António Magalhães, 73 anos, levantou-se no meio de uma sessão em Gaia com o candidato presidencial André Ventura para lhe dizer que ficou com medo quando o ouviu falar de "três Salazares" depois de ter vivido "21 anos no fascismo".
O debate num hotel de quatro estrelas em Vila Nova de Gaia começou com vários elogios do moderador, Joaquim Jorge, a André Ventura, mas tomou outro rumo na fase de perguntas e respostas, depois de António Magalhães pedir a palavra, enquanto empunhava uma folha A4 onde se lia "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais".
"André Ventura fez uma afirmação recentemente que disse que eram precisos três Salazares. Eu fiquei com medo. Eu tenho 70 anos e como vivi 21 anos no fascismo quero que me diga o que é que o fascismo fazia melhor para precisarmos agora de três Salazares, para voltarmos ao fascismo", disse o homem que se apresentou como membro fundador do Clube dos Pensadores, que organizou a sessão.
“O Clube dos Pensadores é para pensar”
O gestor de empresas disse que o aconselharam a não levantar o cartaz novamente - alguém que não quis identificar -, mas voltou a fazê-lo numa sala cheia de apoiantes de Ventura, salientando: "Eu estou no Clube dos Pensadores. O Clube dos Pensadores é para pensar e é para haver diferenças. É um debate, isto não é uma sessão de esclarecimento, nem é uma sessão de propaganda".
Na resposta, André Ventura disse que o homem vive há "50 anos num marasmo de corrupção, que é aquilo que nós tivemos nos últimos 50 anos".
Ventura diz que foi “expressão” e “nada tem que ver com passado”
O também líder do Chega considerou que "isto nada tem que ver com o passado" e pediu que não se faça "revisionismo histórico para justificar o presente".
"Eu não quero voltar para trás. Foi uma expressão de querer pôr o país na ordem", acrescentou o candidato a Presidente da República.
Afirmando que "socialistas, comunistas e bloquistas, etc.. ficaram presos só a dizer 25 de Abril sempre, e juntaram-se numa tralha de destruição do país", Ventura disse querer "correr com esta tralha".
No resto da sessão, António Magalhães continuou com o cartaz levantado enquanto eram colocadas outras perguntas, o que levou Joaquim Jorge a considerar o gesto "deselegante" e "um boicote" ao seu trabalho, terminando de seguida o debate, enquanto se ouviam alguns insultos contra o homem de 73 anos. "É um palhaço", disse um dos presentes.
Enquanto jornalistas falavam com o gestor de empresas, vários apoiantes de André Ventura lançaram insultos contra a comunicação social e contra o homem.
"Eu só queria dizer que o fascismo foi pior que os 50 anos [do 25 de Abril]. Dizem que é 50 anos de socialismo, mas 48 anos de fascismo é que foi mau. Eu levantava-me aos dez anos para vir para o Porto estudar e fazia duas horas, porque não havia escolas, não havia médicos, não havia nada. O meu pai trabalhava 14 horas para nós conseguirmos fazer alguma coisa", contou. "Não tínhamos nada antes do 25 de Abril, mas temos a democracia, pelo menos, para lutar por ela", disse, vincando que não é militante de qualquer partido.
Enquanto era interpelado por um apoiante que o acusava de ser lixo, António vincou: "cada um pensa pela sua cabeça, eu penso pela minha".
"Esta realidade não tem nada a ver. Temos um país na União Europeia e não estamos orgulhosamente sós. Agora temos a democracia e o povo é que ordena", sublinhou.
Se os militantes insultaram jornalistas no final do debate, durante a sessão, André Ventura não se escusou a criticar a comunicação social por diversas vezes, acusando-a de fazer "ativismo" e de levar o seu adversário, António José Seguro, "ao colo".
Numa sessão no mesmo dia em que disse "que se lixem as eleições", o candidato abordou os efeitos do mau tempo mas voltou a pontos que normalmente marcam a sua campanha, criticando novamente minorias, sem dizer quais, e apelou ao voto na sua candidatura.
A sessão de hoje em Gaia já tinha sido comunicada pelo Clube dos Pensadores, mas a presença de Ventura só foi confirmada aos jornalistas apenas duas horas antes.
Com LUSA