Coronavírus

Reunidas as condições para uma reabertura gradual do país a partir de 15 de março

ANTÓNIO PEDRO SANTOS / LUSA

Tendência de descida de novos casos, internamentos e mortalidade, índice Rt é dos mais baixos da Europa, mas está a aumentar.

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As previsões dos especialistas presentes esta manhã na reunião do Infarmed são animadoras. Referem que, a partir do dia 15 de março estarão reunidas as condições para uma reabertura gradual, faseada, do país.

Isto porque:

  • Os contágios estão a descer em todas as faixas etárias.
  • Portugal tem neste momento o risco de transmissibilidade mais baixo da Europa - o Rt está em 0,74, mas tem estado a subir há 3 semanas.
  • O número de pessoas em cuidados intensivos está a baixar mais rapidamente do que o previsto e, no final deste mês, pode mesmo chegar ao 120 internados.
  • Já se notam os efeitos da vacinação nos internamentos dos idosos.

Portugal tem o índice de transmissibilidade mais baixo da Europa

Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), faz a análise da evolução da incidência e transmissibilidade, revela que o índice em Portugal é o mais baixo da Europa, mas tendência está a desacelerar.

"Há uma tendência de decréscimo [de casos] mas que tem vindo a diminuir" - o índice Rt = 0,74, mas está a aumentar.

"Continuamos a apresentar o Rt mais baixo da Europa e com uma incidência já perto dos 120 [novos casos] por 100 mil habitantes"

Contudo, o investigador do INSA, que integra o grupo de peritos que presta apoio ao Governo na tomada de decisões no âmbito da pandemia de covid-19, sublinha que a "tendência de decréscimo [da incidência] tem vindo a desacelerar" e alerta que o índice de transmissibilidade está "abaixo de 1 em todo o continente, mas superior a 1 nas regiões autónomas" da Madeira e dos Açores.

Com efeito, em termos de índice de transmissibilidade, a região Centro apresentou um Rt de 0,68, Lisboa e Vale do Tejo registou 0,70, o Alentejo observou 0,72 e o Norte e o Algarve tiveram um Rt de 0,75. Simultaneamente, foi estimado para os Açores um valor de 1,14 e para a Madeira de 1,24, apesar de Baltazar Nunes ter admitido a possibilidade de desvio nos números estimados para a região madeirense.

Sobre a estratificação da incidência de novos casos por grupos etários, Baltazar Nunes indicou que a comparação entre a primeira e segunda quinzena de fevereiro apontam para "uma redução mais acentuada da incidência entre os 20 e os 50 anos e na população com mais de 80 anos, onde se observa o decréscimo mais acentuado", notando ainda que as projeções da incidência para março se mantêm, com uma incidência inferior a 120 casos por 100 mil habitantes na primeira quinzena e inferior a 60 na segunda quinzena deste mês.

"As projeções de doentes em UCI falharam por excesso"

De acordo com o epidemiologista do INSA, a Europa registou recentemente um aumento dos índices de mobilidade, embora Portugal tenha os níveis mais reduzidos a nível europeu, uma vez que continua a ser dos países com algumas das medidas mais restritivas de confinamento.

Por outro lado, Baltazar Nunes salientou uma evolução mais positiva do que aquela que era esperada para o internamento de doentes com covid-19 em unidades de cuidados intensivos (UCI), que apontava para um número abaixo de 300 em meados de março e abaixo de 200 no final do mês.

"As projeções de doentes em UCI falharam por excesso, o que é bom. Atualmente, a meio de março, projeta-se uma ocupação de cuidados intensivos de 240 doentes e, no final de março, mantendo-se esta tendência, projeta-se uma ocupação de 120 doentes covid internados em cuidados intensivos no final de março", concluiu.

Variante do Reino Unido é a dominante em Portugal

André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde, revela que a variante do Reino Unido é a dominante em Portugal e que há uma tendência para a diminuição de novos casos.

"Há um crescimento da incidência" da variante britânica com maior expressão na região de Lisboa e Vale do Tejo, com aproximadamente 66% casos positivos, mas com um crescimento na região Centro e na região Norte com uma prevalência superior a 50% atualmente.

Tendência de descida de novos casos, internamentos e mortalidade

"Vemos desde a última reunião do Infarmed que houve uma manutenção da tendência de descida [de novos casos] e a incidência de Portugal ao dia de ontem [domingo] era de 141 casos por 100 mil habitantes".

Analisando a dispersão geográfica da incidência, André Peralta adiantou que se observa "uma melhoria de acordo com os patamares do ECDC [Centro Europeu de Controlo de Doenças] da incidência a nível nacional, com grande parte do território já com incidências inferiores a 120 casos por 100 mil habitantes".

Segundo o investigador, a região de Lisboa e Vale do Tejo, algumas partes da região centro e da região do Alentejo continuam com incidências superiores a 120 casos por 100 mil habitantes.

"Quando observamos a variação da incidência de forma geral o país continua com uma tendência decrescente, uma variação de incidência negativa, apesar de alguns municípios esporadicamente terem variações positivas da incidência, mas dispersos um pouco por todo o território, mais no interior, mas comum número reduzido", salientou.

