Esquecidos

Os motoristas que mudam vidas em Rustenburg

Tadeu Andre

Violência sexual e de género na África do Sul

Lebogang Seketama é um dos oito motoristas que trabalham no projeto da Médicos Sem Fronteiras dedicado à assistência a sobreviventes de violência sexual e de género em Rustenburg, na África do Sul, país com uma das mais elevadas taxas de violação e de femicídio no mundo inteiro.

Tadeu Andre

Todos os dias, transporta sobreviventes de violência sexual à clínica mais próxima. E, como com os outros motoristas neste programa, é muito frequente ser ele a primeira pessoa com quem a sobrevivente contacta após um incidente – por isso, recebeu formação em primeiros-socorros psicológicos para que esteja capacitado a agir adequadamente e apoiar as sobreviventes desde o primeiro momento.

Lebogang Seketema – que prefere, simplesmente, Lebo – conhece a dor e o sofrimento que a violência sexual causa em quem a viveu. A irmã foi molestada por um vizinho quando tinha nove anos. O acesso a cuidados era muito limitado nessa altura e a família decidiu esquecer o que se passara.

A violência sexual é uma emergência

O trabalho de Lebo como motorista no projeto de apoio a sobreviventes de violência sexual e de género operado pela MSF é feito bem no coração da cintura de mineração de platina na África do Sul: Rustenburg.

Aqui, nos acampamentos informais que se espalham em volta das minas, os homens são mais do que as mulheres, de 120 para 100. E uma mistura poderosa de violência estrutural histórica, dificuldades económicas e dinâmicas tradicionais de género traduz-se em que muitas mulheres, especialmente as que têm filhos, dependem dos parceiros masculinos para sobreviver.

Muitas mulheres ficam vulneráveis à violência sexual e de género.

Um lugar de conforto

Todos os dias, Lebo e os outros sete motoristas do projeto revezam-se para encontrar e transportar sobreviventes de violência sexual – ou as “clientes”, como a elas se referem –, levando-as a receberem cuidados de emergência médicos e psicológicos, além de apoio social, num dos quatro Centros de Cuidados Kgomotso (kgomotso significa “lugar de conforto” em setswana, o idioma local).

Estes centros são geridos pela MSF em parceria com o Departamento de Saúde do Noroeste e abrangem toda a área dos acampamentos informais. Cada um destes centros tem equipas formadas por enfermeiras forenses, assistentes sociais e profissionais de aconselhamento registados, providenciando às clientes um pacote de cuidados para tratar ferimentos sofridos, ajudar na prevenção do vírus da imunodeficiência humana (VIH), de doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas e, ainda, prestar aconselhamento psicológico e um muito necessário apoio social.

Como socorristas de primeira-linha, os motoristas da MSF são as primeiras pessoas com as quais uma sobrevivente de violência sexual e de género se encontra após um incidente.

Uma em quatro mulheres violada

O papel que desempenham no percurso de cuidados prestados à sobrevivente é, por isso, considerado uma parte vital da abordagem que a MSF desenvolve com o objetivo de garantir um tratamento humano, não intrusivo e de efetivo apoio às sobreviventes desde o primeiro momento.

Tal como Lebo, todos os motoristas neste projeto tomaram profunda consciência da sua identidade como homens perante as sobreviventes, num contexto em que, por toda a África do Sul, a vasta maioria dos abusos sexuais é perpetrada por agressores do sexo masculino.

Um estudo feito pela MSF, em 2015, com 800 mulheres no município de Rustenburg, indicou que uma em quatro mulheres tinha sido violada em algum momento da sua vida. Mais de 11 mil mulheres e raparigas tinham sofrido violação naquela região apenas.

África do Sul tem uma das mais elevadas taxas de violação e de femicídio do mundo

Tragicamente, 95% das mulheres ouvidas neste estudo nunca reportara a violação a um profissional de saúde, muitas por medo ou vergonha e também devido ao limitado conhecimento sobre a importância de obter cuidados imediatamente.

A África do Sul tem uma das mais elevadas taxas de violação e de femicídio do mundo, com 52 420 crimes sexuais reportados a nível nacional em 2018 – e os dados sugerem que o número seja muito mais elevado.

Melanie Wenger

Os motoristas da MSF recebem, assim, formação em primeiros-socorros psicológicos para saberem abordar as sobreviventes com compaixão e evitar causar traumas secundários. Os princípios de primeiros-socorros psicológicos – com os quais é dado apoio de primeira linha a quem enfrenta uma crise – implicam saber fazer uma avaliação da situação imediata, gerar confiança e empatia com as pacientes e ajudá-las a chegar ao passo seguinte na prestação de cuidados.

“Conseguem imaginar: eu sou um homem e a senhora sofreu abuso cometido por um homem. Ela tem de entrar no carro e às vezes eu estou sozinho no carro com ela. Sabem o que se sente... Tenho de fazer com que ela perceba que está num lugar seguro, de que está em segurança comigo”, explica Lebo.

"Eu estava a chorar..."

Para a sobrevivente Poppy Makgobatlou, do distrito de Babong em Rustenburg, o primeiro contacto com um motorista da MSF deixou uma impressão duradoura.

Ao fim de muitos anos a sofrer abusos cometidos pelo homem que é agora o seu ex-marido, Poppy conseguiu finalmente reunir coragem para procurar o apoio da MSF. E depois de ter telefonado para a linha de ajuda disponível 24h e reportar o seu caso, um motorista da MSF foi buscá-la.

Tadeu Andre

“Eu estava a chorar e então [o motorista] disse-me: ‘Não sei quanta dor está a sentir, não lhe posso dizer que tudo vai ficar bem, porque não sei há quanto tempo vive assim com esse sofrimento, o que lhe posso dizer é que tente ser forte’”, recorda Poppy, que recebeu tratamento no Centro de Cuidados Kgomotso apoiado pela MSF em Babong.

Conforme as pessoas vão sabendo da existência e do propósito dos Centros de Cuidados Kgomotso, um cada vez maior número de sobreviventes está a procurar obter ajuda e tratamento.

O primeiro centro que abriu em Rustenburg recebeu, em 2015, 62 casos de violência sexual e de género. Este número cresceu, com os quatro centros existentes em Rustenburg e em Madibeng a terem assistido um total combinado de 1 266 novos casos em 2018 e mais 657 novos casos na primeira metade de 2019.

Muitos casos são agora encaminhados para os centros Kgomotso a partir das muitas atividades comunitárias que a MSF desenvolve na região com o objetivo de gerar consciencialização sobre a violência sexual e de género, e nas quais são treinados líderes comunitários como “socorristas de primeira-linha” para saberem identificar sobreviventes e providenciarem apoio imediato, ao mesmo tempo que as encaminham para tratamento.

Melanie Wenger

Para Lebo e os outros motoristas do projeto, trabalhar na MSF e contactar com sobreviventes alterou a própria perceção que tinham da violência e do papel que cada um deles pode ter em mudar a mentalidade de outros homens.

Além do trabalho que desempenha no dia a dia, cada motorista está também a ter um papel ativo na promoção da mudança na sua comunidade.

ESQUECIDOS

É um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.

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