O início foi atribulado. À semelhança de milhões de afroamericanos nos Estados Unidos do início do século XX, a infância e juventude de Louis Armstrong foram marcadas pela pobreza, pela família disfuncional, pela premente necessidade de encontrar formas de sustento numa fase bem precoce da vida. Nascido no quarto dia de agosto de 1901, o muito jovem Armstrong distribuiu jornais e engraxou sapatos quando tinha apenas 13 anos. O abandono da família pelo pai e a atividade pouco recomendável da mãe fizeram com que fosse parar a casa de familiares menos perturbados.
Para fugir às agruras do quotidiano, o pequeno Louis repartia os dias na procura de ganhar alguns vinténs e escapulia-se de quando em vez para as imediações dos bares e de pequenas casas de espetáculo onde ficava fascinado com os números musicais a que assistia ou que simplesmente conseguia ouvir. Era assim a vida em Nova Orleães, onde cumpriu o ensino básico. Teve a fortuna de conhecer uma família russa de origem judaica que viu no jovem uma promessa de futuro e que foi um farol de estabilidade, bem maior do que aquele que a sua família biológica podia ou conseguia dar-lhe. Desenvolveu um interesse crescente pela música e, graças a dinheiro prestado pela sua “outra” família, comprou um trompete e foi naturalmente desenvolvendo as suas capacidades e um talento que muitos consideraram inato.
A instabilidade dos seus primeiros anos havia de traduzir-se com diversos problemas com as autoridades; nada de muito grave mas o suficiente para o levar até à "New Orleans Home for Colored Waifs”, basicamente uma casa de acolhimento para jovens delinquentes ou “inadaptados”. Curiosa e inesperadamente, aí trava conhecimento com um monitor responsável pelas atividades musicais no centro. Tal encontro foi decisivo na formação humana e musical de Louis Armstrong. Integrou a banda da casa de acolhimento aprofundou os conhecimentos musicais e instrumentais que lhe garantiriam outra projeção. Descoberto aqui e ali por gente ligada à música, integrou os primeiros projetos mais profissionais quando tinha cerca de 20 anos e já depois de uma experiência de atuações noturnas em diversos bares e como integrante das bandas que animavam os célebres barcos que cruzavam o Mississipi.
Foi tocando em cidades cada vez maiores, integrando bandas e orquestras, contactou com gente do blues e com plateias cada vez mais vastas. O seu nome aparece por inteiro, ou seja, com destaque próprio, quando integra os Hot Five os Hot Seven, em finais dos anos 20. Progressivamente, vai dando nas vistas (e nos ouvidos) com os seus improvisos e solos, tornando-se um artista singular no trompete. Esta singularidade deu no que deu: inúmeros espectáculos, outros tantos duetos e participações especias com figuras de proa no universo do jazz e não só, e uma espécie de revolução no panorama jazzístico, um pouco à semelhança do que Amália fez no fado: Amália trouxe os fadistas para a dianteira dos acompanhantes, Armstrong fez com que o jazz deixasse de ser eminentemente uma música de “ensemble” para ter também solistas, protagonistas individuais e de nome próprio.
Deixou diversas gravações que podem e devem ser escutadas nas diversas plataformas que as disponibilizam, ou nos discos que deixou, a solo ou com outros intervenientes, e que, manda a verdade dizer, podem ser adquiridos a preços bem módicos. De entre a vasta discografia, muitos sublinham a sua parceria com a enorme Ella Fitzgerald mas, se querem a minha opinião, prefiro trabalhos a solo como “Satch Plays Fats” (um tributo primoroso a Fats Waller), de 1955, “Satchmo at Symphony Hall” (1947), “Louis and the Good Book” (1958) ou o notável “Louis Armstrong at the Crescendo” (1955). É só pesquisar pela web e perceber que uma descoberta leva a outra, que por sua vez leva a outra e assim sucessivamente...
A melhor notícia de todas, porém, surge apenas agora, para os que paciência tiveram de ler até aqui: é que o Louis Armstrong House Museum, no bairro de Queens, onde Armstrong viveu boa parte da sua vida, e onde acabaria por morrer em julho de 1971, abriu as suas portas virtuais e permite que, pela primeira vez no conforto de nossas casas, possamos aceder sem limitações ao espólio sito na casa onde viveu e morreu o artista. A exposição virtual é pura e simplesmente encantadora: dividida por capítulos de facílimo acesso e compreensão, está recheada de soberbas e pouco vistas fotos do trompetista, cantor e ator, de primorosos registos áudio, de ensaios e observações pertinentes sobre a vida e obra de um dos mais importantes (e inesquecíveis) nomes da história da música. Basta acessar “That’s My Home” e mergulhar sem medo e com prazer assegurado no fascinante universo do homem que fazia a música sorrir. Porque, apesar dos pesares, It´s a wonderful world, certo?