De acordo com André Peralta, as incidências de covid-19 também estão a descer em todas em todas as idades, continuando o grupo etário com 80 ou mais anos com a "incidência mais alta" e o grupo dos 60, 70 e 70, 80 continuam a ter uma incidência menor e são dos grupos mais protegidos.

Em termos de evolução dos internamentos e internamentos em Unidades de Cuidados Intensivos mantém-se a tendência de descida com 354 casos em unidade de cuidados intensivos semelhante à primeira semana de novembro.

O internamento em enfermaria é em maior número no grupo etário dos 80 mais, seguido dos 70, 79, 60, 69 e vai decrescendo à medida que a idade também diminui.

Nos internamentos em cuidados intensivos o padrão é diferente e o grupo etário com maior número de casos é o dos 60 aos 69, o que André Peralta considerou "particularmente relevante", porque à medida que se for vacinando a população de 80 a mais, terá "grande impacto na mortalidade".

"Para termos impacto na redução da utilização de cuidados intensivos teremos que aguardar até que a vacinação se alargue e tenha grande expressão dos grupos mais de 50 anos", defendeu.

Relativamente à mortalidade, também se mantém a tendência de descida, com 56 mortos por milhão de habitantes, sendo semelhante à terceira semana de outubro.

Variante britânica prevalente, da África do Sul e Manaus controladas

João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), explica que a variante britânica "é prevalente a partir de fevereiro".

Em Portugal foram detetadas as variantes da África do Sul (12 casos) e a variante de Manaus (11 casos) "mas estão controladas".

Estas duas variantes que "têm gerado muita preocupação" devido à "elevada transmissibilidade" e a estarem "associadas potencialmente às falhas vacinais".

Quanto à variante associado ao Reino Unido, João Paulo Gomes afirmou que cresceu cerca de 20% na última semana, correspondendo a 65% dos casos no país.

"Todos estes casos são reportados de imediato à Direção-Geral de Saúde que contacta as unidades locais e sabemos que tem sido feito o rastreio de contactos de uma forma imediata e pelo que nos foi dado a conhecer está tudo perfeitamente controlado", disse, acrescentando que "boa parte dos casos já tiveram alta e são poucos ainda os que estão em confinamento".

Fazendo o enquadramento de Portugal no mundo, em termos da variante da áfrica do Sul, o cientista afirmou que estes 12 casos constituem ainda "uma linha base muito ténue quando comparado, por exemplo, com a situação que se vive na Bélgica ou Reino Unido com mais de 200 casos importados com a variante da áfrica do Sul e mesmo a França, Áustria, com entre 100 a 150 casos".

Quanto à variante de Manaus, afirmou que "há uma distribuição bastante mais homogénea" entre países que reportaram casos desta variante, que já está em mais de 20 países, enquanto a da África do Sul está em mais de 40 e a do Reino Unido em mais de 80 países.

"Portugal com estes 11 casos situa-se mais ou menos no meio dos países que já reportaram a presença desta variante, com a Itália e Bélgica a liderarem a Itália então com mais de 40 casos da variante Manaus", sublinhou.

Sequências do novo coronavírus

Na sequência do trabalho que está a realizar em termos de vigilância por sequenciação genómica, o INSA recebeu este mês cerca de 1.100 amostras da Rede Nacional de Laboratórios, que representam 17 dos 18 distritos e 152 concelhos", o que é "uma representatividade geográfica muitíssimo robusta".

Num balanço global da variação da prevalência das várias variantes com interesse epidemiológico desde novembro até fevereiro, o investigador referiu uma variante que surgiu em Espanha em meados do verão e se espalhou por toda a Europa.

"Portugal não foi exceção, em novembro tínhamos mais de 70% dos casos de covid-19 causados por esta variante, indicada como 222, que está a perder terreno pelo aparecimento da variante do Reino Unido que em fevereiro já é claramente prevalente", adiantou.

Outras variantes sob vigilância

Chamou ainda a atenção para duas outras variantes com "alguma relevância epidemiológica" em Portugal, a S477N, potencialmente transmissível porque tem uma mutação no domínio de ligação do vírus às nossas células.

Esta variante tem estado "mais ou menos estável, com um ligeiro decréscimo observado em fevereiro" em Portugal.

Outra variante, designada por L452R, também "é potencialmente muito transmissível", associada à perda de ligação dos anticorpos e à qual se dever estar atento.

"Esta variante apesar de ter descido um bocadinho dos 7% para os 5% está em mais de 40 concelhos no nosso país", salientou João Paulo Gomes.

Plano de resposta com cinco níveis de medidas

O epidemiologista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto Henrique Barros apresentou hoje um plano de resposta à pandemia de covid-19 com cinco grandes níveis de medidas que consigam antecipar a evolução da infeção em Portugal, sublinhando, porém, que o plano proposto -- delineado com base nas experiências de outros países da União Europeia e Reino Unido - não tem "limites rígidos" na implementação.

