Football Leaks

Rui Pinto acedeu a documentos de Tancos, BES e Operação Marquês

Criador do Football Leaks acedeu 307 vezes aos servidores da PGR em apenas dois meses.

Rui Pinto, criador do Football Leaks, realizou 307 acessos em dois meses aos servidores da Procuradoria-Geral da República e obteve documentos dos processos de Tancos, do BES e da Operação Marquês, segundo a acusação do Ministério Público.

O Ministério Público (MP) acusou Rui Pinto de 147 crimes, 75 dos quais de acesso ilegítimo, 70 de violação de correspondência, um de sabotagem informática e um de tentativa de extorsão, por aceder aos sistemas informáticos do Sporting, da Doyen, da sociedade de advogados PLMJ, da Federação Portuguesa de Futebol e da Procuradoria-Geral da República (PGR), e consequente divulgação de dezenas de documentos confidenciais destas entidades.

A acusação do MP, a que a agência Lusa teve acesso, refere que entre 06 de novembro de 2018 e 07 de janeiro de 2019 o arguido "efetuou um total de 307 acessos" à PGR.

Ao todo, o arguido obteve 79 documentos: sete extraídos da pasta do Conselho Superior do Ministério Público, 41 do Sistema de Informação do Ministério Público e 31 de "extraídos de outras pastas da PGR", lê-se na acusação, acrescentando que os mesmos foram guardados num disco externo.

Rui Pinto teve acesso a documentos e despachos relacionados com o inquérito sobre o universo Espírito Santo (BES), um dos maiores escândalos financeiros e que lesou mais de 10 mil clientes, e com o furto de armas em Tancos, ocorrido em junho de 2017 e que levou à constituição de arguido do ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, que saiu na sequência do escândalo relacionado com a alegada encenação no "achamento" do armamento, investigações ainda em curso e em segredo de justiça.

O arguido, indica a acusação, acedeu a despachos e a requerimentos de abertura de instrução da Operação Marquês, que tem como principal arguido o ex-primeiro-ministro José Sócrates, processo que se encontra na fase de instrução.

Entre os processos que Rui Pinto obteve documentação está ainda a investigação ao processo conhecido como Rota do Atlântico, no qual o empresário José Veiga é um dos arguidos e chegou a estar em prisão preventiva por suspeitas de corrupção no comércio internacional, fraude fiscal e branqueamento de capitais e tráfico de influências.

Rui Pinto, que, segundo o MP, foi o "criador" da plataforma informática Football Leaks, teve ainda acesso aos despachos da Procuradora-Geral da República, de 29 de março e de 01 de junho de 2018, em que, no primeiro, "cria a equipa para investigar factualidade passível de integrar crimes no âmbito da competição desportiva (futebol)", e, no segundo, "alarga o número de magistrados" afetos a esta equipa.

O arguido teve também acesso a um documento com o nome, o número de telefone, o endereço de correio eletrónico e a data de nascimento "de todos os magistrados do Ministério Público", assim como a correspondência trocada entre magistrados, relacionada com processos judiciais.

A acusação diz ainda que Rui Pinto acedeu à pasta de correio eletrónico de Amadeu Guerra, à data diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, e que é uma das 71 testemunhas arroladas pelo MP na acusação.

Entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, o arguido consultou mais 12 processos que ainda estão em segredo de justiça.

A defesa de Rui Pinto considerou hoje, em nota enviada à Lusa, que a acusação do Ministério Público "contém numerosas falsidades, nulidades e ilegalidades" e que visa "silenciar e destruir" o criador do 'Football Leaks', plataforma digital em que foram denunciados casos de corrupção no mundo do futebol.

Rui Pinto vai permanecer em prisão preventiva enquanto o advogado Aníbal Pinto está com termo de identidade e residência.

Lusa