comunicação clara sobre a pandemia de covid-19 e mais direcionada para as pessoas a quem as mensagens afetam, apontando o cansaço acumulado da população.

"Ajudará que as pessoas não se sintam tão depressa exaustas se a comunicação for ajustada, se a comunicação tiver a ver com o alvo", explicou Francisco Rodrigues.

Em declarações à agência Lusa, o bastonário comentava um estudo da Organização Mundial da Saúde que revela que 60% já sente cansaço em relação à pandemia, que em Portugal já dura há cerca de oito meses.

"Numa crise como a que estamos a viver, em que muitos dos nossos hábitos são alterados, vamos sentindo, em muitas das dimensões da nossa vida, desgaste", disse, explicando que esse cansaço decorre do recurso permanente às competências internas para lidar com a ansiedade.

No entanto, ainda que todas as pessoas disponham dessas competências, não as têm em níveis idênticos e, por isso, o cansaço normal decorrente do prolongar da pandemia da covid-19 também não se manifesta de igual forma e em igual ritmo.

É também nesse sentido que Francisco Rodrigues refere que a comunicação e as mensagens, importantes na minimização dos impactos psicológicos da pandemia, devem ser claras e direcionadas.

"A mensagem é muito importante na sua clareza, mas para ser percebida tem de ser dirigida a quem aquela mensagem tem de chegar. Porque a mesma mensagem pode não ser adequada para outra pessoa", justificou.

Para clarificar, o bastonário deu o exemplo da conferência de imprensa de sábado, após uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros, em que o primeiro-ministro, António Costa, anunciou um conjunto de novas medidas que não se aplicam a todo o país.

"Uma coisa é comunicar 'fiquem todos em casa' e toda a gente tinha de ficar em casa. Outra coisa é comunicar mensagens muito diferentes, quase de pessoa para pessoa", considerou, acrescentando que a melhor forma de o fazer era também através de canais diferenciados.

"Quem estiver do lado das autoridades de saúde tem de tentar fazer o possível de fazer chegar a melhor mensagem, a melhor explicação das medidas ou do que é necessário fazer pelo canal mais direto possível para não contaminar outras pessoas para quem a mensagem vai ter de ser diferente", acrescentou Francisco Rodrigues, admitindo que "é difícil e não há uma resposta fácil para isto".

Além do cansaço, o bastonário alerta ainda que o cansaço pode provocar a indiferença, decorrente de uma perceção mais reduzida do risco, de uma habituação à presença do novo coronavírus.

"Isso pode fazer com que as pessoas deixem de ter cuidados alguns. Esse é um dos perigos que pode advir daqui", avisou, reiterando a importante de as autoridades repensarem a comunicação.

Por outro lado, Francisco Rodrigues sublinhou que, ainda assim, os efeitos psicológicos da pandemia vão continuar a fazer-se sentir e a afetar cada vez mais pessoas, apelando por isso a um reforço do apoio psicológico que vá além da linha de Aconselhamento Psicológico do SNS24 que, apesar de positiva, não é suficiente.

IMPACTO DA PANDEMIA NA SAÚDE MENTAL

À SIC Notícias, o bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses disse prever que os impactos da pandemia na saúde mental cresçam nos próximos meses, sobretudo com o aumento do desemprego e da crise económica.

A Ordem dos Psicólogos divulgou um relatório sobre os impactos da pandemia na saúde mental dos portugueses, no Dia Internacional da Saúde Mental: "Crise Socioeconómica, Pobreza e Desigualdades Durante e Após a Pandemia".

A Ordem referiu no documento que o bem-estar e a saúde mental dependem de um conjunto de fatores socioeconómicos. À semelhança do bastonário, aponta para impactos negativos, como a diminuição do bem-estar e o aumento do stress e de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, provocados pela crise socioeconómica.

Segundo o relatório, os fatores socioeconómicos que agravam a saúde mental em contexto de pandemia são o desemprego, a precariedade laboral, a perda de rendimento, a pobreza e a exclusão social.

A RESPOSTA EXISTE? "É UMA PEDRADA NO CHARCO"

Francisco Miranda Rodrigues afirmou que o Aconselhamento psicológico na linha telefónica do SNS 24 veio melhorar a resposta ao impacto da pandemia na saúde mental e que o serviço é um passo histórico em "plena crise". No entanto, considerou que é limitado.

"Muitas vezes os psicólogos identificam a necessidade de ter que ter algum acompanhamento. Esse mecanismo de encaminhamento para o Serviço Nacional de Saúde não existe", argumentou.

A rezão? Não há psicólogos suficientes para dar uma resposta em tempo útil no Serviço Nacional de Saúde.

Veja também:

Especial de Saúde Mental da SIC Notícias

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