  • nível 0, que contempla apenas medidas individuais não farmacológicas, como uso de máscara, distanciamento e lavagem das mãos
  • nível 1, em que não são autorizadas reuniões com mais de 50 pessoas
  • nível 2, em que se fecham cafés, restaurantes e o comércio
  • nível 3, em que se interrompem atividades de ensino presencial secundário e superior
  • nível 4, com a interrupção das atividades de ensino presencial no básico e creches.

"Imaginar como é que em cada momento é o momento da incidência dos últimos 14 dias ou o valor atual dos internamentos e, a partir desses valores, prever o que irá acontecer nos próximos 14 dias e, em função daquilo que se espera, decidir já, tirando partido do facto de sabermos que as medidas demoram cerca de 10 dias a atuar. Portanto, temos assim a evidência do que poderá acontecer no pior cenário ao fim de cerca de 10 dias", explicou.

Sem deixar de notar que estes conjuntos de medidas requerem "monitorização e avaliação continuada", Henrique Barros vincou ainda que "as orientações propostas decorrem de um modelo conservador", que resultam da análise da resposta nacional quando existia um menor conhecimento da infeção, menor acesso a testes, número limitado de indivíduos imunes e ausência de vacinação.

"O plano de atuação desenhado permite antecipar a resposta a nível nacional e regional, decidir dentro de uma amplitude razoável de carga de infeção para uma resposta adequada, nomeadamente dos serviços de saúde, e acomodar o possível efeito de variantes víricas com transmissibilidade aumentada", acrescentou.

"Manutenção das medidas por enquanto"

Baltazar Nunes apresentou os indicadores que devem orientar a implementação de medidas e, tendo em conta que "a incidência acumulada de perto de 120 casos de covid-19 por 100 mil habitantes em Portugal" considera que faz com que seja necessária "manutenção das medidas por enquanto".

Entre os indicadores mais importantes, o investigador realçou como objetivos uma incidência a 14 dias inferior a 60 casos por 100 mil habitantes, um índice de transmissibilidade (Rt) abaixo de 1, uma taxa de positividade nos testes menor do que 4% e um atraso na notificação em menos de 10% dos casos confirmados, o isolamento precoce e rastreio de contactos em 24 horas de pelo menos 90% dos casos, uma taxa de ocupação em cuidados intensivos até 85% para a capacidade após março de 2020, e a vigilância e controlo das variantes.

"O que propomos é um referencial de análise conjunta destes indicadores. Têm de ser analisados em conjunto. Como indicadores principais que têm de ser monitorizados identificamos a incidência acumulada a 14 dias, o Rt e o número de camas ocupadas em unidades de cuidados intensivos", sintetizou.

Paralelamente, Baltazar Nunes enfatizou a importância de uma atuação rápida ao nível da tomada de decisão sobre as medidas de restrição quando o Rt cresce e supera o 1, porque isso indicia uma nova tendência de crescimento da pandemia no país.

"A urgência de agir e a intensidade das medidas passa por analisar os tempos até atingir os 240 casos por 100 mil habitantes", referiu, apontando ao máximo utilizado por vários países, sublinhando a questão com um exemplo: "Se tiver uma incidência abaixo de 60 casos, mas um Rt de 1,2 posso só ter 30 dias para atingir o máximo de 240 casos por 100 mil habitantes".

De acordo com o perito do INSA, a evolução da pandemia apresenta ainda algumas assimetrias a nível regional, com destaque negativo para a área metropolitana de Lisboa.

"A nível nacional estamos muito próximos dos 120 casos por 100 mil habitantes, mas há alguma diversidade em relação às regiões. Norte, Centro, Alentejo e Algarve já estão abaixo, mas Lisboa e Vale do Tejo está acima dos 120 casos por 100 mil habitantes", observou, finalizando com o anúncio de que a análise da situação epidemiológica e os indicadores hoje referenciados vão passar a ser publicados de forma periódica.

Objetivo: 60 casos por 100 mil habitantes

Óscar Felgueiras, da Administração Regional de Saúde do Norte e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e Raquel Duarte, Administração Regional de Saúde do Norte e Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, apresenta quais são os critérios que vão balizar a redução das medidas restritivas.

"O objetivo é atingir o nível abaixo de 60 casos por cem mil habitantes".

Grande parte do território já tem incidências inferiores a 120 casos por 100 mil habitantes, revelou anteriormente André Peralta Santos, da DGS.

Quase de 2,6 milhões de mortos e mais de 116 milhões de infetados no mundo

A pandemia do novo coronavírus matou pelo menos 2.593.872 pessoas no mundo desde o final de dezembro de 2019, segundo o levantamento hoje realizado pela agência de notícias AFP a partir de fontes oficiais às 11:00.

Mais de 116.768.620 casos de infeção foram oficialmente diagnosticados desde o início da pandemia.

Os países mais afetados continuam a ser os Estados Unidos, o Brasil, o México a Índia e o Reino Unido.

Em Portugal, foram registadas 16.540 mortes e 810.094 casos de infeção pelo vírus SARS-CoV-2 desde o início da pandemia.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Links úteis

Mapa com os casos a nível global

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