O plano de cessar-fogo em Gaza entra em vigor nas próximas horas, mas poderá enfrentar sérias fragilidades logo no arranque. O comentador da SIC Daniel Pinéu alerta para riscos concretos, sobretudo na fase da entrega dos reféns. O papel de Donald Trump nas negociações leva também à análise do prémio Nobel da Paz.
“Há bastante receio com o que pode acontecer nos próximos dias, por uma variedade de razões”, afirma Daniel Pinéu.
A primeira, explica, está relacionada com “as dificuldades logísticas reais do Hamas para localizar e coordenar todos os reféns, incluindo os corpos dos que morreram, num cenário de grande destruição, colapso de edifícios, túneis arrasados e milícias que detinham reféns mas que não fizeram parte das negociações”.
O especialista sublinha que a estrutura no terreno “tem hoje muito pouca coordenação centralizada”, depois de grande parte da liderança do Hamas ter sido eliminada. “Isso põe alguns problemas, mas à partida esperemos que consiga haver a libertação dos reféns”.
O plano de cessar-fogo contempla a criação de um centro de coordenação conjunto, com forças dos Estados Unidos em Israel, “não forças de combate, mas forças de coordenação”, que irão monitorizar a implementação do acordo. Além dos EUA e de Israel, esse centro incluirá “uma série de países árabes e a Turquia”, um elemento novo “que poderá ter efeitos relevantes no equilíbrio das negociações”.
Outro ponto sensível é que “Israel mantém-se, por tempo indeterminado, na posse de 53% do território de Gaza”. Essa permanência é um obstáculo à desmilitarização do Hamas, uma das condições fundamentais do acordo.
“Mesmo que o Hamas concorde politicamente, há unidades no terreno que poderão não respeitar esse acordo. Isso significa que o período mais perigoso para recomeçar o conflito será imediatamente após a libertação dos reféns e, eventualmente, dos prisioneiros”.
Na manhã em que o cessar-fogo deveria começar, imagens vindas de Gaza mostram colunas de fumo e há relatos de novas explosões. Esses incidentes podem ser interpretados como violações do cessar-fogo e comprometer o processo, mas Daniel Pinéu acredita que “ambos os lados vão tentar manter esta primeira fase por uma variedade de razões”.
“Poderão ignorar algumas das coisas que vão certamente acontecer”, diz, lembrando que “imediatamente antes da assinatura do cessar-fogo, e já depois de o plano ter sido publicamente aceite, houve ainda ataques israelitas que mataram cerca de 40 pessoas e colapsaram um edifício”.
Segundo o analista, é possível que Hamas, Israel ou os Estados Unidos “fechem os olhos a violações consideradas menores, obviamente trágicas, para garantir a troca inicial de reféns e estabelecer alguma confiança”.
“Nada está assegurado para as próximas horas e este plano continua envolto numa grande fragilidade. Há que ir gerindo as expectativas.”
Trump e o Nobel da Paz: “Um ego particularmente frágil”
Com o anúncio iminente do Prémio Nobel da Paz, Daniel Pinéu comenta também o papel de Donald Trump nas negociações.
“É evidente que o timing do acordo em Gaza foi pensado. Trump estava frustrado com ambos os conflitos, mas investiu muito mais neste do que na Ucrânia ou na Rússia, onde sentia que tinha menos capacidade de vitória estratégica”.
Segundo Pinéu, o ex-presidente norte-americano “forçou o primeiro-ministro israelita a aceitar concessões e pedidos de desculpas ao Qatar para acelerar o acordo”.
“Não faço a mínima ideia do que vai acontecer, mas é de esperar que alguém que já disse que devia ter ganho o Nobel quatro ou cinco vezes e que faz listas de conflitos que ‘resolveu’ - mesmo sem ter resolvido metade deles - reaja com o ego ferido se não for distinguido”.
Ainda assim, acredita que a decisão do Comité Nobel não será influenciada por isso. “Já tivemos pessoas literalmente implicadas em crimes de guerra horríveis a receber o Prémio Nobel. Portanto, desse ponto de vista, não me espantaria se isso acontecesse novamente".
