Crise Climática

"Cápsula do tempo" enterrada no Polo Norte aparece na Irlanda por causa do degelo

Demorou apenas dois anos a percorrer quase 4 mil quilómetros.

Quando a tripulação e os passageiros de um navio enterraram uma "cápsula do tempo" no gelo do Polo Norte em 2018 queriam que os habitantes do futuro soubesessem como se vivia no início do século XXI. Mas o futuro chegou demasiado depressa devido ao aquecimento global do planeta.

O tubo metálico cheio de objetos foi encontrado à deriva no norte da Irlanda. Continha cartas, poemas, fotografias, emblemas, bases de copos de cerveja, menu do navio, rolhas de vinho.

DR

Viajou mais de 3.700 km a partir do Círculo Polar Ártico, onde o aquecimento global está a derreter uma enorme quantidade de gelo.

Foi encontrado por Conor McClory e Sophie Curran, surfistas da vila de Gweedore em Donegal.

“Quando o vi, primeiro pensei que fosse um tubo de aço de um navio, depois apanhei-o e vi que tinha uma gravação. Pensei que era uma bomba, ”disse McClory ao Donegal Daily. “Quando vi a data, pensei que poderiam ser as cinzas de alguém, então não abri”.

Um amigo russo de um amigo traduziu a gravação e explicou então a McClory que era uma cápsula do tempo. Ao abrir, encontraram cartas em russo e inglês da expedição polar do navio russo "50 anos da Vitória".

Uma das cartas em inglês, datada de 4 de agosto de 2018, dizia:

“Tudo ao redor está coberto de gelo. Achamos que, quando esta carta for encontrada, não haverá mais gelo no Ártico, infelizmente ”.

McClory foi à procura do autor da carta e encontrou o blogger de São Petersburgo conhecido como Sveta. Através do Zoom, Sveta disse que a tripulação e os passageiros pensaram que o cilindro só seria descoberto em 30 ou 50 anos e ficou chocado ao saber que tinha sido encontrado tão rapidamente, disse McClory.

Conor McClory e Sophie Curran

Gelo no Ártico atingiu o segundo nível mais baixo desde que há registo

O gelo no oceano Ártico atingiu este verão o segundo nível mais baixo desde que há registo, devido ao aquecimento global e ainda a causas naturais que levam ao derretimento, divulgaram em setembro cientistas norte-americanos.

A extensão do oceano coberto de gelo no Pólo Norte, e que se estende mais a sul para o Alasca, Canadá, Gronelândia e Rússia, atingiu o seu ponto mais baixo no verão, de 3,7 milhões de quilómetros quadrados na semana passada, antes de começar a crescer novamente.

O gelo no Ártico atinge o seu ponto mais baixo em setembro e o seu pico em março, após o inverno, noticia a agência AP.

Degelo registado fica apenas atrás do ano de 2012

O degelo registado este ano fica apenas atrás do ano de 2012, quando o gelo diminuiu para 3,4 milhões de quilómetros quadrados, segundo o National Snow and Ice Data Center (NSIDC), que mantém registos através de imagens de satélite desde 1979.

Na década de 1980, a cobertura de gelo naquela região do globo era cerca de 2,7 milhões de quilómetros quadrados maior do que os níveis atuais registados no verão.

O diretor do NSIDC, Mark Serreze, explicou que uma onda de calor na Sibéria na última primavera e um fenómeno climático natural no Ártico foram as causas para o degelo, assim como o aquecimento causado pela queima de carvão, petróleo e gás natural.

As temperaturas durante grande parte do ano estão entre os 8 e os 10 graus Celsius acima do habitual no Ártico na Sibéria.

"Estamos certamente a ver a mudança climática a acontecer, porque os verões quentes tornam-se mais quentes e os invernos frios não são tão frios como antes", analisou.

Houve uma tendência de diminuição na última década, com ligeiras variações devido a causas naturais, disse ainda.

Os estudos demonstram que o aquecimento no Ártico e o derretimento de gelo marinho mudam o clima mais a sul, alterando as correntes e outras ondas que influenciam os sistemas meteorológicos.

Essas mudanças refletem-se no aumento de tempestades de inverno no leste dos Estados Unidos, destacou a cientista climática Jennifer Francis, do Woodwell Climate Research Center, em Woods Hole, Massachusetts.

"O que acontece no Ártico, como costumamos dizer, não fica no Ártico", realçou também o cientista climático Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia.

"Vemos o impacto do aquecimento do Ártico na forma de ondas de calor sem precedentes, inundações, secas ou incêndios florestais que agora estamos a enfrentar nos Estados Unidos e no resto do mundo", concluiu.